Pular para o conteúdo

Feminicídio marca 2025 em Divinópolis e escancara a persistência da violência contra mulheres

Image

O ano de 2025 ficará registrado na história recente de Divinópolis como um período marcado pela violência letal contra mulheres. Os casos investigados como feminicídio e tentativas do crime revelam uma realidade dura e persistente, que expõe a gravidade da violência de gênero no município e na região Centro-Oeste de Minas Gerais, apesar dos avanços legais e institucionais conquistados nos últimos anos.

Nos termos da legislação brasileira, o feminicídio é definido como a morte de mulher por razões da condição do sexo feminino, especialmente quando o crime ocorre em contexto de violência doméstica e familiar ou envolve menosprezo ou ódio à condição de mulher. A tipificação foi incluída no Código Penal em 2015, por meio da Lei nº 13.104, inicialmente como qualificadora do homicídio. Em 2024, a Lei nº 14.994 promoveu uma mudança significativa ao transformar o feminicídio em crime autônomo, o que ampliou sua visibilidade e reforçou a necessidade de enfrentamento específico desse tipo de violência.

Em Divinópolis e municípios próximos, ao longo de 2025, diversos episódios passaram a integrar as estatísticas da violência contra mulheres. Um dos casos de maior repercussão foi a morte da personal shopper Henay Rosa Gonçalves Amorim, de 31 anos. Inicialmente registrada como acidente de trânsito na rodovia MG-050, em Itaúna, a ocorrência passou a ser investigada como feminicídio após o avanço das apurações da Polícia Civil. A análise de imagens de câmeras de segurança de um pedágio levantou dúvidas sobre a dinâmica do ocorrido.

O namorado da vítima, o empresário Alison de Araújo Mesquita, de 43 anos, é investigado por suspeita de matar Henay e simular o acidente para encobrir o crime. Ele foi preso durante o velório da vítima e encaminhado ao Presídio Floramar, em Divinópolis, onde permanece à disposição da Justiça.

Outro caso que mobilizou a cidade foi a morte da biomédica Simone Sombra, de 44 anos, ocorrida após um acidente envolvendo uma motocicleta no Bairro Ferrador. Simone morreu no dia 21 de dezembro e deixou três filhos e um neto. Familiares informaram à Polícia Civil que ela era passageira da moto conduzida pelo ex-marido, contra quem possuía uma medida protetiva. Após o acidente, o homem acionou o resgate e deixou o local. A Polícia Civil instaurou procedimento para apurar as circunstâncias da morte e informou que todas as linhas investigativas estão sendo analisadas, inclusive a hipótese de crime.

Colegas, clientes e amigos destacaram, nas redes sociais, a dedicação de Simone à profissão, o vínculo próximo com pacientes e sua participação ativa na vida social de Divinópolis, o que gerou grande comoção.

Além das mortes consumadas, o município também registrou uma tentativa de feminicídio. Uma mulher de 25 anos foi encontrada com cerca de 16 perfurações por faca após uma briga com o companheiro, na Avenida Limeira, no Bairro Jardinópolis. A vítima sofreu ferimentos graves na cabeça, rosto, pescoço, costas, peito, abdômen e braços, sendo socorrida em estado crítico para a Sala Vermelha do Complexo de Saúde São João de Deus. O suspeito, que possui antecedentes criminais por furto, ameaça e agressões, fugiu e segue sendo procurado. O caso é investigado como tentativa de feminicídio.

Na zona rural de Divinópolis, a violência também se fez presente. Em agosto, na comunidade do Buritis, um duplo feminicídio chocou a população. Mãe e filha, de 56 e 30 anos, foram atingidas por disparos de arma de fogo dentro da residência onde viviam. A mulher mais velha morreu no local, enquanto a filha foi socorrida em estado grave. O autor dos disparos, um homem de 39 anos, foi localizado pela Polícia Militar, confessou o crime e teve a prisão convertida em preventiva. As investigações da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) apontaram que o relacionamento era marcado por violência psicológica e controle excessivo, e que a decisão da vítima de encerrar a relação teria motivado o crime. O inquérito foi concluído com o indiciamento por feminicídio consumado e tentado.

Outro caso de extrema brutalidade foi o de Lucélia Batista Silva, de 39 anos, moradora da comunidade rural do Choro, em Divinópolis. Ela morreu após ser violentamente agredida com um banco de madeira no dia 15 de agosto. O principal suspeito é o marido da vítima, que fugiu logo após as agressões e, até o momento, não foi localizado pela Polícia. Lucélia chegou a ser socorrida com vida, mas em estado gravíssimo. Após o ataque, perdeu completamente os movimentos de um lado do corpo e apresentava pouquíssimos movimentos do outro, permanecendo internada em estado crítico até não resistir aos ferimentos.

Também em Divinópolis, a morte da estudante Dhandara Kellen Ferreira, de 18 anos, gerou forte comoção. A jovem foi encontrada morta em um matagal no Bairro Primavera após três dias desaparecida. Descrita por familiares e amigos como comunicativa, carismática e muito querida, Dhandara havia retomado recentemente os estudos por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), sonhando em concluir o ensino médio e ampliar suas oportunidades. Ela estava desaparecida desde a quarta-feira (10), e o corpo foi localizado no sábado (13), em uma área de mata às margens de uma lagoa. A Polícia Civil investiga o caso, e, até o momento, não divulgou a causa da morte. Segundo a mãe, o último contato com a filha ocorreu na tarde do desaparecimento; Dhandara estava sozinha em casa e não avisou que sairia.

Os episódios registrados em Divinópolis refletem uma realidade nacional. Dados do sistema de saúde apontam que, somente em 2023, quase 4 mil mulheres foram mortas no Brasil. Grande parte desses crimes ocorre dentro de casa e é resultado de trajetórias contínuas de violência de gênero, que envolvem agressões físicas, psicológicas e, muitas vezes, sexuais.

Apesar dos avanços normativos e da ampliação da rede de proteção, a violência contra mulheres segue como um problema estrutural. Em Divinópolis, os casos de 2025 reforçam a urgência de fortalecer políticas públicas, garantir o cumprimento efetivo de medidas protetivas, incentivar denúncias e assegurar respostas rápidas do sistema de Justiça, para que a violência não continue tendo como desfecho a morte de mulheres.