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O mistério do “Castelo Do Suíço” de Divinópolis

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Por Felipe Machado

A intrigante história da Família Neukom, reservados e enigmáticos suiços que se estabeleceram em Divinópolis, edificando o famoso “Castelo do Suíço” onde residiram entre as décadas de 50 e 60, e que deixaram a cidade misteriosamente, em 6 de setembro de 1962.

Quando a II Guerra Mundial terminou, em 1945 o sr. Edwin Neukom e sua esposa, Gertrude Neukrom, casal de origem suíça, como outros milhares de europeus, emigraram do continente europeu, devastado pela Guerra. Primeiramente, tentaram partir para a África, mas ao chegar no Canal de Gibraltar, no sul da Espanha, encontraram a travessia fechada.

Resolveram então vir para o Brasil, mais precisamente para o Rio de Janeiro, cidade que assim como outras capitais sul-americanas, a exemplo de Buenos Aires e Assunção, tinha a preferência de muitos fugitivos da guerra. O que também pesou para esta escolha foi o fato do pai de Edwin já ter residido na então capital federal, anos antes, em 1925. Na época, o empresário representava uma empresa europeia em terras cariocas.

Na então Capital Federal, Neukom trabalhou no desenvolvimento do primeiro motor caminhão produzido no Brasil, na ‘Fábrica Nacional de Motores — FNM’, que recebeu o carinhoso e charmoso nome de “Fênêmê”, num sotaque bem arretado, depois que os seus veículos bateram as empoeiradas terras das estradas nordestinas.

Apesar do sucesso profissional em terras cariocas, havia um impecílio para a contratação de Edwin Neukom na empresa nacional. Como era um estrangeiro, na época seria necessário que houvesse uma liberação do Governo Federal para que um estrangeiro pudesse trabalhar numa empresa estatal brasileira. Por via de um decreto, assinado pelo próprio Getúlio Vargas, foi permitido que o suíço fosse admitido. Apesar de tudo, Edwin dispensou o cargo oferecido.

CAP Paulistinha, aeronave da fábrica onde trabalhou o sr. Neukom no início dos anos 1950 / Acervo Paulo Dias.

De forma inexplicável, Neukom abandonou o Rio e partiu para São Paulo, onde empregou-se na Fábrica de Aviões Paulistinha, que produzia uma aeronave de respeito, que fez muito sucesso na época. Coube ao sr. Neukom estudar e implantar o sistema de que deu sustentação às asas dos aparelhos. Com novo sucesso obtido, Neukom teve a mesma atitude: abandonou o emprego e mais uma vez “fugiu”, desta vez rumo à Belo Horizonte.

Na capital mineira, o suíço foi responsável pela invenção de um moderno modelo de fogão à álcool que logo promoveu enorme sucesso de vendas, tanto naquela cidade quanto no interior. Neukom, sempre à frente do seu tempo, passou a estudar o gás como combustível de fogões residenciais e industriais. Vale ressaltar que na época, a grande maioria da população cozinhava em fogões à lenha ou à carvão. Fogões elétricos e à gás começaram a se popularizar na sociedade brasileira após os anos 1950.

Foi nessa mesma época que ele e a esposa se mudaram para Divinópolis, trabalhando inicialmente numa fundição que funcionou na Rua São Paulo, entre as avenidas 1º de Junho e Getúlio Vargas. O casal residiu, em seus primeiros anos na cidade, na então Avenida Independência (atual Avenida Antônio Olimpio de Morais), entre as ruas Minas Gerais e Goiás, vizinhos de lado do construtor e delegado de polícia dr. João Dias.

Fogões Gardini, anunciados em Belo Horizonte / Fonte: Pinterest.

Posteriormente, o sr. Neukom procurou o então Banco Mineiro da Produção, sob gerência de Rosenwald Hudson de Oliveira, com intuito de pedir um financiamento com objetivo de montar uma fábrica de fogões à gás que planejava instalar em Divinópolis. Rosenwald não se impressionou muito com aquele imigrante que falava um péssimo português e negou o financiamento. Edwin Neukom não se deu por vencido, voltou à sua casa, montou uma máquina de fazer café, e pouco depois retornou ao banco. Novamente à frente do sr. Rosenwald, o suíço fez uma cafezinho quentinho e, na hora, ofereceu ao gerente pouco interessado em negociar. Aprovado, Rosenwald concedeu finalmente o financiamento para a sua fábrica, a qual nomeou de “Gardini”. Seu maquinário foi montado na Rua Itapecerica, nº 295, pouco abaixo da Avenida Getúlio Vargas (o prédio ainda existe, hoje totalmente destruído).

