Uma operação da Polícia Federal deflagrada nesta quinta-feira (15) resultou na prisão de dois nomes de destaque no cenário político e policial do Rio de Janeiro, o deputado estadual eleito pelo União Brasil Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, e o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil. A ação faz parte da continuidade da Operação Unha e Carne 8, e investiga um esquema de lavagem de capitais que, ao longo de seis anos, movimentou mais de R$ 7,6 bilhões, envolvendo uma complexa rede de postos de combustíveis, empresas de fachada e pessoas interpostas, com o objetivo de ocultar a origem ilícita dos recursos.
Segundo as investigações conduzidas pela Polícia Federal, a organização criminosa utilizava uma vasta rede de mais de 20 postos de combustíveis, lojas de conveniência e distribuidoras, concentrados principalmente nas regiões de Niterói, São Gonçalo e Região dos Lagos. Apesar de formalmente registrados em nomes de terceiros, esses estabelecimentos operavam de forma a dificultar a identificação dos verdadeiros proprietários, por meio de mecanismos como transferências sucessivas de recursos entre empresas do mesmo grupo, uso de pessoas interpostas e emissão de notas fiscais sem a prestação real de serviços. Essas estratégias configuram o que a investigação chama de lavagem por circularidade, uma técnica utilizada para dificultar o rastreamento da origem do dinheiro ilícito.
Um exemplo destacado na apuração refere-se a Luana Oliveira, que figurava como sócia de diversas empresas e postos de combustíveis, declarando uma renda formal de apenas R$ 1.800 até 2021, mas que movimentou mais de R$ 60 milhões em contas pessoais, evidenciando a discrepância entre sua renda oficial e o volume de recursos movimentados. Além disso, a investigação aponta a emissão de notas fiscais falsas, sem a devida prestação de serviços, como uma das táticas empregadas para mascarar a origem dos valores.
A operação também apura o possível desvio de recursos públicos municipais, especialmente contratos firmados com prefeituras, como a de Magé, onde uma empresa teria recebido valores de contratos públicos e repassado a maior parte dos recursos a integrantes da organização criminosa. Em Belford Roxo, os investigadores buscam esclarecer contratos milionários com empresas ligadas a operadores financeiros suspeitos, levantando a hipótese de que recursos públicos possam ter sido incorporados ao circuito financeiro ilícito, além de investigar a participação de agentes públicos nas operações.
Entre os aspectos mais sensíveis da investigação está a suspeita de que parte do dinheiro fosse destinada a agentes políticos, policiais e servidores públicos, com o objetivo de garantir proteção ao esquema criminoso. Márcio Canella é apontado como possível articulador político do grupo, com anotações apreendidas que fazem referências a repasses sob os nomes “Canela” ou “Canella”. No núcleo institucional, Marcus Amim, ex-presidente do Detran-RJ e ex-secretário de Polícia Civil, e o delegado Glaucio Paz, seu sucessor, também aparecem nas apurações relacionadas a pagamentos sistemáticos e transferências envolvendo postos de combustíveis.
A Polícia Federal busca aprofundar as investigações por meio de perícias em celulares, computadores, servidores e mídias digitais apreendidas durante as buscas, com o objetivo de revelar comunicações, registros de pagamentos e possíveis vínculos ainda não identificados. Além disso, os investigadores irão interrogar os suspeitos e ouvir outros agentes públicos e terceiros que possam ter sido cooptados pelo esquema ou que tenham informações sigilosas.
O Supremo Tribunal Federal também determinou a abertura de procedimentos específicos para investigar possíveis conexões do grupo com outras atividades criminosas no Rio de Janeiro, incluindo organizações como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando Puro (TCP), milícias e redes de jogo do bicho. O objetivo é esclarecer se essas ramificações mantinham relações financeiras ou operacionais com a rede de combustíveis, além de verificar se os recursos movimentados financiavam outras atividades ilícitas.
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