Um estudo divulgado nesta quarta-feira (22) no periódico científico Frontiers in Ethology revelou uma nova estratégia de caça utilizada por orcas (Orcinus orca) no Golfo da Califórnia. Os pesquisadores documentaram um comportamento inédito, no qual as orcas golpeiam e fragmentam peixes, uma técnica que pode ter múltiplas funções, incluindo o estímulo à brincadeira e a facilitação na busca por alimento.
Durante as observações realizadas em julho de 2024, uma orca fêmea foi registrada segurando o corpo de um peixe-lua-rabudo (Masturus lanceolatus), uma espécie que pode ultrapassar três metros de comprimento e pesar quase duas toneladas. Após soltar o peixe, uma orca macho se lançou contra a carcaça em alta velocidade, resultando na fragmentação do tecido em centenas de pequenos pedaços. Filhotes do grupo iniciaram a alimentação com os fragmentos menores, enquanto os adultos se alimentavam do restante da carcaça.
Em setembro de 2025, uma ocorrência semelhante foi registrada, seguindo o mesmo padrão de captura e alimentação. Kathryn Ayres, primeira autora do estudo e cientista da organização sem fins lucrativos Beneath The Waves, que se dedica à preservação dos oceanos, comentou sobre a importância desse comportamento: “Acreditamos que isso pode ajudar as orcas mais jovens a se alimentarem com mais facilidade ou pode ser apenas uma brincadeira. As orcas são conhecidas por brincar com a comida”.
Os pesquisadores indicam que os dois eventos observados sugerem uma estratégia de caça coordenada e cooperativa entre os membros do grupo. Em ambas as situações, os peixes-lua estavam mortos, o que indica que a investida das orcas tinha como objetivo processar a presa, e não matá-la. A camada gelatinosa que reveste o peixe, conhecida como cápsula, e sua pele contêm um microbioma distinto. Quando o tecido é rompido, os microrganismos presentes são dispersos na água, podendo alterar a composição de nutrientes do ambiente. Assim, a fragmentação do tecido pode facilitar a interação entre os microrganismos do peixe-lua e das orcas, proporcionando benefícios nutricionais ou até mesmo influenciando a regulação imunológica.
Além disso, o comportamento observado pode ser interpretado como uma dinâmica de interação entre pais e filhotes. O ato de despedaçar a carcaça para facilitar a alimentação dos filhotes está alinhado com comportamentos já documentados entre as orcas. “Elas costumam despedaçar suas presas e compartilhá-las com outros membros do grupo, incluindo filhotes e juvenis”, acrescentou Ayres.
As orcas são conhecidas por sua inteligência e habilidades de caça, sendo capazes de capturar presas maiores que elas mesmas, como baleias. O peixe-lua, por sua vez, habita diversas camadas de profundidade, mas frequentemente emerge à superfície para descansar, regular a temperatura corporal ou remover parasitas, tornando-se vulnerável à predação. No Golfo da Califórnia, essa espécie é uma das mais frequentemente caçadas pelas orcas.
Os eventos observados também podem fornecer novas informações sobre as características dos peixes-lua. Até o momento, a fragmentação do tecido havia sido registrada apenas em peixes-lua-de-cauda-afiada (Masturus lanceolatus), sugerindo que essa resposta pode ser específica da espécie em resposta a impactos de alta energia, o que pode não se aplicar a outras espécies de peixes-lua maiores.
Não há confirmação se as mesmas orcas participaram de ambos os eventos, o que ressalta a importância de mais filmagens de alta qualidade para o entendimento desse comportamento. “Coletar boas fotografias de identificação sempre que possível é fundamental: ainda estamos descobrindo novas técnicas de como as orcas caçam e processam suas presas”, concluiu Ayres. “Elas são um dos predadores marinhos mais icônicos do mundo, e mesmo assim continuam a nos surpreender”.












