O intestino é amplamente conhecido como um “segundo cérebro” do
nosso corpo, muito por conta da sua imensa concentração de
neurônios específicos para controlar a digestão e produção de
certos hormônios, como a serotonina. Mas você sabia que o coração
tem uma espécie de mini-sistema nervoso próprio?
Chamado de sistema nervoso cardíaco intrínseco, esse “pequeno
cérebro do coração” está no tecido adiposo que envolve o órgão.
Como destaca a revista Nature, esse punhado de neurônios troca
mensagens com o cérebro e entre si, e são a ponta final de uma
longa cadeia de neurônios que controla a função cardíaca.
Apesar de extremamente pequeno – representando só 0,01% das células
em um fragmento de tecido cardíaco –, esse conjunto de células
(batizado neurônios Npy +) é muito importante para impedir o mau
funcionamento do coração, inclusive em momentos de estresse
extremo.
Em um estudo publicado nesta quarta-feira (22) na revista
científica Cell, uma equipe liderada por pesquisadores da
Universidade Yale (EUA) descobriu mais informações sobre esse
pequeno e misterioso sistema que pode ser a chave para melhorar o
tratamento de doenças cardíacas.
Genes protetores do coração
Para avaliar quais são as reais funções do sistema nervoso cardíaco
intrínseco, pesquisadores fizeram experimentos em camundongos
geneticamente modificados. Segundo comunicado da Nature, os
neurônios do sistema foram marcados e, após o seu sequenciamento
genético, foi possível identificar as principais condições em que
dois subtipos deles atuam.
“A estimulação de uma população de neurônios, chamada de neurônios
Npy + , reduziu a frequência cardíaca dos animais; a destruição
dessa população causou insuficiência cardíaca e morte. Esses
resultados sugerem que os neurônios Npy + podem frear um coração
acelerado, mas também são necessários para mantê-lo batendo”,
descreve o comunicado.
O outro subtipo, denominado neurônios Ddah1 +, não trouxe
resultados tão relevantes, não afetando significativamente o estado
dos camundongos com sua estimulação ou eliminação.
Porém, uma nova descoberta veio quase que por acidente: quando uma
estudante do laboratório foi medir a pressão arterial de um dos
animais sem Ddah1 +, ele morreu logo em seguida. O mesmo aconteceu
com outros camundongos que passaram pelo mesmo procedimento,
enquanto aqueles do grupo controle, com as funções cardíacas
normais, permaneceram vivos.
Com a suspeita de que o estresse tivesse a ver com isso, os
pesquisadores testaram diferentes condições para colocar os
roedores modificados sob estresse e, novamente, a maioria morreu. A
remoção do Ddah1 + pode não causar problemas em um primeiro
momento, mas parece deixar o coração mais vulnerável em momentos de
estresse.
Futuro da terapia cardíaca
Apesar de que muito ainda precisa ser explorado nesse “pequeno
cérebro do coração”, as descobertas feitas no estudo da
Universidade Yale podem ajudar a explicar a independência dessas
redes neurais em relação ao nosso cérebro. Os próximos passos
envolvem entender se esses mesmos subtipos de neurônios – também
presentes em humanos – têm influência no funcionamento do nosso
sistema cardíaco.
O potencial científico disso é alto, já que entender o poder que
essas células têm sob nossos corpos pode ajudar no desenvolvimento
de melhores tratamentos para “condições como infarto do miocárdio,
insuficiência cardíaca e arritmia”, destaca o comunicado.
Coração conta com “mini-cérebro” para proteger contra estresse, descobre estudo












