A comercialização de restos mumificados, muitas vezes promovida por plataformas digitais e leilões online, pode representar uma ameaça significativa à saúde pública, de acordo com uma pesquisa conduzida pela Universidade de Staffordshire, no Reino Unido. A investigação revelou que esses materiais, frequentemente deteriorados e manipulados sem as devidas precauções, podem liberar fungos e substâncias tóxicas, colocando em risco não apenas os compradores, mas também vendedores e profissionais envolvidos no transporte e armazenamento das peças.
O estudo, publicado na revista International Journal of Cultural Property em 5 de agosto, analisou 128 anúncios encontrados em diversos canais digitais, incluindo sites de comércio eletrônico, plataformas de leilões e redes sociais. Entre os itens listados, destacaram-se partes isoladas de corpos humanos, como mãos, pés, cabeças mumificadas e exemplares completos ou parciais, além de cabeças encolhidas, conhecidas como tsantsas, tradicionalmente produzidas pelos povos Shuar do Equador e Peru. Mais da metade das peças, aproximadamente 51,6%, eram cabeças em diferentes condições de preservação, algumas com tecidos moles, cabelos ou partes do crânio ainda visíveis.
Os pesquisadores observaram sinais evidentes de biodeterioração em muitos desses restos, além de manipulações feitas sem o uso de equipamentos de proteção, como luvas. Além disso, algumas peças estavam expostas em ambientes domésticos, sem qualquer tipo de proteção, como vidro ou controle de temperatura, o que aumenta o risco de contaminação. Para Kirsty Squires, professora de bioarqueologia humana e principal autora do estudo, essas condições representam um perigo potencial à saúde. Ela destaca que restos mortais preservados podem abrigar microrganismos que permanecem dormentes por séculos, incluindo esporos de fungos que, ao serem perturbados, podem ser liberados no ar e causar infecções.
Entre os fungos citados, o Aspergillus é um dos mais perigosos. Estudos históricos indicam que a inalação de seus esporos foi responsável pela morte de 10 dos 12 cientistas que, na década de 1970, abriram a tumba do rei Casimiro IV Jaguelão, em Cracóvia, na Polônia. Esses esporos, que permanecem dormentes por longos períodos, tornam-se perigosos após a manipulação do material. Casos históricos ligados à chamada “maldição das múmias” também reforçam o potencial risco, como a morte de Lord Carnarvon, financiador da expedição que descobriu a tumba de Tutancâmon, no Egito, em 1923. Acredita-se que uma aspergilose grave, causada pela inalação de esporos de Aspergillus, possa ter contribuído para seu falecimento.
A pesquisa também reforça que os processos de mumificação, seja natural ou artificial, envolvem substâncias químicas e metais pesados, como arsênio, mercúrio e chumbo, utilizados para preservar os restos. Essas substâncias, aliadas à deterioração natural e armazenamento inadequado, podem acelerar a liberação de microrganismos e esporos perigosos. Mesmo restos aparentemente bem preservados podem apresentar riscos que não são visíveis a olho nu, especialmente durante o transporte ou manipulação.
Outro aspecto preocupante apontado pelos autores é a circulação dessas peças em um mercado pouco regulamentado, muitas vezes ilícito, facilitado pelo crescimento de plataformas de comércio eletrônico, leilões e redes sociais. A ausência de orientações de segurança por parte dos vendedores e a pouca fiscalização aumentam o risco de exposição a agentes patogênicos. Além disso, o transporte dessas peças, realizado por serviços postais e empresas de entregas, expõe trabalhadores de armazéns, motoristas e agentes alfandegários a possíveis contaminações, uma vez que muitos desses profissionais não utilizam equipamentos de proteção específicos ao manusear as encomendas.
Diante desse cenário, os autores do estudo alertam para a necessidade de maior fiscalização e de ações educativas que orientem sobre os riscos associados à venda e ao transporte de restos mumificados. Ressaltam, ainda, a importância de denunciar essas práticas às autoridades competentes para mitigar os riscos à saúde pública e proteger tanto os indivíduos quanto os vestígios arqueológicos.












