Coronavírus: alguns sentem tanto medo que precisam negar o que está acontecendo, diz psicanalista

Postado em 04/04/2020 21:13

Professor da USP, o psicanalista Christian Dunker acredita que pandemia de coronavírus trouxe uma lição de humildade

Para o psicanalista Christian Dunker, de 54 anos, a pandemia do novo coronavírus criou três perfis de comportamento diante da ameaça: o tolo, o desesperado e o confuso.

Em entrevista à BBC News Brasil, Dunker afirma que o tolo tende a negar a situação dramática como maneira de enfrentar o medo; o perfil desesperado se angustia ainda mais com a situação; já o confuso transita entre esses dois polos, sem saber direito como deve agir e pensar.

“Se você não está confuso nesse momento, procure um psicanalista porque você tem um problema, e ele não é o coronavírus”, disse.

Professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Christian Dunker é autor de diversos livros sobre psicanálise e o estado social brasileiro, como Reinvenção da Intimidade: Políticas do Sofrimento Cotidiano (Ubu Editora).

Dunker também tem um canal no YouTube, onde fala sobre vários assuntos do ponto de vista da psicanálise, como os discursos do presidente Jair Bolsonaro e o filme Coringa.

Em entrevista por Skype, o psicanalista abordou temas como as implicações do isolamento social diante durante a pandemia do novo coronavírus e as consequências para crianças e idosos. Também falou sobre os efeitos do confinamento para casamentos e outras relações pessoais.

BBC News Brasil – Você já falou que a pandemia criou três perfis: o tolo, o confuso e o desesperado. Quem são eles?

Dunker – Estamos em uma situação na qual precisamos fazer frente ao medo de algo que vem de fora: há um bicho lá fora e ele pode nos pegar. Mas esse medo vai se somar às angústias internas.

O ‘tolo’ sente tanto medo que precisa negar o que está acontecendo. Então, ele diz: ‘isso é uma gripezinha, vai passar, foi uma invenção dos chineses, não precisamos ter medo’.

A segunda resposta do tolo é a seguinte: ‘ok, isso existe, mas eu sou uma pessoa especial, alguém me protege lá em cima, estou imune, sou atleta’. É outra forma de negar o medo.

Chamo essa pessoa de tola porque era uma maneira que a filosofia antiga falava daquele que não era covarde nem corajoso. Para você ser um dos dois, precisa sentir medo, pois um regride e o outro ataca. Falta ciência e capacidade para o tolo ver o medo, ele não entende que ter medo é importante.

Já o ‘desesperado’ é o contrário: ele substitui o medo de fora pela exageração das angústias que já sente. Ele acha que não pode fazer nada, que a ameaça é tão poderosa que ele está perdido, mal amado, um pobre coitado. A situação só confirma seus complexos infantis. Ele sente angústia e desamparo.

Entre esses dois polos existe o tipo misto, que é o ‘confuso’. Ele transita entre o tolo e o desesperado. Ele não entende direito o que está acontecendo. Uma hora acha que tudo está perdido; depois, fica mais otimista. Ou seja, ele não sabe direito como agir.

Eu diria que, se você não está confuso nesse momento, procure um psicanalista porque você tem um problema, e ele não é o coronavírus.

materia completa em : https://www.bbc.com/portuguese/geral-52160230

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