Arqueólogos que realizavam escavações em um antigo assentamento celta localizado no oeste da França descobriram cinco conjuntos de grilhões de ferro que datam de aproximadamente 2.300 anos. Esses artefatos, considerados extremamente raros para o período, sugerem que o local pode ter desempenhado um papel significativo no comércio de pessoas escravizadas durante a Idade do Ferro, fornecendo evidências materiais de uma prática que era conhecida principalmente por meio de relatos históricos.
A descoberta ocorreu na cidade de Allonnes, situada no Vale do Loire, durante escavações que aconteceram entre 2019 e 2021. Embora os achados tenham sido feitos há alguns anos, os resultados foram oficialmente divulgados pelo Instituto Nacional Francês de Pesquisa Arqueológica Preventiva (INRAP) em 9 de julho. O assentamento, fundado no século III a.C., estava próximo a um complexo religioso e abrigava diversas oficinas de artesãos, como ferreiros, bronzistas e latoeiros. Durante as escavações, os pesquisadores também encontraram uma grande quantidade de objetos metálicos de alta qualidade, incluindo armas, arreios de cavalo e chaves. No entanto, foram os grilhões que despertaram maior interesse na equipe de pesquisa.
Os arqueólogos identificaram uma algema dupla destinada a pulsos, uma algema para tornozelos e três fragmentos de outros conjuntos semelhantes. Achados desse tipo são raros em sítios arqueológicos celtas, o que torna essa descoberta particularmente relevante. Para os especialistas, a presença desses grilhões, aliada ao grande número de armas encontradas, indica uma sociedade caracterizada por desigualdades sociais acentuadas. Thierry Lejars, especialista em metalurgia celta do INRAP, afirmou que as evidências revelam uma estrutura social hierárquica, composta por grupos dominantes e indivíduos que viviam na condição de prisioneiros ou escravizados.
Embora a escravidão entre os povos celtas já fosse reconhecida por meio de registros escritos de autores gregos e romanos, as evidências arqueológicas diretas são escassas. Os gauleses, um conjunto de tribos celtas que habitavam grande parte da atual França antes da conquista romana, costumavam escravizar prisioneiros de guerra, devedores e pessoas condenadas. Homens, mulheres e crianças eram frequentemente vendidos, comprados e forçados a trabalhar, principalmente na agricultura. O conhecimento sobre essa prática é majoritariamente derivado de fontes externas, muitas vezes escritas por povos que se opuseram militarmente aos celtas. Portanto, descobertas como a de Allonnes são cruciais para preencher lacunas sobre grupos sociais que raramente aparecem na documentação histórica.
As algemas também fornecem informações sobre as vítimas do cativeiro. Uma das algemas para pulsos tem apenas seis centímetros de diâmetro, o que sugere que era destinada a uma mulher ou uma criança. Por outro lado, uma das algemas para tornozelos pesa mais de um quilo, indicando o esforço físico adicional exigido das pessoas mantidas em cativeiro.
Além dos grilhões, os arqueólogos descobriram um santuário religioso, onde encontraram dezenas de oferendas, incluindo roupas, joias, anéis e amuletos. Muitos desses itens foram deliberadamente dobrados, quebrados ou deformados antes de serem depositados, um gesto que os pesquisadores interpretam como parte de rituais destinados a transformar bens comuns em ofertas aos deuses.
Outra série de descobertas reforça a importância religiosa do local. Centenas de moedas foram recuperadas, datadas ao longo de mais de cinco séculos. Aproximadamente um terço dessas moedas apresentava cortes, limagens ou marcas feitas com cinzel, o que sugere que essas modificações não estavam relacionadas ao uso cotidiano. Em vez disso, indicam um ato ritual que despojou as moedas de sua função econômica, dedicando-as ao espaço sagrado.
Localizado em uma interseção de importantes rotas comerciais da Gália pré-romana, Allonnes já era considerado um centro estratégico para a circulação de pessoas e mercadorias. A descoberta dos grilhões amplia a compreensão histórica do assentamento, sugerindo que ele também pode ter estado envolvido no comércio de pessoas escravizadas, um aspecto pouco documentado da sociedade celta que começa a ser mais bem compreendido por meio de evidências arqueológicas.












