Uma nova abordagem de terapia genética desenvolvida para tratar uma forma rara de epilepsia infantil demonstrou resultados significativos na redução da frequência das convulsões e na melhoria do desenvolvimento de dois pacientes. O estudo, publicado em 21 de julho na revista Nature Medicine, foi conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego (UC San Diego) e destaca o potencial da medicina de precisão, que visa tratamentos personalizados para mutações genéticas específicas.
Os pacientes, uma menina de nove anos e um adolescente de 14 anos, foram diagnosticados com encefalopatia epiléptica do desenvolvimento (EED) associada ao gene SCN2A. Essa condição genética rara provoca convulsões severas desde a infância e afeta negativamente o desenvolvimento neurológico. A menina apresentava crises frequentes, deficiência intelectual grave e transtorno do espectro autista, enquanto o adolescente enfrentava múltiplos tipos de crises epilépticas, atraso severo no desenvolvimento e movimentos musculares involuntários que o impediam de caminhar de forma independente. Ambos se comunicavam utilizando pranchas de comunicação, uma vez que não utilizavam linguagem falada.
A pesquisa focou nas mutações do gene SCN2A, que é responsável pela produção de uma proteína essencial para a formação de canais de sódio nas células nervosas, fundamentais para a transmissão de impulsos elétricos no cérebro. Nos pacientes, apenas uma das cópias do gene apresentava a mutação. Em vez de corrigir o DNA, os cientistas desenvolveram oligonucleotídeos antissenso alelo-seletivos (ASOs), fragmentos sintéticos de DNA projetados para reconhecer e inibir a cópia defeituosa do gene, preservando a versão saudável.
Olivia Kim-McManus, professora de neurociências da Escola de Medicina da UC San Diego e autora principal do estudo, afirmou que a abordagem ataca diretamente a causa genética da doença. “Observamos mudanças em todos os aspectos, demonstrando que atacar a causa genética principal pode produzir melhorias mensuráveis”, declarou a pesquisadora.
Os ASOs foram administrados diretamente no líquido cefalorraquidiano dos pacientes sob anestesia, com aplicações a cada dois ou três meses durante um período de dois anos. Ao final do acompanhamento, os resultados mostraram uma melhora clínica significativa. A menina, que antes sofria convulsões quase diariamente, teve uma redução de 26% na frequência das crises, enquanto o adolescente apresentou uma diminuição de 90% nas convulsões, além de melhorias em sintomas gastrointestinais.
Ambos os pacientes conseguiram reduzir ou até suspender parte dos medicamentos anticonvulsivantes que utilizavam anteriormente. Os pesquisadores notaram também avanços nas habilidades de linguagem, motoras, no processamento sensorial e nos comportamentos adaptativos. O resultado mais notável foi a capacidade do adolescente de caminhar de forma independente pela primeira vez. Durante o acompanhamento, a equipe percebeu que essa habilidade diminuía conforme se aproximava o momento da próxima aplicação da terapia. Após ajustes no intervalo entre as doses, ele conseguiu retomar a caminhada independente e continuou a apresentar progresso.
Kim-McManus ressaltou que a personalização da terapia é um aspecto crucial do tratamento. “Desde então, ele tem caminhado sozinho. Quando pensamos em terapia de precisão de forma personalizada, não há nada mais personalizado do que isso”, afirmou.
Os pesquisadores não observaram efeitos colaterais graves relacionados ao tratamento durante os dois anos de estudo. Embora a terapia tenha sido desenvolvida especificamente para apenas dois pacientes, a equipe acredita que essa abordagem pode abrir caminho para novos tratamentos personalizados, não apenas para outras formas raras de epilepsia, mas também para diversas doenças neurológicas e não neurológicas causadas por mutações em um único gene. Kim-McManus comentou que, no início da pesquisa, a ideia parecia uma ficção científica, mas agora, com a comprovação da segurança e eficácia, a proposta está ganhando atenção tanto no meio acadêmico quanto na indústria farmacêutica e biotecnológica, prometendo um impacto significativo no futuro do tratamento de doenças genéticas.












