As novelas turcas, conhecidas internacionalmente como “dizis”, consolidaram-se como um fenômeno cultural de grande alcance, sendo distribuídas em mais de 170 países e atingindo quase 1 bilhão de espectadores ao redor do mundo. No Brasil, o impacto dessas produções ultrapassou o âmbito da televisão aberta, promovendo profundas transformações no mercado de streaming e na interação das comunidades virtuais dedicadas ao gênero. A reconhecida autora de novelas Gloria Perez, responsável por sucessos como “O Clone”, “Barriga de Aluguel” e “América”, revelou em entrevista ao UOL que acompanha as “dizis” desde a estreia de “Mil e Uma Noites” na televisão brasileira, em 2015, e destacou o papel dessas produções na revitalização do folhetim clássico.
Segundo Perez, o diferencial das novelas turcas reside na capacidade de resgatar elementos essenciais do melodrama tradicional, com ênfase na humanidade e no afeto. Ela afirma que as “dizis” trouxeram de volta aspectos que suas próprias produções estavam começando a perder: a conexão emocional e a sensibilidade. “Elas trouxeram um elemento que as nossas produções, de alguma forma, estavam dando sinais de perder: a humanidade e a emoção acima de tudo”, afirma. A dramaturga também lembrou de sua participação em uma palestra na TV Globo, onde abordou o fenômeno, e comentou que parte de sua admiração pelas “dizis” está na semelhança com seu próprio estilo de narrativa, especialmente na mistura entre o real e o emocional.
Perez destacou ainda a condução narrativa das tramas românticas das novelas turcas, que privilegiam o uso do subentendido e do desejo reprimido, ao invés de cenas explícitas. Para ela, esse método consegue transmitir os dramas locais de maneira mais eficaz, tocando o coração do público sem abrir mão da universalidade das emoções. “Você sente o beijo mesmo sem ele acontecer. Eles conseguem trazer os dramas locais sem abrir mão de chegar às pessoas através do coração”, explica.
Especialistas como o roteirista e pesquisador Lucas Martins Neia explicam que a rápida adesão do público latino-americano às “dizis” está relacionada à afinidade com a estrutura melodramática, uma tradição já consolidada na cultura regional. Essas produções, originalmente exibidas na Turquia em episódios semanais de longa duração, passam por uma adaptação ao chegar à América Latina, onde são reeditadas para formatos de exibição diária, com episódios de 40 a 50 minutos. Neia aponta que as “dizis” representam uma nova forma de produção e distribuição no audiovisual global, sustentadas pelo mesmo caldo melodramático que há décadas encanta o público brasileiro, além de apresentarem uma diversidade temática que abrange comédias românticas, dramas tradicionais e superproduções históricas sobre o Império Otomano.
Para Gloria Perez, a atual fase da teledramaturgia brasileira sofre ao substituir o melodrama pelo discurso militante. Ela defende que a força do gênero está na capacidade de emocionar e criar empatia, ao invés de transmitir mensagens de forma didática. Perez critica a abordagem que tenta ensinar por meio de discursos diretos, pois acredita que isso prejudica a imersão do espectador na história. Para ela, o segredo do engajamento está no afeto, na capacidade de provocar reflexões por meio do emocional, o que pode levar a mudanças de opinião mais profundas do que argumentos racionais ou políticos.
A expansão das novelas turcas no Brasil também contou com forte mobilização nas redes sociais, especialmente durante o período da pandemia, quando comunidades em plataformas como o Telegram se organizaram para traduzir e legendar episódios de forma voluntária, logo após sua exibição na Turquia. Essa mobilização espontânea despertou o interesse de grandes plataformas de streaming, como Globoplay e HBO Max, que passaram a manter catálogos de títulos turcos, incluindo produções premiadas internacionalmente, como “Yargı (Segredos de Família)”, vencedora do Emmy Internacional de Melhor Novela. Além do aspecto comercial, essas produções também funcionam como uma estratégia de “soft power” para a Turquia, promovendo sua cultura, patrimônio e estética globalmente, ampliando sua influência na indústria audiovisual mundial.












