
As propostas econômicas apresentadas por pré-candidatos e partidos para o Brasil revelam uma clivagem acentuada em quatro correntes estruturais. De um lado, o aprofundamento das políticas em vigor aliado à transição ecológica; de outro, choques liberais de ajuste e desburocratização; uma terceira via centrada no empreendedorismo de base; e, por fim, programas de estatização e ruptura com o modelo capitalista. O cenário, ainda preliminar, já antecipa o tom do debate que deve marcar a disputa eleitoral.
Consistência fiscal e transição ecológica (Lula/PT)
O plano do campo petista busca conciliar responsabilidade fiscal com redução de desigualdades e modernização verde. A meta é consolidar o novo arcabouço fiscal, controlando o crescimento das despesas obrigatórias e projetando um déficit primário de cerca de 0,4% do PIB em 2026. A reforma tributária do consumo é priorizada, com fusão de cinco impostos em dois (CBS e IBS), isenção total de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, isenção da cesta básica e mecanismo de cashback. Tributação sobre fundos exclusivos e offshores dos super-ricos completa o pacote.
Na indústria, a Nova Indústria Brasil (NIB) aposta na economia de baixo carbono, biocombustíveis e regulação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), usando Letras de Crédito de Desenvolvimento e debêntures incentivadas. No campo social e trabalhista, mantém-se a valorização real do salário mínimo, apoio à extinção da escala 6×1 (com jornada de 40 horas) e regulamentação de direitos para trabalhadores de plataformas. Expansão do Desenrola e crédito via fundos garantidores para micro e pequenas empresas também estão na pauta.
Choque liberal, ajuste e desburocratização (Bolsonaro, Caiado, Zema, Marçal e Democratas)
No campo liberal e de centro-direita, a ênfase recai sobre redução do tamanho do Estado, corte de gastos e flexibilização. Romeu Zema propõe estabilizar a relação dívida/PIB, privatizar todas as estatais e realizar reforma administrativa com corte de ministérios e cargos comissionados. Flávio Bolsonaro defende um “tesouraço” nos gastos, com eliminação de ao menos dez ministérios, fim de supersalários e suspensão de regras que inflacionem a dívida. Pablo Marçal foca em âncora fiscal para reduzir a dívida/PIB e regra “one in, one out” (nova norma só com revogação de outra). Ronaldo Caiado prioriza crescimento das despesas obrigatórias abaixo do PIB nominal.
Na tributação, o Partido Democratas defende o Imposto Único Federal (IUF) sobre movimentação financeira, substituindo tributos sobre folha, faturamento e produção, com isenção de IRPF até cinco salários mínimos. Flávio Bolsonaro quer revisar a reforma tributária para baixar alíquotas do IVA e criar o “Minha Primeira Empresa”. Zema aposta em apuração automática de notas fiscais pelo Estado e redução do IRPJ. Marçal propõe regime simplificado de isenção progressiva para novos negócios.
No trabalho, Zema e Flávio Bolsonaro defendem prevalência do negociado sobre o legislado. Zema sugere regime opcional à CLT, com jornadas flexíveis (limitadas a 44 horas semanais) e parcelamento livre de férias, além de zerar encargos para reinserir desempregados de longa data. Bolsonaro mira modelos flexíveis para jovens de 18 a 24 anos e trabalhadores acima de 50.
Empreendedorismo e economia distribuída (Augusto Cury)
Augusto Cury aposta na pulverização da economia como resposta ao desemprego tecnológico. Propõe criar uma Secretaria Executiva (ou ministério) do Empreendedorismo e da Economia Distribuída, com meta de formalizar 10 milhões de microempresas e instalar 10 mil Clubes de Empreendedorismo em escolas, igrejas e comunidades.
O Banco do Empreendedor ofereceria crédito rápido de até R$ 20 mil a juros de 5% a 6% ao ano. O Bolsa Família seria redesenhado para premiar, com juros menores e manutenção do benefício, famílias que formalizarem emprego ou abrirem micro-negócio. No campo produtivo, o plano “Brasil Proteína 10.000” mira 10 mil agroindústrias, enquanto o “Projeto BEE” (Brasil Empreendedor nas Estradas) instalaría polos de agricultura familiar e turismo a cada 10 ou 15 km nas rodovias federais.
Modelos socialistas e revolucionários (PCB, PSTU, UP, PCO)
À esquerda radical, os programas defendem ruptura com o capitalismo e controle popular da produção. A estatização integral do sistema financeiro – bancos e fundos de investimento. Um banco estatal único sob gestão dos trabalhadores, com fim da autonomia do Banco Central – é ponto comum.
Reestatização sem indenização de mineração, petróleo, energia, saneamento e telecomunicações (incluindo Eletrobras, Vale e 100% da Petrobras sob controle operário) aparece nas propostas. A UP defende proibição de capital estrangeiro, anulação de remessas de lucros e expropriação do grande agronegócio, com titulação de terras indígenas e quilombolas. Moratória e auditoria cidadã da dívida pública (interna e externa) liberariam recursos para investimento social e frentes de emprego.
Na área trabalhista, extinção imediata da escala 6×1. UP e PCB propõem jornada de 30 horas semanais sem perda salarial e reajuste de 100% do salário mínimo (conforme estimativa do Dieese). Visto que o PSTU defende 36 horas (escala 4×3) e o PCO, máximo de 35 horas. Reajuste imediato de 50% em todos os salários e escala móvel atrelada ao custo de vida. Proibição das bets, com destinação dos recursos à saúde, e isenção progressiva de IR (variando de total para trabalhadores até faixas mais amplas) seriam compensadas por impostos sobre grandes fortunas e remessas ao exterior.
O quadro mostra um Brasil diante de caminhos diametralmente opostos: continuidade com ajustes verdes e sociais, enxugamento liberal do Estado, pulverização empreendedora ou ruptura estatizante. O debate que se desenha promete polarizar não apenas números fiscais, mas visões de sociedade.















