O Brasil registrou, entre janeiro e agosto de 2026, um total de 24.137 acidentes envolvendo abelhas, resultando em 75 óbitos. Os dados do Painel Epidemiológico de Acidentes com Animais Peçonhentos indicam que, em apenas oito meses, o país superou o número de mortes ocorridas em todo o ano de 2025, quando foram contabilizadas 24.835 ocorrências e 74 mortes. Este aumento expressivo reforça a preocupação com os riscos associados às picadas de abelhas, especialmente com a chegada da primavera, período em que esses insetos se tornam mais ativos e buscam novos locais para estabelecer colmeias.
Segundo a bióloga Fernanda Raggi, mestre em botânica e consultora ambiental, a elevação das temperaturas durante a primavera favorece um fenômeno conhecido como enxameação, no qual as colônias de abelhas se dividem e se deslocam em grupos para formar novas colmeias em regiões de clima mais ameno, com maior cobertura vegetal e abundância de flores. Fernanda explica que o aumento da atividade das abelhas nesta estação pode elevar o risco de ataques, sobretudo quando há fatores que assustam ou ameaçam os insetos.
A especialista destaca que as abelhas atacam principalmente em defesa do enxame ou da colônia ao perceberem ameaças externas. Entre os fatores que podem desencadear uma reação agressiva, ela cita barulhos intensos, odores fortes e até a cor das roupas usadas por pessoas próximas às colmeias. Em particular, Fernanda alerta para o uso de roupas escuras, como preto, marrom, cinza ou azul-escuro, que podem ser interpretadas pelos insetos como sinais de predadores mamíferos. Ela explica que, para as abelhas operárias e guardiãs, essas cores representam uma ameaça visual, semelhante à pelagem de um animal que poderia atacar o ninho.
Além disso, Fernanda Raggi ressalta que uma ferroada de uma única abelha pode desencadear uma reação em cadeia. Quando uma abelha se sente ameaçada por uma cor escura e ferroa o tecido, ela libera um feromônio de alarme, que funciona como um sinal químico para o restante do enxame. Esse feromônio alerta as demais abelhas para a ameaça, levando a uma resposta coordenada de ataque na mesma região. Essa dinâmica pode explicar, em parte, o ataque registrado na Região Metropolitana de Belo Horizonte, na cidade de Ibirité, na última segunda-feira (14), quando uma menina de 12 anos, sua irmã e outras pessoas foram atingidas por um enxame de abelhas.
O episódio aconteceu em frente a uma escola, após uma colmeia ter caído de uma árvore próxima à entrada do estabelecimento, o que provocou a dispersão das abelhas e o ataque às pessoas que passavam pelo local. Segundo relatos, a menina foi encontrada chorando e sozinha por um motoboy que passava pelo bairro, Vinícius Martins de Paulo, que tentou ajudá-la utilizando um desodorante para afastar os insetos antes de levá-la até a escola. O motociclista sofreu cerca de 40 ferroadas e precisou de atendimento médico. A diretora da escola, Fernanda Vieira de Araújo, também foi atacada ao sair para buscar o carro, sofrendo aproximadamente 10 picadas. Ambos receberam cuidados hospitalares.
A vítima mais grave foi a adolescente Safira Emanuele Gomes dos Santos Rosa, de 12 anos, que foi encaminhada inicialmente à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Sarzedo e posteriormente transferida para um hospital em Contagem, onde permanece internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica. A mãe de Safira, Luciene Gomes dos Santos, relata que os médicos estimaram que ela recebeu mais de 100 picadas, principalmente na face, pescoço e cabeça, embora a família suspeite que o número possa ser ainda maior. A adolescente encontra-se estável, com sinais de melhora, mas ainda sob acompanhamento médico.
Após o ataque, as aulas na escola foram suspensas, e a Polícia Militar auxiliou no isolamento da área. O Corpo de Bombeiros retornou ao local na mesma noite para realizar a captura da colmeia e garantir a remoção segura dos insetos. De acordo com o sargento Allan Azevedo, do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, embora as abelhas possam estar presentes durante o ano todo, sua atividade tende a aumentar na primavera, especialmente devido às queimadas que deslocam os enxames em busca de novos habitats. O militar alerta que a aproximação de um enxame deve ser evitada, e que tentativas de espantá-lo com fogo ou objetos podem agravar a situação, colocando mais pessoas em risco.
As orientações de primeiros socorros incluem manter a vítima calma, lavar os locais das picadas com água corrente e sabão, e procurar atendimento médico, sobretudo em casos de múltiplas ferroadas ou sinais de reação alérgica grave, como dificuldades respiratórias, inchaço nos lábios, tontura ou manchas vermelhas pelo corpo. Em situações em que não seja possível remover a vítima do local, o Corpo de Bombeiros deve ser acionado pelo telefone 193, para que equipes especializadas possam atuar na captura do enxame e evitar novos ataques.
Este episódio reforça a importância de ações preventivas e de conscientização, especialmente durante o período de maior atividade das abelhas, que tende a se intensificar na primavera, uma estação que também traz riscos adicionais devido ao aumento de queimadas e às mudanças climáticas. A recomendação geral é evitar aproximações de colmeias e buscar ajuda especializada em caso de encontros com enxames, a fim de minimizar os riscos de acidentes e de reações graves às picadas.












