Um empresário de Belo Horizonte denunciou o pastor Jesiel Júnior Costa Oliveira e detalhou uma sequência de golpes complexos, premeditados e executados ao longo de vários anos, que teriam causado um prejuízo acumulado de R$ 4.918.821,84.
De acordo com o relato da vítima, os prejuízos foram causados em seis golpes principais, todos estruturados com promessas de grandes retornos financeiros, liberação de valores bloqueados, negócios internacionais e supostas conexões com instituições bancárias e órgãos oficiais.
Do pacote de viagem ao falso desbloqueio bilionário: documento detalha seis golpes e rombo de quase R$ 5 milhões
Uma representação criminal protocolada em Belo Horizonte descreve uma sequência de golpes que teriam sido aplicados ao longo de vários anos por um grupo apontado como liderado por Jesiel Junior Costa Oliveira e Adriana Trindade Oliveira. Segundo o documento, o prejuízo acumulado chega a R$ 4.918.821,84, após uma escalada de promessas, falsas oportunidades de negócio, pressões psicológicas e sucessivos pedidos de dinheiro.
O relato apresentado à polícia mostra um roteiro que, de acordo com a denúncia, começou com uma dívida relativamente menor e evoluiu para operações cada vez mais complexas, envolvendo supostos contatos em bancos, desbloqueios milionários, viagens, empréstimos e repasses contínuos. A estratégia, conforme a representação, teria seguido um padrão: criar uma narrativa de grande retorno financeiro, exigir pagamentos “urgentes” e, diante de novos obstáculos, pedir ainda mais dinheiro.
Como o esquema teria avançado, golpe por golpe
1. A viagem para a Europa que nunca foi paga
O primeiro episódio narrado ocorreu em julho de 2019. Conforme a representação, Jesiel e o pai dele compraram uma viagem para Portugal e Espanha no valor de R$ 30.656,93 por meio da agência da vítima. O pagamento teria sido prometido para depois do retorno ao Brasil, mas, segundo o documento, nunca foi feito. Esse é apontado como o início da relação que mais tarde evoluiria para prejuízos muito maiores.
2. A promessa de lucro com petróleo da Venezuela
No começo de 2020, o caso teria dado um salto. De acordo com a denúncia, surgiu a proposta de ingresso em um suposto grupo comercial ligado a “Dr. Goulart”, com promessa de investimento em compra e venda de petróleo da Venezuela para a Inglaterra. Para entrar nesse negócio, a vítima teria desembolsado R$ 297.750,00. Depois, ainda pagou R$ 8.745,28 em despesas de viagem para tentar localizar o suposto parceiro, que teria desaparecido. O prejuízo desse segundo golpe foi calculado em R$ 306.495,28.
3. A abertura de conta no Banco Alfa e a história do dinheiro bilionário
Em agosto de 2020, conforme a representação, surgiu uma nova história: seria necessário abrir uma conta no Banco Alfa, em São Paulo, para que uma suposta tia de Jesiel pudesse receber um valor próximo de R$ 1 bilhão. Antes mesmo da viagem, houve pedido de ajuda financeira de R$ 3.500,00. Depois, vieram despesas de viagem de R$ 9.285,53. Em São Paulo, a vítima teria sido apresentada a Adriana, descrita no documento como alguém que se apresentava como funcionária do Banco Central e com trânsito junto a um diretor do banco. A abertura da conta teria custo estimado em R$ 800 mil. No fim, segundo a denúncia, nada foi resolvido e o prejuízo dessa fase ficou em R$ 176.322,68.
4. O golpe mais pesado no Banco Alfa
O quarto episódio é um dos mais graves narrados na representação. Em abril de 2021, Adriana teria informado que um suposto investidor chamado Antonio Augusto Marcato participaria com R$ 350 mil para viabilizar a abertura da conta, restando à vítima levantar mais R$ 450 mil. A partir daí, segundo o relato, houve uma sucessão de pagamentos: empréstimo bancário, repasses para “falsos serviços”, ajuda financeira direta a Jesiel e novas despesas com viagens. O documento afirma que essa engrenagem durou até janeiro de 2023, quando veio a informação de que a “situação” havia sido cancelada e que os valores não poderiam ser devolvidos. O prejuízo estimado nesse golpe foi de R$ 1.289.729,30. A representação ainda sustenta que parte do dinheiro teria sido usada na compra de um imóvel por Adriana, tese que o autor pede que seja investigada pelas autoridades.
