Apesar de serem amplamente conhecidos por sua presença nos ossos do esqueleto, como crânio, fêmur e vértebras, os ossos também estão presentes em estruturas genitais de mamíferos, incluindo espécies humanas. Entre esses, destacam-se o báculo, um osso presente no pênis de alguns mamíferos, e o baubelo, uma estrutura óssea que ocorre no clitóris de fêmeas de determinadas espécies. Essas estruturas, cujos nomes têm origem no latim — Baculum (bastão ou cajado) e Baubellum (joia) —, possuem funções e significados evolutivos ainda pouco compreendidos, mas que vêm ganhando atenção na pesquisa científica.
< h2 >O desconhecimento histórico e o avanço na anatomia
do clitóris
Historicamente, a anatomia feminina foi negligenciada por estudos
científicos, com uma predominância de pesquisas centradas na
genitália masculina. Enquanto a morfologia do báculo nos machos é
bem documentada, o estudo do órgão feminino, especialmente do
clitóris, sofreu de descrições imprecisas e de um longo período de
omissão em manuais médicos. Desde a Antiguidade, autores como Rufo
de Éfeso e Sorano de Éfeso já descreviam a anatomia feminina,
incluindo o clitóris, por volta do século II após Cristo. Contudo,
figuras influentes como Galeno, considerado o pai da Medicina,
interpretaram erroneamente o órgão, atribuindo-lhe funções de
proteção, enquanto a compreensão do clitóris como centro do prazer
só se consolidou na ciência moderna.
Durante a Idade Média, o órgão foi alvo de repressões morais e religiosas, sendo referido pejorativamente em textos inquisitoriais. Somente no século XVI, o anatomista Matteo Realdo Colombo descreveu o clitóris como uma estrutura relacionada ao prazer feminino, mas foi somente entre os séculos XVII e XIX que estudos mais detalhados foram realizados por nomes como Regnier De Graaf e George Ludwig Kobelt, que mapearam sua anatomia, nervos e vasos sanguíneos. Ainda assim, práticas médicas retrógradas, como a realização de clitoridectomias, marcaram esse período.
No século XX, o tema permaneceu sob forte tabu social, refletido na ausência de ilustrações detalhadas do órgão em publicações renomadas, como a edição de 1948 do manual “Gray’s Anatomy”. A partir de 2005, contudo, avanços significativos ocorreram com a pesquisa liderada por Helen O’Connell, que utilizou técnicas de ressonância magnética e modelagem tridimensional para mapear o clitóris de forma abrangente, reconhecendo sua complexidade e papel central na resposta orgástica feminina.
< h2 >A presença de ossos na genitália de mamíferos e suas
implicações evolutivas
Assim como o estudo do órgão feminino avançou, também se aprofundou
o entendimento sobre estruturas ósseas na genitália de diversas
espécies. Em alguns mamíferos, como roedores, morcegos e primatas,
há a presença de ossos associados à região genital. O báculo,
presente no pênis, e o baubelo, no clitóris feminino, são exemplos
dessas estruturas. Pesquisas recentes, especialmente em espécies de
primatas não humanos, indicam que muitos desses animais possuem
essas estruturas ósseas, levantando questões sobre sua evolução e
função.
Estudos conduzidos por grupos italianos, com foco na morfologia do baubelo em primatas, revelam que a maioria dessas espécies apresenta o osso, o que reforça questões evolutivas. O fato de primatas não humanos, que geralmente exibem comportamentos poligâmicos, possuírem báculo e baubelo sugere que essas estruturas possam estar relacionadas ao sucesso reprodutivo. A hipótese é que, em espécies com sistemas de acasalamento poligâmicos, esses ossos possam facilitar a reprodução, enquanto que em espécies mais monogâmicas, como os humanos, essas estruturas tenham sido perdidas ao longo do tempo.
< h2 >Funções e implicações hormonais dos ossos
genitais
A presença do báculo e do baubelo parece estar associada a
hormônios masculinos, especialmente a testosterona. Estudos
experimentais demonstraram que a administração de testosterona pode
estimular o desenvolvimento dessas estruturas, enquanto a castração
de machos impede sua formação completa, indicando uma forte
influência hormonal. Entre as funções propostas para o báculo estão
o suporte ao órgão, facilitar a introdução de esperma, proteger a
uretra durante a cópula prolongada e estimular a fêmea na relação
sexual.
Embora essas estruturas possam estar presentes tanto em machos quanto em fêmeas, o osso clitoriano, ou baubelo, apresenta maior instabilidade, sendo mais frequentemente ausente ou menos desenvolvido. Isso sugere que sua função pode ser menos clara ou que seja uma estrutura que tende a ser perdida evolutivamente em algumas espécies, sem uma função definitiva conhecida.
Estudos sobre o tema, incluindo a documentação do baubelo em espécies neotropicais, são essenciais para compreender os fatores que favorecem sua ocorrência ou sua perda, contribuindo para o entendimento da evolução da anatomia reprodutiva de mamíferos. Essas investigações, que utilizam amostras de animais atropelados ou mortos em criatórios e zoológicos, reforçam a importância de estudos morfológicos detalhados para ampliar o conhecimento científico sobre essas estruturas enigmáticas.












