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Reflexão Frei Jacir: os avós de Maria e o valor dos idosos

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Nesta reflexão sobre o Dia dos Avós e Idosos, Frei Jacir fala dos quatro evangelhos canônicos e de um texto do século II, conhecido como Protoevangelho de Tiago, quem decidiu preencher um silêncio, dando nome e rosto a Ana e Joaquim.

O relato apresenta um casal idoso, piedoso e sem filhos, em uma cultura na qual a esterilidade era vista como sinal de reprovação divina. Joaquim é humilhado ao tentar apresentar sua oferta no templo, pois lhe recordam que não deixou descendência em Israel. Ferido, ele se retira ao deserto e jejua por quarenta dias. Ana, sozinha em seu jardim, chora sua condição e se compara aos pássaros que têm ninhos, às águas que têm vida, à própria terra que dá fruto, enquanto ela permanece estéril. É nesse ponto mais baixo, no limite humano, que um anjo anuncia a ambos que Ana conceberá uma filha de quem se falará em todo o mundo. Joaquim e Ana se reencontram junto aos portões da cidade, em um abraço que a tradição posterior transformaria em símbolo da própria concepção de Maria.

Por que a tradição resolveu escrever a história desses dois anciãos?

Creio que a resposta está numa necessidade profundamente humana: a santidade não nasce do nada. Maria, escolhida para gerar o Filho de Deus, precisava de uma história, de uma genealogia, de raízes. Ao narrar Ana e Joaquim, a comunidade cristã dos primeiros séculos afirmava que a graça não rompe com a história humana, mas a assume inteira, inclusive suas dores mais silenciosas: a velhice sem descendência, a espera que já parecia inútil, a vergonha diante dos outros.

Há também um padrão bíblico que se repete: Abraão e Sara, Zacarias e Isabel, e agora Ana e Joaquim. Em todos esses casos, Deus escolhe agir precisamente onde a natureza já não tinha mais respostas, no limite da idade avançada. Isso diz algo essencial: os idosos não estão fora do plano de Deus por já não gerarem segundo a carne. Pelo contrário, é justamente ali, na velhice, que a promessa mais surpreendente se cumpre.

Qual é a importância dos avós e idosos em nossa vida?

Sem a história de Ana e Joaquim, Maria apareceria “sem raízes” nos evangelhos, como se tivesse surgido do nada. É exatamente isso que os avós representam em qualquer família: são o elo que impede que a nossa própria história pareça começar do zero.

A Escritura volta a esse tema quando apresenta Simeão e Ana, dois idosos no templo, que reconhecem em Jesus menino o Messias que os jovens sacerdotes não perceberam. A idade avançada, longe de ser apenas declínio, aparece muitas vezes como o tempo em que a fé amadurece em discernimento e sabedoria. Talvez por isso o Papa Francisco tenha instituído, em 2021, o Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, celebrado todos os anos no quarto domingo de julho, justamente nas proximidades da festa de Santos Joaquim e Ana, em 26 de julho. Em 2026, chegamos à sexta edição dessa data, com mensagem assinada pelo Papa Leão XIV sob o lema “Eu nunca te esquecerei” (Is 49,15).

Vivemos um tempo que corre o risco de tratar os idosos como um peso ou um resto do passado. A história de Ana e Joaquim nos lembra o contrário: é sobre os ombros dos avós que se apoia a própria possibilidade de futuro.

Reflexão Frei Jacir sobre Ana e Joaquim e o valor dos avós e idosos
Reflexão Frei Jacir sobre o Dia dos Avós e Idosos