NORD Research

Finanças: Anestesiados

Postado em 02/09/2019 14:00

Não se passa mais um final de semana sem que o Trump esbraveje com a China na sua guerra comercial.

E nestes últimos dias não foi diferente. Como já é de praxe, o presidente americano aproveitou os dias de folga para lançar mão de um novo pacote de 110 bilhões em tarifas.

Mas, até o momento em que escrevo estas linhas, os mercados pouco sentiram. Como se estivessem anestesiados.

Shanghai deu de ombros para a retaliação e inicia a semana a subindo 1,31 por cento  na esteira de dados de atividade econômica locais melhores (PMI).

Os europeus também não ligaram muito, ficando com uma alta tímida 0,20 por cento.

Quem sofreu mais foram os próprios autores da medida, com o futuro do S&P caindo 0,24 por cento.

Por aqui, os mercados futuros de juros seguem na estabilidade e a bolsa abre em queda de 0,43 por cento.

No noticiário, o foco é nas avaliações do governo. Mas, já logo lhe adianto: é perda de tempo olhar isso agora.

Temos, pelo menos, 2 anos antes de pensar no assunto  esse é o prazo que o Bolsonaro tem para fazer a economia girar.

Já o Trump precisa começar a “se tocar” que as eleições estão a 1 ano e a economia tem um grande peso na decisão do eleitor.

Quando vai cair a ficha?

Acho que é bastante claro que, quanto melhor a economia do país estiver no momento de uma eleição, maiores as chances de o presidente atual se reeleger.

Essa sempre foi a nossa saga, assim como de vários outros países latinos  basta olhar o que tem acontecido na Argentina no último mês. Vale como proxy. Será a mesma avaliação em 2022 com o governo Bolsonaro.

A economia manda. Se estivermos crescendo fortemente, com queda do desemprego, e inflação na meta, as chances de o atual governo ganhar a reeleição melhoraram e vice-versa.

Mas, apesar de vivemos isso desde sempre, não é um fenômeno exclusivamente nosso.

                                Fonte: Paper Dan Wood, Texas University

Vale para também para a maior economia do mundo.  A sensação do bem-estar econômico sempre vai ditar a percepção sobre um candidato ou outro como fica claro no gráfico acima.

E, nas eleições americanas de 2020, não será nem um pouco diferente. Mais uma vez, esse será o termômetro para validar se o Trump terá mais quatro anos na Casa Branca ou voltará ser apresentador de TV.

Mas, por enquanto, parece que não caiu a ficha do presidente em relação a isso. Ele segue comprando brigas com a China, impondo cada vez mais tarifas.

E, querendo ou não, a cada novo pacote de tarifas a economia americana  e global desacelera um pouquinho mais.

A cada novo kit de impostos, ele fica cada vez mais longe da reeleição.

Água no Chope?

Vou me meter um pouco na área da Marília.

Com o BC voltando a reduzir a Selic no mês passado, a discussão passou a ser qual o tamanho do ciclo de queda.

E, aqui, tem pra todos os gostos. O mercado precifica mais 0,75 de queda, os economistas do Focus dizem que há espaço para mais 1 ponto percentual e há quem diga que pode ser mais que isso  já escutamos que a Selic poderia cair para algo entre 4,5 e 4,75 por cento, falando com os fundos macro.

Mas, claro, isso foi antes do câmbio estourar. Agora, com o real acima dos 4,00 reais, estaria o BC tão inclinado a estender tanto o ciclo de queda de juros assim?

Um olhar rápido nas projeções feitas pelo Copom na última reunião, mostra que o espaço para quedas muito bruscas não é tão grande assim. Com o câmbio na faixa de 3,80 e uma Selic de 5,50 por cento, a inflação projetada pelo BC para o ano que vem estaria ligeiramente abaixo da meta (3,90 contra 4 por cento).

Agora, depois da desvalorização do câmbio de quase 10 por cento, essa diferença de 0,10 pontos percentuais de agosto tende a diminuir  o que limita ainda mais o espaço do BC para seguir cortando além dos 5,5 por cento.

Então, para seguir cortando, o BC precisa ver novos sinais de que a inflação ficará bem abaixo da meta em 2020.

Se não for o caso, de fato o gato pode ter subido no telhado.

De mal a pior

A economia da Argentina sempre me pareceu o Brasil com 20 anos de delay.

Desordem nas contas públicas; ausência de reservas cambiais; inflação alta. É aquele kit completo da desgraça e um prato cheio para crises cambiais recorrentes.

Nesse cenário, o BC de lá tem poucas ferramentas para combater os ataques especulativos ao peso e acaba recorrendo a juros estratosféricos para tentar manter o dinheiro em casa chegando as bizarrices de taxas básicas a 70 por cento ao ano.

E, quando essa estratégia deixa de funcionar, passam a adotar caminhos alternativos  como, por exemplo, controle de capitais.

Esse foi o novo decreto de Macri, promulgado ontem.

A realidade é que dificilmente isso resolverá o problema  principalmente devido a questão fiscal, deteriorando a cada dia que passa.

O resultado pode acabar sendo o mesmo de 2011, quando a medida somente fomentou a criação de um mercado paralelo de câmbio e uma completa desorganização econômica.

No final, assim como a Kirchner, Macri está buscando saídas fáceis para um problema que é complexo.

A única saída, assim como fizemos, era ajustar a casa. Arrumar o déficit público, controlar a inflação, construir reservas e fazer reformas.

Esse é o caminho, mas o presidente argentino abandonou ele um mês atrás e agora se encontra em uma situação bastante caótica.

E, como diria aquela boa frase: Nós somos livres para fazer as escolhas, mas presos às consequências delas.

Macri e o povo argentino terão que enfrentar as deles

Um abraço,

Luiz

Postado originalmente por: Nord Research

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Autor do blog: Nord Research

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