Exibido uma única vez na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o documentário “Tudo Pode Ser Visto” provocou forte repercussão e passou a ser apontado por espectadores e críticos como um possível concorrente ao Oscar de Melhor Documentário. A sessão ocorreu no Teatro Cultura Artística, teve público restrito e foi marcada pela alta procura por ingressos, deixando parte dos interessados do lado de fora.
O impacto do filme ocorre antes mesmo de sua estreia comercial no país. A produção chega aos cinemas brasileiros em 26 de novembro, distribuída pela Sony Pictures. Realizado pela A24, o documentário revisita a trajetória de Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos e personagem central de um dos casos mais controversos do Vale do Silício.
Holmes alcançou notoriedade ao apresentar a promessa de transformar o diagnóstico médico. Segundo a proposta divulgada pela Theranos, uma única gota de sangue seria suficiente para identificar centenas de doenças por meio de uma máquina desenvolvida pela empresa. A ideia projetou a empresária como uma nova referência de inovação e rendeu a ela comparações com Steve Jobs.
A imagem pública de Holmes também foi associada ao uso recorrente de suéteres pretos de gola alta, uma escolha visual relacionada ao estilo adotado pelo fundador da Apple. Durante o auge da empresa, ela chegou a ser considerada a mais jovem bilionária self-made do mundo, símbolo de uma ascensão meteórica no setor de tecnologia.
A trajetória, no entanto, mudou quando investigações revelaram que a tecnologia da Theranos não entregava os resultados anunciados. A promessa de uma revolução na área médica acabou exposta como uma fraude, levando Holmes ao centro de debates sobre ambição, poder, prestígio e manipulação no ambiente empresarial e tecnológico.
Documentário transforma caso real em experiência psicológica
Dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, “Tudo Pode Ser Visto” acompanha Elizabeth Holmes ao longo de três anos, até o período imediatamente anterior à prisão da empresária por fraude. Em vez de seguir apenas uma estrutura tradicional de true crime, o filme combina investigação, observação e tensão psicológica para reconstruir a queda de uma figura que, durante algum tempo, foi tratada como um gênio da inovação.
O estilo de Fielder, conhecido pela criação de situações desconfortáveis e pela dúvida constante entre realidade e encenação, se junta à abordagem de Oppenheim. O resultado é uma narrativa descrita como sufocante e sensorial, na qual o público é levado a avaliar continuamente a sinceridade de Holmes e o nível de controle exercido por ela nas interações registradas pelas câmeras.
Com orçamento inferior a US$ 7 milhões, a produção aposta mais na força da observação e do confronto psicológico do que em recursos grandiosos. A combinação entre o olhar investigativo de Oppenheim e a condução direta e provocativa de Fielder foi destacada pelos espectadores que tiveram acesso à sessão em São Paulo. Para esse grupo, a experiência permanece na memória mesmo após o fim da exibição.
Produções também chamam atenção na programação
Outro título em evidência é “O Outro Lado das Redes”, novo trabalho de Aaron Sorkin na direção e no roteiro. O longa retorna aos bastidores do Facebook a partir das denúncias apresentadas por Frances Haugen, personagem interpretada por Mikey Madison. A história trata do desgaste ético da plataforma e amplia o foco para os efeitos das decisões tomadas no ambiente digital.
A produção não se limita ao drama corporativo e explora o choque entre diferentes visões sobre o funcionamento das redes sociais. Jeremy Strong interpreta Mark Zuckerberg em uma atuação descrita como assustadoramente robótica, reforçando a atmosfera de estranhamento do filme diante de um problema que continua presente na vida contemporânea.
Dirigido por Paweł Pawlikowski, “A Terra do Meu Pai” acompanha o escritor Thomas Mann e sua filha, interpretada por Sandra Hüller, durante uma viagem de carro pela Alemanha destruída de 1949. Vencedor do prêmio de Melhor Direção em Cannes, o longa utiliza as marcas deixadas pela guerra como cenário para uma história sobre luto, fragilidade da figura paterna e heranças emocionais. O contexto histórico serve de base para uma narrativa concentrada também nos conflitos e nas dores de uma família.
“Fleabag” mantém força ao tratar de afeto e perda
A série “Fleabag”, criada e protagonizada por Phoebe Waller-Bridge, permanece lembrada pelo humor ácido e pela personalidade disfuncional de sua personagem principal. A produção, porém, vai além da comédia ao tratar de vulnerabilidade, afeto e perda com uma abordagem menos idealizada dos relacionamentos.
Na série, amar aparece como uma experiência difícil, dolorosa e assustadora, marcada pela possibilidade de permitir que outra pessoa conheça o indivíduo por inteiro, incluindo seus traumas e falhas. Mesmo diante do cinismo e das perdas, a disposição para estabelecer vínculos é apresentada como uma forma de esperança. A obra resume essa perspectiva ao lembrar que ninguém morre de amor.
Clássicos e lançamentos estão disponíveis no streaming
“V de Vingança” (2006) é associado ao dia 5 de novembro por causa da frase “Remember, remember the 5th of November!”. O thriller distópico, baseado na história em quadrinhos de Alan Moore, acompanha um vigilante mascarado em confronto com um governo totalitário. Liberdade, controle político e revolução são alguns dos temas que mantêm a obra atual. O filme está disponível na Netflix, na HBO Max e no Prime Video.
Na Max, “A Cadeira” (2025) explora o humor baseado no constrangimento. Criada e estrelada por Tim Robinson, a produção acompanha um homem cuja cadeira quebra durante o expediente, provocando uma situação vexatória. Depois do episódio, ele passa a desenvolver uma obsessão e acredita existir uma conspiração sombria ligada à fabricante do móvel. A narrativa combina paranoia, caos e acontecimentos imprevisíveis.
Entre os clássicos, “Fausto” (1926) continua sendo uma referência do expressionismo alemão. A obra adapta a lenda do homem que troca a própria alma por conhecimento e juventude. Com estética gótica, atmosfera carregada e efeitos práticos ainda impressionantes, o longa é considerado fundamental para a formação do terror cinematográfico. O filme pode ser encontrado nos catálogos da Mubi e do Telecine.











