Há exatamente um ano, Íris Dorotéia Martins de 45 anos, morreu após dar entrada no hospital, depois de passar mal durante um procedimento na Clínica de Lorena Marcondes. Acusada pela Polícia Civil de homicídio doloso, a biomédica responde em liberdade. No sábado, o Portal MPA recebeu com exclusividade a informação de que o Ministério Público recorreu da última decisão que a tirou do presídio Floramar.
Quem era Íris?
Íris Martins, de 46 anos, teria pago R$ 12 mil por uma lipoescultura em uma promoção de Dia das Mães, comemorado dias depois. Ela deixou um filho de 12 anos. A família mora no bairro Walchir Resende, em Divinópolis.
Um ano depois nossa reportagem procurou a família de Íris, mas sem respostas sobre este período sem ela. O silêncio da família contrapõe as diversas aparições de Lorena Marcondes ao longo do período.
Relembre a cronologia dos fatos
Segundo informações da Polícia Civil, Iris Martins entrou na clínica por volta das 6h30. Por volta das 10h20, o SAMU foi acionado e a vítima entrou em parada cardiorrespiratória. Uma ambulância a encaminhou em estado grave para o Complexo de Saúde São João de Deus. Porém, ela não resistiu aos ferimentos e faleceu no hospital no mesmo dia.
Imagens do circuito interno revelaram o momento em que a vítima, Íris Martins, acompanhada de seu marido, foi recebida pela biomédica Lorena Marcondes e pela técnica de enfermagem no hall de entrada do prédio que abrigava a clínica de estética. Em outro trecho aparecem algumas pessoas chegando ao local empurrando um carrinho branco de reanimação, equipamento este que foi emprestado de outro consultório localizado no mesmo prédio. Em seguida, um funcionário da clínica foi visto carregando um saco preto, semelhante ao que foi encontrado no carro da funcionária da clínica.
O Portal MPA teve acesso ao boletim de ocorrência, que constatou que não havia sequer o documento de risco cirúrgico e as provas também tentaram ser ocultadas.
Logo no dia seguinte, Lorena e a técnica de enfermagem, Ariele Almeida, foram presas em flagrante e encaminhadas para o Presídio Floramar. Em 24 de maio, as duas acusadas receberam habeas corpus parcial e passaram a cumprir prisão domiciliar.
Em junho, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), proibiu Lorena de exercer sua profissão, bem como utilizar as redes sociais. Além disso, a Justiça bloqueou R$ 100 mil de suas contas bancárias. No dia 16 de agosto, o advogado Tiago Lenoir pediu um habeas corpus total da biomédica. O TJMG a colocou em liberdade.
O que diz a Polícia?
No dia 24 de outubro, a Polícia Civil concluiu o inquérito da morte de Iris Martins. Ao todo, o documento contém mais de 750 páginas, além de 20 perícias e relatos testemunhais. Por fim, Lorena foi indiciada por homicídio doloso qualificado por motivo torpe e traição. A pena é entre 12 a 30 anos de prisão. A corporação responsabilizou a biomédica e outras duas técnicas de enfermagem. Em coletiva de imprensa , a Polícia Civil ressaltou que o procedimento era invasivo e que seria necessário um médico e uma anestesia geral para a lipo. “Ela agia como se fosse dois médicos, usando duas intervenções médicas como se fosse uma cirurgiã plástica. Estava longe de ser um consultório. A Iris só não morreu lá no consultório porque o SAMU chegou a tempo”, disse o delegado Marcelo Nunes.
CPI da Permuta Estética
O crime tomou dimensões no campo da política da cidade. A Vigilância Sanitária havia recebido uma recomendação de que dia 19 de abril, que a Secretaria Municipal de Saúde de Divinópolis tomasse providências em relação à clínica da Lorena Marcondes, devido a problemas recorrentes relacionados ao alvará sanitário. As acusações se referem a uma denúncia de 2022, de um paciente que teve a boca deformada após um procedimento.
Vereadores de Divinópolis pediram uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a postura do município no caso. O legislativo a denominou como “CPI da Permuta Estética”, após alguns andamentos na Câmara Municipal de Divinópolis, a CPI está em aberto e sem conclusão alguma.
O ex-funcionário da Clínica Lorena Marcondes, Marlon Augusto Pereira, foi ouvido na CPI da Permuta Estética em 18 de setembro. Ele estava acompanhado por sua advogada. Foi questionado pelos membros da CPI se o ex-funcionário tinha conhecimento de que a Biomédica Lorena Marcondes emitia receita médica, o que foi confirmado pelo mesmo. O ex-funcionário, também afirmou que no dia do procedimento em que ocorreu o falecimento da paciente, não havia instrumento para aferir pressão arterial na referida clínica, local onde trabalhou por cerca de 20 dias. Marlon também afirmou que durante o tempo que ele trabalhou na clínica, presenciou uma única vistoria da Vigilância Sanitária, sendo que os fiscais permaneceram no local por cerca de meia hora.
A defesa de Lorena respondeu em nota.
Segunda prisão
Lorena Marcondes, foi presa em 22 de março, por obstruir a Justiça após descumprir as exigências feitas na liberdade condicional. Segundo a decisão, ela ameaçou testemunhas do caso e debochou das investigações.
O Portal MPA teve acesso à denúncia do Ministério Público e a decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). Após o fim do inquérito da Polícia Civil, o MP pediu novamente a prisão pelo crime de obstrução da justiça. Nesta segunda-feira (25), o TJ negou o habeas corpus.
Lorena acusou uma testemunha de omissão de socorro e que iria representá-la com uma ação no conselho regulador da sua profissão. A influencer também ameaçou uma outra testemunha através de um celular de um terceiro.
Na última quinta-feira, a Justiça revogou a prisão preventiva da biomédica. Na decisão o Juiz Ivan Pacheco de Castro afirmou que “depois de mais de um mês afastado do convívio familiar…, tenho que a afastada encontra-se preparada para acompanhar a tramitação do feito em liberdade”. Veja a íntegra da decisão.