5. O suposto desbloqueio de € 24 milhões
Mesmo após as perdas anteriores, a denúncia diz que um novo enredo foi apresentado em 2022. Dessa vez, a promessa seria a liberação de € 24 milhões ligados à empresa Bioeng Tecnologia e Engenharia Ltda., com participação de Tor Erik Nilssen. Para isso, teriam sido cobrados R$ 200 mil em honorários e R$ 1,866 milhão em certidões do Banco Central. O documento relata que, entre abril e novembro daquele ano, a vítima gastou R$ 135.985,53 em viagens e R$ 167.400,00 em supostos serviços. No final, Tor Erik teria ido para Portugal e não retornado mais ao Brasil, fazendo com que toda a operação desmoronasse. O prejuízo apontado é de R$ 303.385,53.
6. A conta bloqueada no Santander
O sexto golpe, segundo a representação, começou em dezembro de 2023 e ainda teria deixado efeitos até 2025. A nova narrativa envolvia a liberação de R$ 600.181.730,12 no Banco Santander, em nome de Robson de Almeida Leal. A promessa era de um serviço “rápido e seguro”, novamente com menções a contatos internos em instituições financeiras. Vieram então novas exigências de dinheiro: R$ 300 mil, depois R$ 200 mil, mais R$ 215.350,00, além de R$ 396 mil para uma chamada “certidão de origem” e outros R$ 200 mil entre julho e setembro de 2024. O documento ainda relata novas cobranças de R$ 57 mil e até a informação de que seria preciso levantar mais R$ 2 milhões, depois reduzidos para R$ 200 mil como “alternativa interna”. A pressão financeira foi tão intensa que, segundo a denúncia, houve venda de imóvel da mãe da vítima para quitar dívidas. O prejuízo apontado nesse último núcleo é de R$ 2.812.232,12, o maior de todos.
6. O maior de todos: venda de petroleo
Entre os episódios mais chamativos da representação está o suposto golpe envolvendo uma falsa operação internacional de petróleo entre os governos da Venezuela e da Inglaterra. Segundo o relato apresentado à polícia, a promessa foi vendida como uma oportunidade milionária, cercada de aparência de grande negócio e discurso de alta lucratividade. Convencida de que participaria de uma negociação internacional de peso, a vítima teria repassado R$ 297.750,00 para entrar no esquema. O enredo, no entanto, teria ruído com o desaparecimento do suposto articulador da operação, identificado como “Dr. Goulart”. Além do valor principal, a vítima ainda arcou com despesas de viagem na tentativa de localizar os envolvidos, fazendo o prejuízo desse episódio chegar a R$ 306.495,28, conforme a representação criminal.
Um padrão que se repetia
Ao observar a sequência descrita na representação, o que chama atenção é a repetição do método. Sempre aparecia uma nova oportunidade grandiosa, normalmente ligada a valores milionários ou bilionários. Em seguida, surgiam exigências de pagamentos urgentes: taxa, certidão, honorário, liberação, viagem, custo interno, ajuda emergencial. Quando a solução parecia próxima, surgia outro obstáculo e, com ele, outro pedido de dinheiro.
É justamente esse encadeamento que, segundo o autor da denúncia, teria levado ao colapso financeiro, familiar e profissional da vítima. O documento afirma que a empresa dela fechou, que o casamento terminou e que parentes também foram arrastados para a crise por meio de empréstimos, garantias e venda de patrimônio.
O que a representação pede
Na peça apresentada à polícia, o autor pede a instauração de inquérito, a responsabilização criminal dos envolvidos, a quebra de sigilos bancário e fiscal, o bloqueio de bens e o ressarcimento integral dos prejuízos. A representação cita, em tese, possíveis crimes como estelionato qualificado, falsidade ideológica, falsidade documental, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Até o momento, o conteúdo analisado corresponde à versão apresentada pelo denunciante às autoridades.
O tamanho do prejuízo
A tabela anexada à própria representação resume os valores atribuídos a cada episódio: R$ 30.656,93 no primeiro golpe, R$ 306.495,28 no segundo, R$ 176.322,68 no terceiro, R$ 1.289.729,30 no quarto, R$ 303.385,53 no quinto e R$ 2.812.232,12 no sexto, somando R$ 4.918.821,84.
A denúncia reforça a suspeita de que o investigado utilizava sua posição religiosa para conquistar a confiança das vítimas e convencê-las a realizar depósitos e investimentos em negócios que nunca se concretizavam.















