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Morre Elza Berquó, referência na demografia brasileira, aos 100 anos

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A demógrafa Elza Berquó faleceu na quinta-feira, 16 de julho, aos 100 anos, deixando um legado significativo na ciência brasileira. Reconhecida como uma das pioneiras da demografia no Brasil, Berquó foi fundamental na institucionalização dos estudos demográficos no país, formando diversas gerações de pesquisadores e contribuindo para a criação de instituições que revolucionaram a compreensão da população brasileira. Sua trajetória foi marcada pela crença de que os dados demográficos devem ser utilizados para reduzir desigualdades e melhorar as condições de vida da população.

Berquó atuou como professora na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e foi uma das fundadoras do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e do Núcleo de Estudos de População (Nepo) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Além disso, foi membro titular da Academia Brasileira de Ciências, presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD) e ajudou a estabelecer a Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep). Sua participação foi crucial na formação das principais instituições voltadas para a demografia no Brasil.

O trabalho de Berquó coincidiu com um período de profundas transformações sociais no Brasil, que incluiu urbanização acelerada, mudanças na estrutura familiar, queda da fecundidade e aumento da expectativa de vida. Ela foi responsável por gerar conhecimento que ajudou a entender essas mudanças, transformando a demografia em uma ciência voltada para as pessoas e seus direitos, em vez de ser apenas uma disciplina estatística.

Glaucia Marcondes, atual coordenadora do Nepo-Unicamp, destaca que a principal característica de Berquó era sua capacidade de provocar reflexões sobre o impacto social da pesquisa científica. Marcondes recorda que Berquó frequentemente questionava o que poderia ser feito com os dados obtidos, enfatizando a importância de propor soluções para uma sociedade melhor. Essa inquietação pela crítica social e pela melhoria das condições de vida da população foi uma constante em sua vida.

Nascida em Guaxupé, Minas Gerais, em 17 de outubro de 1925, Berquó começou seus estudos em matemática na Pontifícia Universidade Católica de Campinas e continuou sua formação em estatística na USP. Ela obteve seu doutorado em bioestatística na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, em uma época em que a presença feminina na ciência era escassa. Sua sólida formação acadêmica, aliada a uma sensibilidade social, moldou sua carreira.

Ao ingressar na demografia, Berquó se deparou com um Brasil em transformação, mas com poucos especialistas na área. Juntamente com um grupo de pioneiros, introduziu métodos modernos de análise demográfica e estabeleceu uma agenda de pesquisa que dialogava com diversas áreas, como estatística, saúde pública, economia e sociologia.

Em 1969, Berquó foi uma das fundadoras do Cebrap, que se tornou um dos principais centros de pesquisa em ciências sociais do Brasil, e, em 1982, criou o Nepo, referência em pesquisa demográfica na América Latina. Sua atuação foi além da criação de instituições; ela construiu comunidades científicas, formou pesquisadores e incentivou colaborações internacionais, sempre com um compromisso com a excelência e a responsabilidade pública da ciência.

Berquó também se destacou por sua pesquisa em temas pouco explorados, como saúde reprodutiva, sexualidade, juventude, envelhecimento, relações de gênero e desigualdades raciais. Segundo Marcondes, ela foi uma pioneira ao abordar a saúde da mulher negra e incentivou a formação de pesquisadoras comprometidas com essas questões.

Mesmo após sua aposentadoria, Berquó manteve contato com jovens pesquisadores e continuou a demonstrar curiosidade intelectual. Nos últimos anos, apesar de sua saúde debilitada, enviou mensagens e vídeos para seminários do Nepo, permanecendo atenta às discussões políticas e científicas do país.

Berquó foi reconhecida em 2021 como a primeira mulher da Unicamp a receber o título de Doutora Honoris Causa. Em seu discurso, incentivou os jovens a continuar estudando e lutando pela democracia. O legado de Elza Berquó se reflete não apenas em suas contribuições acadêmicas, mas também na memória afetiva que deixou entre colegas e alunos, que a lembram como uma figura de autoridade, mas também de delicadeza e atenção às pessoas.