A exposição prolongada à poluição do ar pode aumentar o risco de
desenvolver doença de Parkinson, segundo uma revisão sistemática de
literatura científica conduzida por pesquisadores da Universidade
de Cambridge, no Reino Unido. O novo estudo reuniu evidências de
estudos anteriores e identificou uma associação entre alguns
poluentes atmosféricos e a doença neurodegenerativa.
A pesquisa, publicada em 20 de junho na revista Environment
International, analisou 26 estudos sobre Parkinson, além de três
sobre esclerose múltipla e outros três sobre doença do neurônio
motor. Ao combinar os resultados dessas investigações, os
cientistas conseguiram produzir uma estimativa mais robusta do
impacto da poluição do ar sobre essas doenças, reduzindo as
limitações de estudos individuais, que frequentemente apresentavam
resultados inconclusivos ou conflitantes.
A doença de Parkinson afeta mais de 6 milhões de pessoas no mundo
todo. Ela provoca sintomas como tremores, rigidez muscular e
lentidão dos movimentos, que ocorre pela perda progressiva de
neurônios produtores de dopamina no cérebro. Embora fatores
genéticos contribuam para alguns casos, acredita-se que fatores
ambientais também desempenham um papel importante no
desenvolvimento da doença.
Como o estudo foi feito
Os pesquisadores observaram que a associação mais consistente foi
com o material particulado fino (PM2,5), partículas microscópicas
com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, produzidas principalmente
pela queima de combustíveis fósseis, emissões industriais e
incêndios. A revisão mostrou que, para cada aumento de 5
microgramas por metro cúbico (µg/m³) na exposição de longo prazo ao
PM2,5, o risco de desenvolver Parkinson aumentava cerca de 10%.
Outro poluente associado ao aumento do risco foi o PM10, composto
por partículas maiores, que incluem poluentes que podem ser vistos
a olho nu, como pólen, poeira agrícola, fuligem e cinzas de
incêndios, fumaça emitida por motores a diesel e esporos de mofo.
Nesse caso, cada aumento de 15 µg/m³ na exposição esteve ligado a
um risco 18% maior de desenvolver a doença.
Para contextualizar esses valores, os pesquisadores apontaram que a
concentração média de PM2,5 medida à beira de estradas no centro de
Londres em 2023 foi de 10 µg/m³.
Além das partículas em suspensão, os autores também encontraram
evidências de associação entre Parkinson e outros poluentes
atmosféricos, como o dióxido de nitrogênio (NO₂) — emitido
principalmente por veículos — e o ozônio (O₃). Para outros
contaminantes, como dióxido de enxofre (SO₂) e monóxido de carbono
(CO), os resultados foram menos consistentes.
Embora os aumentos pareçam baixos individualmente, os pesquisadores
destacam que a poluição atmosférica é um problema de saúde pública
que afeta milhões de pessoas continuamente. Por isso, mesmo
pequenos aumentos no risco individual podem representar um impacto
expressivo quando considerados em toda a população.
Apesar de a revisão também ter avaliado outras doenças
neurodegenerativas, as evidências foram menos conclusivas. Os
pesquisadores não encontraram evidências convincentes de que a
exposição prolongada ao PM2,5 ou ao dióxido de nitrogênio (NO₂)
aumente o risco de esclerose múltipla. Também não foi identificada
uma associação clara entre PM2,5 e doença do neurônio motor.
Cautela com os resultados
Segundo os autores, no entanto, esses resultados devem ser
interpretados com cautela, já que apenas havia três estudos
disponíveis sobre esclerose múltipla e outros três sobre doença do
neurônio motor, um número considerado insuficiente para tirar
conclusões definitivas.
Uma possível explicação para a ligação entre a poluição atmosférica
e a doença de Parkinson está nas partículas muito pequenas, como o
PM2,5, que conseguem penetrar profundamente nos pulmões e entrar na
corrente sanguínea, afetando outros órgãos. Essas partículas podem
desencadear inflamação e estresse oxidativo — processos que
provocam danos às células e que já são conhecidos por contribuir
para doenças neurodegenerativas.
“Estas descobertas somam-se a um crescente e robusto conjunto de
evidências dos muitos impactos negativos da poluição atmosférica na
saúde em todo o mundo, que vão desde uma ampla variedade de doenças
em todos os sistemas orgânicos humanos até a mortalidade
prematura”, afirmou Alexandra Tien-Smith, da Universidade de
Cambridge, em comunicado.
Segundo a equipe, novas pesquisas, envolvendo populações mais
diversas e diferentes regiões do mundo, serão necessárias para
esclarecer melhor essas relações e compreender quais componentes da
poluição representam maior risco ao sistema nervoso.
Os autores também ressaltam que a maioria dos estudos analisados
foi realizada na América do Norte, Europa e Ásia, o que limita a
generalização dos resultados para outras partes do planeta. Ainda
assim, eles afirmam que as evidências reforçam a necessidade de
políticas voltadas à redução da poluição atmosférica, para
beneficiar não apenas a saúde respiratória e cardiovascular, mas
também a saúde do cérebro.
Respirar ar poluído pode aumentar em 10% chance de Parkinson, segundo estudo












