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Transplante fecal pode melhorar sono de pessoas com problemas para dormir; estudo

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Um teste clínico feito na China mostrou que a ingestão de cápsulas contendo um conjunto de bactérias e outros micro-organismos tipicamente presentes no intestino de doadores saudáveis pode ajudar a tratar sintomas de insônia crônica. Os resultados encontrados pelos pesquisadores foram publicados nesta quarta-feira (22) em um artigo no Journal of Internal Medicine.
Segundo os autores, um mês após o tratamento, os participantes que receberam as cápsulas com o material fecal apresentaram melhora significativa na “eficiência do sono” — indicador que mede a porcentagem do tempo na cama em que a pessoa efetivamente dorme — além de menos episódios de despertar depois de já ter pegado no sono. Questionários respondidos pelos próprios pacientes também indicaram melhora na qualidade do sono entre o segundo e o sexto mês após o início do tratamento, quando comparados a um grupo que recebeu placebo.
Esses dados foram obtidos por meio de polissonografia, um exame que registra, durante a noite, atividade cerebral, respiração e outros sinais do corpo para avaliar objetivamente a qualidade do sono. “Este trabalho fortalece nossa compreensão do eixo intestino-cérebro como um importante regulador do sono humano”, aponta Yanping Bao, pesquisadora da Universidade de Pequim e coautora do estudo, em comunicado à imprensa.
Transplante de microbiota fecal
A técnica utilizada no estudo, chamada de transplante de microbiota fecal, consiste na transferência de bactérias intestinais de um doador saudável para o intestino de um paciente, com o objetivo de reequilibrar a comunidade de micro-organismos que vive no sistema digestivo — a chamada microbiota intestinal. O procedimento já é usado em outras condições de saúde, mas sua aplicação para o tratamento de insônia ainda é pouco estudada de forma controlada.
Nesta pesquisa, o método foi adaptado para uma versão menos invasiva: em vez de procedimentos como colonoscopia ou sonda nasogástrica, os participantes tomaram cápsulas por via oral. Antes de recebê-las, os pacientes passaram por um curto tratamento com antibióticos, para reduzir temporariamente a população de bactérias existente no intestino e facilitar a fixação dos novos micro-organismos recebidos.
O ensaio foi randomizado e duplo-cego, o que significa que nem os pacientes nem a equipe que avaliava os resultados sabiam quem recebeu o tratamento real e quem recebeu o placebo, para evitar influência nas respostas. Ao todo, 80 adultos com diagnóstico de insônia crônica participaram do estudo, divididos igualmente entre um grupo que recebeu antibióticos seguidos das cápsulas de microbiota fecal, e outro que recebeu cápsulas de placebo, sem o preparo com antibióticos.
Dentro de cada grupo, os pacientes também foram sorteados para receber ou não um suplemento adicional de probióticos, o que permitiu aos pesquisadores avaliarem separadamente esse componente do tratamento. A abordagem foi bem tolerada pelos participantes. Os efeitos colaterais relatados foram leves e passageiros, como náusea e febre baixa, e nenhum evento adverso grave foi registrado durante a pesquisa.
Limitações e próximos passos
Mesmo com os resultados promissores, os próprios autores do estudo destacam que os resultados devem ser interpretados com cautela. O acompanhamento dos pacientes durou apenas seis meses, e o exame objetivo do sono (a polissonografia) foi feito somente uma vez após o tratamento, o que limita a análise sobre a duração do efeito a longo prazo.
Além disso, como os critérios usados para selecionar os participantes foram bastante rígidos, excluindo pessoas com obesidade, diabetes tipo 2, apneia do sono e outras condições comuns entre pacientes com insônia, os resultados podem não se aplicar diretamente a qualquer um que apresente dificuldades para dormir. Por isso, inclusive, os pesquisadores afirmam que o tratamento não deve ser visto, por ora, como uma opção de primeira linha, mas como uma estratégia a ser aprofundada em outros estudos.