Cientistas da Universidade Emory, localizada em Atlanta, nos Estados Unidos, em parceria com o Instituto de Tecnologia da Geórgia (Georgia Tech), criaram um sistema de inteligência artificial (IA) capaz de realizar testes cognitivos de forma automatizada com macacos-prego (Sapajus apella) no ambiente onde vivem, eliminando a necessidade de conduzir experimentos em laboratórios. A inovação, detalhada em artigo publicado em 28 de julho na revista científica American Journal of Primatology, combina reconhecimento facial e telas sensíveis ao toque para identificar os animais e aplicar tarefas de aprendizagem personalizadas, adaptadas às características de cada indivíduo.
O sistema, batizado de CapuchinAI — nome que faz referência à subfamília dos cebíneos, à qual pertencem os macacos-prego —, é compacto, alimentado por bateria e capaz de reconhecer cada macaco-prego de forma automática. Após a identificação, o equipamento apresenta uma tarefa de aprendizado na tela sensível ao toque, e, ao completar o desafio com sucesso, o animal recebe uma recompensa alimentar, como uma fatia de banana-da-floresta seca. Para a construção do modelo, os pesquisadores utilizaram o software de código aberto YOLO (You Only Look Once), treinado com imagens de alta resolução captadas por uma câmera GoPro, durante interações de seis macacos-prego selvagens.
O protótipo foi testado na Reserva Florestal de Taboga, na Costa Rica, onde a equipe fixou o equipamento em uma plataforma, disponibilizou o dispensador de alimentos e aguardou a interação dos animais. Após o treinamento com imagens estáticas e vídeos, o sistema conseguiu identificar os macacos com uma precisão de 97%. Os testes iniciais demonstraram que os macacos aprenderam rapidamente as associações propostas, indicando potencial para a escalabilidade do método em estudos cognitivos mais amplos. Segundo Federico Sánchez Vargas, um dos autores do estudo, a possibilidade de estudar os primatas em seus ambientes naturais permite uma compreensão mais aprofundada de suas habilidades cognitivas, uma vez que esses animais evoluíram em ambientes complexos e competitivos, diferentes das condições de laboratório.
O projeto também presta homenagem ao renomado primatólogo Frans de Waal, ex-diretor do Centro Living Links na Universidade Emory, reconhecido por suas contribuições aos estudos sobre a cognição animal. Na fase piloto, 16 macacos-prego interagiram com o sistema, revelando diferenças individuais no desempenho. Alguns aprenderam rapidamente a tocar na tela para obter a recompensa, enquanto outros precisaram de mais tempo. Animais mais exploratórios descobriram que podiam “beijar” a tela para ganhar a recompensa, enquanto os mais cautelosos preferiram observar os colegas antes de se aproximar do equipamento.
Atualmente, os pesquisadores estão aprimorando o sistema com vídeos desses 16 animais e desenvolvendo novos testes para avaliar quatro aspectos da cognição: aprendizado, controle de impulsos, flexibilidade cognitiva e memória de curto e longo prazo. O sistema reconhece automaticamente cada indivíduo e apresenta tarefas correspondentes ao seu estágio de desenvolvimento, além de realizar o processo de habituamento de animais ainda não cadastrados. A tecnologia de visão computacional permite a alternância automática entre diferentes macacos, possibilitando que vários utilizem a plataforma simultaneamente. Para evitar que um indivíduo dominante monopolize o equipamento, o sistema também regula a quantidade de alimento distribuída por sessão.
De acordo com Marcela Benítez, professora assistente de antropologia na Universidade Emory e autora principal do estudo, a ferramenta permite explorar questões relacionadas às influências ambientais e às estratégias cognitivas dos primatas, incluindo por que alguns animais se destacam em determinadas tarefas e como suas habilidades se relacionam com a adaptação e sobrevivência. Apesar do avanço, Sánchez Vargas enfatiza que a inteligência artificial não substitui o trabalho de campo, sendo fundamental a coleta de dados observacionais feitos por pesquisadores que convivem diretamente com os animais.
Os autores esperam que a tecnologia seja adaptada por outros grupos de pesquisa para estudar diferentes espécies de primatas selvagens, consolidando-se como uma ferramenta inovadora na primatologia. Segundo Benítez, o desenvolvimento representa um avanço significativo na compreensão da cognição animal, ampliando as possibilidades de pesquisa fora do ambiente controlado de laboratórios.












