
O historiador e escritor Mauro Eustáquio Ferreira descreve sobre a origem da devoção:
A Festa da Cruz é realizada há décadas em várias localidades da zona rural e em e alguns bairros de Divinópolis. Há registros dela desde o século XVIII, principalmente no interior do estado de São Paulo, durante a catequese dos índios pelos jesuítas, com missa, cantos, novena, procissão, leilão, levantamento de mastros e barraquinhas; há também menção a essa festa na Santa Cruz da Bica, em Natal, capital do Rio Grande do Norte, no mesmo período. Diversas outras manifestações populares em homenagem à Cruz de Jesus Cristo estão espalhadas pelo Brasil afora, geralmente sem intervenção eclesiástica, com denominações semelhantes, como “Festa de Cruz”, “Festa da Cruz” e “Festa da Santa Cruz”.
Ao longo da história
humana, a cruz percorre as galerias da vida e da morte, de variadas
classes sociais, seja do homem simples, seja do sofisticado. Tal
símbolo aparece em registros da pré-história, dos assírios, dos
egípcios, dos gregos, dos romanos, enfim de vários povos. A partir
da morte de Jesus Cristo entre dois ladrões, crucificados por
representantes do Império Romano, a cruz começou a ser respeitada e
cultivada como a marca do Cristianismo. Inicialmente, os primeiros
cristãos usavam-na disfarçadamente, com receio da perseguição por
parte do poder romano pelo exercício da sua fé. Com o imperador
Constantino, a cruz tornou-se símbolo dos cristãos. Conta a
história que, antes de uma decisiva batalha, a qual Constantino
venceu, ele teve um sonho em que aparecia a frase “In hoc signo
vinces” (“Com este sinal vencerás”). A partir daí, a cruz era
bordada na roupa de cada soldado e o Cristianismo foi adotado como
religião do seu império.
Entre os
povos bárbaros, a cruz era símbolo de prosperidade; entre os
germanos, a cruz suástica era carregada à frente dos exércitos,
símbolo que Adolf Hitler resgatou, mais tarde, nos anos 1920 e
1930, usando-a como dístico do Nazismo. Na Idade Média, as Cruzadas
e os cruzados, como o próprio nome designa, carregavam à sua frente
uma cruz. Na América do Sul, os povos pré-colombianos já
adotavam a cruz como enfeite antes mesmo da chegada dos espanhóis;
no Brasil, ela era símbolo de invocação da chuva.
Nos tempos das grandes navegações portuguesas, nos séculos XIV e XV, as caravelas estampavam em suas bandeiras a Cruz de Cristo, ou a Cruz de Malta, quando Pedro Álvares Cabral, à procura do caminho para as Índias, encontrou a “Ilha de Santa Cruz”, mais tarde “Terra de Santa Cruz”, hoje Brasil. Aqui Cabral mandou celebrar duas missas, mandando antes erguer uma cruz de madeira colhida em mata do litoral baiano, rica em pau-brasil. Nos primeiros tempos da colonização brasileira, era erguida a cruz em praças e diante de capelas, igrejas e cemitérios como marco inicial dos povoados.
Em momentos variados da vida brasileira, a cruz é frequentemente lembrada e utilizada. Importante e brilhante constelação no céu brasileiro é o Cruzeiro do Sul, retratado na bandeira do Brasil e até em distintivos de clubes esportivos. Esteve presente no nome da moeda brasileira – o cruzeiro –, adotado no governo de Getúlio Vargas, em 1942, substituído depois pelo Plano Cruzado, no ano de 1986, que instituiu o cruzado. Não há como esquecer as cruzes sobre as sepulturas nos cemitérios e à beira das estradas, em locais de acidentes fatais. Costumes diários e triviais da vida brasileira revelam o respeito e a devoção à cruz cristã para cada pessoa carregar a sua cruz de cada dia, como a cruz como ornamento no peito, em ouro ou bijuteria; como o sinal da cruz em diversos momentos; ou como as expressões cruz-credo, cruzes e credo-in-cruz contra os males. (MEF.)















