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EPIDEMIOLOGISTA QUE ALERTAVA CONTRA COVID-19 PERDE PAI QUE ‘PREFERIA ACREDITAR NO WHATSAPP’

Postado em 20/01/2021 10:51

Maria Cristina e Cesar no baile de formatura dela em enfermagem: ele demonstrava orgulho da profissão da filha Foto: Arquivo pessoal

Desde os primeiros casos confirmados do novo coronavírus no país, no fim de fevereiro de 2020, a enfermeira e epidemiologista Maria Cristina Willemann tem alertado os moradores de Santa Catarina sobre a importância de adotar medidas para conter a propagação do vírus.

Com mestrado e experiência em epidemiologia (área que estuda o processo de doenças em populações e propõe estratégias para controlá-las), ela tem sido entrevistada por diversos veículos de comunicação desde o começo da pandemia.

Em 10 de agosto, por exemplo, Maria Cristina fez um alerta sobre o avanço do novo coronavírus em Santa Catarina em uma reportagem do Jornal Hoje, da Rede Globo.

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“É importante que a população entenda que nós ainda estamos em franca expansão da pandemia em nosso Estado e é preciso tomar cuidado. Não frequentem locais que não estejam adequados. Não frequentem locais onde pode haver qualquer aglomeração de pessoas”, disse em entrevista ao telejornal.

No dia seguinte ao alerta dado no telejornal, a profissional de saúde vivenciou as consequências da covid-19 em sua própria família: o pai dela, o aposentado Cesar Willemann, de 65 anos, foi internado em estado grave com a doença. Dias depois, ele morreu.

Para a epidemiologista, a situação do pai ilustra os riscos da falta de prevenção à doença causada pelo novo coronavírus. Segundo ela, o aposentado contraiu o Sars-Cov-2 (nome oficial do vírus) porque não seguiu as orientações sanitárias dadas pela própria filha.

“É muito frustrante saber que estou desde o começo da pandemia trabalhando para evitar o adoecimento das pessoas, mas não consegui convencer o meu próprio pai a seguir as medidas adequadas. É um misto de frustração e raiva”, desabafa Maria Cristina em entrevista à BBC News Brasil.

César acreditava que a cloroquina, defendida intensamente pelo presidente Jair Bolsonaro e pelo Ministério da Saúde, poderia salvá-lo da covid-19. Porém, a filha tentava alertá-lo que os estudos comprovam que o medicamento não ajuda pacientes com o novo coronavírus e explicava que as entidades médicas não recomendam o remédio contra o Sars-Cov-2.

“Por mais que eu falasse tudo pelos critérios científicos, ele preferia acreditar nas conversas dos amigos, nas mensagens de WhatsApp… Ele pensava: se para tudo tem um tratamento, por que para a covid não vai ter?”, relata a epidemiologista.

“Ele recebia as informações falsas, como sobre a cloroquina, pelo WhatsApp, que era o meio de comunicação que ele mais usava. Por mais que dissessem na televisão que não tinha evidência científica sobre a cloroquina, ele preferia acreditar no WhatsApp”, acrescenta Maria Cristina.

 

Segundo a epidemiologista, o aposentado não se considerava um fiel seguidor do presidente. “Mas como a maioria da população, o meu pai acreditava nele (Bolsonaro). Ele via as coisas que o presidente falava em defesa da cloroquina e acreditava”, diz.
 

O BAR DO DOMINÓ

Na região em que morava, César era considerado um dos melhores jogadores de dominó. Durante a pandemia, conta Maria Cristina, ele continuou frequentando um bar para praticar a atividade. A filha acredita que foi justamente isso que fez com que o idoso contraísse o coronavírus.

“Tenho plena convicção de que ele contraiu o coronavírus no bar. Soube que muitos frequentadores do local também adoeceram no mesmo período, porque (entre o fim de julho e o começo de agosto) foram semanas de altíssima transmissão do vírus em Lages”, diz a epidemiologista.

“O bar era um local fechado, com algumas janelas abertas. Havia uma placa que dizia que o uso da máscara era obrigatório, mas não era isso que acontecia na prática, porque as pessoas bebiam e jogavam ao mesmo tempo. O meu pai, com certeza, jogava sem máscara”, acrescenta Maria Cristina.

Ela comenta que ainda que estivesse com máscara, Cesar não se preocupava em usá-la adequadamente. “Ele se sentia incomodado e deixava o nariz pra fora”, relata.

Em 9 de agosto, o aposentado passou o Dia dos Pais sem abraçar as duas filhas. Ele ficou isolado, porque estava com sintomas da covid-19, como dores fortes nas costas e cansaço extremo. Mas o aposentado não reclamou da situação para Maria Cristina. “Talvez encarar a filha epidemiologista, que tanto assustou, brigou, gritou, chorou e implorou para que ele se cuidasse não estava nos seus planos”, desabafa a epidemiologista.

Dias depois de ser internado, o idoso foi intubado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Por 12 dias, ele lutou pela vida. “Eu tinha esperanças e rezava para que ele se recuperasse. Porém, era só analisar os dados para saber que ele tinha todos os fatores de risco de óbito: idade de risco, homem, obeso, comorbidade e comprometimentos causados pelo consumo de álcool”, relata Maria Cristina. Em 25 de agosto, o aposentado morreu.

Ele foi enterrado em caixão fechado, sem direito a velório ou qualquer despedida — medida adotada para evitar a propagação do coronavírus.

materia completa acesse: https://epoca.globo.com/brasil/epidemiologista-que-alertava-contra-covid-19-perde-pai-que-preferia-acreditar-no-whatsapp-24846849

 

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