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Série da Netflix baseada em folclore coreano explora tradição assustadora de roubo de identidade

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Imagem: Netflix

A série sul-coreana “O Rato”, lançada pela Netflix no Brasil em 28 de agosto, aborda o tema do roubo de identidade a partir de uma narrativa que remete a uma antiga tradição do folclore do país. Com uma primeira temporada composta por 10 episódios, a produção acompanha a trajetória de Je Moon-jae (interpretado por Ryu Jun-yeol), um escritor recluso que percebe que alguém tomou seu nome, sua aparência, seu dinheiro e, de forma geral, sua vida. A trama é uma adaptação do webtoon “Field Mouse”, criado por Ludovico e publicado pela Kakao Entertainment, inspirado por um conto folclórico tradicional.

O folclore coreano que inspirou a história relata uma lenda conhecida como o “conto da transformação do rato”, presente em diversas regiões do país. Segundo registros da Fundação Nacional do Patrimônio Cultural da Coreia, essa narrativa também está relacionada a uma antiga advertência de que as pessoas não deveriam cortar as unhas durante a noite. A explicação popular sugere que, ao fazer isso, as unhas poderiam ser consumidas por ratos, que, ao devorá-las, teriam a capacidade de se transformar em cópias perfeitas de seus donos. Assim, o conto conta a história de um homem que, ao retornar para casa, encontra alguém que se assemelha exatamente a ele, incluindo detalhes pessoais, hábitos e marcas de pele, a ponto de sua própria família não conseguir reconhecê-lo.

Na versão mais conhecida, o impostor, que assume a identidade do verdadeiro proprietário, é expulso de casa após a descoberta, enquanto o original é forçado a vagar pelo mundo. Em uma de suas tentativas de recuperar a vida, ele é aconselhado a retornar acompanhado de um gato, que provoca o pânico do sósia, revelando sua verdadeira forma: um rato que havia consumido unhas cortadas e, assim, assumido a identidade do homem. Algumas versões do folclore alteram a origem da transformação, sugerindo que o rato não come as unhas, mas a comida do dono enquanto ele está ausente, com o resultado igualmente assustador de uma troca de identidades.

A narrativa também reforça a antiga crença de que cabelos e unhas, mesmo após serem cortados, mantêm uma ligação com o corpo do dono, e que esses elementos não devem ser descartados de forma descuidada. Essa tradição reflete valores confucionistas, que enfatizam o respeito pelo corpo recebido dos pais e a preservação da integridade física. Além disso, o rato ocupa uma posição importante no imaginário cultural coreano, sendo associado à inteligência, sobrevivência, fertilidade e alimentos, além de integrar os 12 signos do zodíaco do país. Na mitologia local, o animal é visto como uma criatura astuta, mas na história folclórica, sua esperteza se torna sinônimo de uma ameaça assustadora, ao adquirir a aparência e o lugar de uma pessoa ao consumir partes dela.

A adaptação para a Netflix moderniza a narrativa, levando o medo do sósia para um contexto contemporâneo, onde a identidade de uma pessoa vai além do rosto, incluindo impressões digitais, senhas e registros bancários. Em uma das cenas, Moon-jae percebe que sua impressão digital não desbloqueia mais seu celular, que ele perdeu acesso ao dinheiro e não consegue provar sua própria identidade. Para tentar recuperar sua vida, o personagem se une a No-ja (Sul Kyung-gu), um agiota que o perseguia por dívidas, numa tentativa de desvendar o mistério por trás da sua substituição.

O diretor Kim Hong-sun, em coletiva de imprensa realizada em Seul, confirmou a ligação entre a série e o folclore original. Segundo ele, a produção foi motivada pelo conto do rato que come unhas, transformando-se em suspense sobre um homem que tem sua vida roubada e luta para recuperar sua identidade. A narrativa do webtoon original apresentava uma atmosfera de terror mais intensa, que foi adaptada para um formato de perseguição mais dinâmico, buscando envolver o espectador na angústia do protagonista. Kim destacou que a história ressoa emocionalmente, pois retrata a busca pela autenticidade e o medo de perder a própria essência, temas universais que ganham uma nova dimensão na adaptação da série.

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