E o Atlético “cruzeirou”!

Postado em 04/03/2020 15:15

Não sabemos como será o desempenho esportivo do Atlético com Jorge Sampaoli. A julgar pelo o que se viu no ano passado com o Santos e pelo currículo do técnico argentino, a chance de que seja muito bom existe. Sabemos, no entanto, que o presidente atleticano Sérgio Sette Câmara acaba de cruzar a linha da responsabilidade.

Para entender as consequências deste início de temporada, precisamos voltar ao orcamento para 2020. Este documento é produzido pelo departamento financeiro do clube, no qual há previsões de receitas e custos para o ano inteiro. Supostamente, a diretoria atleticana deveria se basear nos números previstos nele para tomar decisões.

Em primeiro lugar, precisamos olhar para as receitas. O Atlético tinha uma projeção de R$ 309 milhões a arrecadar durante a temporada, com alguns itens complicados. Na venda de jogadores, precisaria fazer pelo menos R$ 100 milhões. Na televisão, em que estão pagamentos por performance, necessitava de um ótimo futebol dentro de campo.

Das previsões esportivas, duas já furaram. A eliminação na Sul-Americana impede que o clube chegue às oitavas de final, fase necessária para cumprir o orçamento. A eliminação ainda mais humilhante na Copa do Brasil impede que chegue às quartas de final. A partir de agora, mesmo que seja campeão do Campeonato Brasileiro, não cumprirá as receitas previstas. Não entrará dinheiro suficiente.

 

As projeções financeiras do Atlético-MG para 2019 e 2020

Em R$ milhões 2019 2020
Televisão 131 118
Atletas 70 100
Patrocínios 35 26
Sócio-torcedor 20 22
Bilheterias 23 19
Social 10 10
DiamondMall 10 10
Loterias 4 4
TOTAL R$ 305 milhões R$ 309 milhões

Em segundo lugar, temos de entender os custos. Sérgio Sette Câmara sustentou em seus dois anos de mandato que faria uma administração austera. E o orçamento até dava a entender que ele teria uma prática condizente com o discurso. O orçamento para 2020 previa custos no mesmo patamar dos realizados em 2019. Sem reduções, nem aumentos.

Bastaram dois meses e duas eliminações para que o presidente chutasse a austeridade para escanteio. A demissão do técnico venezuelano Rafael Dudamel gerou uma dívida superior a R$ 2 milhões – que o estrangeiro, com razão, faz questão de receber integralmente. Além disso, a comissão técnica de Sampaoli chega com um custo mensal para lá de alto, acima do R$ 1,2 milhão por mês.

Isso nos leva ao terceiro e último ponto no confronto entre as projeções do orçamento e a realidade. Mesmo que cumprisse tudo o que estava planejado, o Atlético precisaria tomar nada menos do que R$ 80 milhões emprestados para manter as contas em dia. Custos operacionais, juros sobre dívidas e o pagamento das próprias dívidas têm estrangulado o clube faz tempo. A situação já era muito difícil.

Como Sérgio Sette Câmara errou nas receitas e tem tudo para errar também nos custos, agora aumenta a necessidade de vendas de jogadores – muito acima dos R$ 100 milhões orçados – ou da tomada de novos empréstimos. E tome dívida para limpar a barra do presidente.

Um detalhe: do R$ 1,2 milhão que corresponde ao custo mensal da comissão técnica de Sampaoli, o Atlético deverá arcar com cerca de R$ 500 mil, enquanto “parceiros” cuidarão dos R$ 700 mil restantes.

O “parceiro” deverá ser Rubens Menin, atleticano que preside a construtora MRV. Mas o Atlético não explicou nada sobre a tal parceria. O empresário vai doar o dinheiro? Fará um patrocínio, tendo como contrapartida a imagem de Sampaoli para propagandas? Ou assinará um contrato de mútuo, ou seja, um empréstimo? A resposta para a pergunta vai dimensionar o tamanho do problema.

Sim, problema. Mesmo que mecenas como Menin resolvam rasgar dinheiro próprio em nome do amor pelo clube – como já fizeram outros empresários atleticanos no passado –, a conta atleticana dificilmente fechará. Ainda mais se lembrarmos que Sampaoli chega com a demanda pela contratação de cinco jogadores para reforçar o elenco.

O orçamento previa R$ 20 milhões em investimentos para a contratação de jogadores. Um valor que tinha sido ultrapassado com apenas duas compras – de  Allan, por R$ 13, 6 milhões e de Guilherme Arana por R$ 13,8 milhões (considerando apenas o valor inicial, pelo empréstimo de dois anos, fora o que precisará ser pago conforme metas forem cumpridas). Ainda há Maílton, Dylan, Savarino… O Atlético já tinha gastado muito mais do que calculou ser possível para a temporada. E agora vai atrás de mais cinco para satisfazer Sampaoli.

Sérgio Sette Câmara prometeu austeridade, mas não resistiu à política. Em seu último ano de administração, com eleição pela frente, o presidente atleticano cruzou a linha da responsabilidade e partiu para o populismo com imprensa e torcida. Pode ser que o técnico dê jeito no time e arranque uma boa colocação no Brasileiro. Pode ser que não. No longo prazo, o Atlético-MG já perdeu.

Fonte: Globoesporte.com – Jornalista Rodrigo Campelo
 
 
 

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