Segundo Palmério Ameno, grande memorialista desta cidade, à beira de completar seu centenário, a população de Divinópolis, assim como a maior parte dos brasileiros naqueles primeiros anos de pós-guerra (segunda metade da década de 1940) “cultuava um comportamento, até certo ponto exagerado, algumas crenças sobre possíveis espiões e “quinta colunas”. Estes eram considerados colaboradores , de alguma forma, com a Alemanha e os primeiros, quase uma obsessão, de supor que alemães, radicados neste pais, a maioria já com cidadania brasileira, poderia ser um espião em potencial”.

Prédio que abrigou a fábrica de fogões de Edwin Neukom, na Rua Itapecerica, ao centro da imagem, em 1950 / Foto: Halim Souki — Acervo EmRedes.

Com o sr. Neukom não foi diferente. Logo correram os boatos e comentários de que o distinto suíço estava na lista dos “quinta colunas”. A população de certo modo, tinha motivos para suspeitar do sr. Neukom. Segundo também memorialista Hugo Werneck, Neukom “era tremendamente preconceituoso com negros, pobres e brasileiros. Ele não mantinha relações de amizade com ninguém e não convivia socialmente com outras pessoas. Ninguém o visitava e ele não visitava ninguém.”. Segundo Eduardo, filho de Edwin, seu pai “era muito reservado e não se deixava fotografar e nem a sua residência”.

Palmério Ameno corrobora com a descrição de Werneck, definindo Edwin Neukom como uma pessoa de “comportamento absolutamente reservado, que só era visto abastecendo seu carro no Posto Shell , do Sr. Nagib Jurdi, ou em sua fábrica, à Rua Itapecerica, cujos fogões tinham o emblema; “EG”(Equipamentos Para Gáz), os quais eram muito procurados dada sua alta qualidade.

Posto Shell, de Nagib Jurdi, na esquina da Rua Itapecerica com a Avenida Getúlio Vargas, nos anos 1950 / Acervo Grupo Memória de Divinópolis — Foto colorizada por Vilton Teixeira.

Além de sua conduta reservada e misteriosa, o personagem iniciou, na década de 50, a construção de uma grande casa, bem arrojada, em arquitetura clássica, localizada no recém loteado bairro Sidil. A propriedade era enorme, e agregava boa parte do terreno do quarteirão entre as ruas Espírito Santo, Paraíba, Amazonas e Rio de Janeiro. O local, por sua localização, imponência e enigmática semelhança com um verdadeiro castelo europeu, passou a ser conhecido como “Castelo do Suíço” pela população. No local, atualmente, funciona o Colégio Anglo, amplamente reformado e desfigurado de suas originalidades.

Retrato do “Castelo do Suíço”, tela concebida por Marco Antônio Paduani / Acervo Levy Martins Guimarães

O filho do casal, Eduardo Neukom, definiu como era a propriedade na época em que residiram no local:

Este castelo foi construído por meu pai, Edwin Neukom, que também era proprietário da fabrica de fogões a gás — a EG Equipamentos para Gás — no ano 1956, por ai. A casa era de côr creme. O telhado da torre terminava num cone de madeira. Naquela torre tinha um belíssimo quarto separado preparado para a minha avó, se chegasse da Suíça para nos visitar. No térreo tem a sala com a vidraça redonda e ampla passagem para a piscina aonde se passava o muro alto com aberturas redondas. Da piscina tinha uma porta ao lado que dava passagem para a cozinha. Enorme sala de jantar. A esquerda da porta principal era o amplo escritório com moveis de jacarandá maciço. São algumas recordações minhas. Todos os dias eu fazia aquela longa caminhado para o Grupo Escolar Joaquim Nabuco aonde eu estudava até final de 1962.

O “Castelo do Suíço”, hoje dependência do Colégio Anglo, construído pelo imigrante suíço Edwin Neukom para ser sua residência entre os anos de 1954 e 1962 / Acervo Grupo Memória de Divinópolis.

O cidadão helvécio passou, a partir de então, a residir neste local, confinado com sua família, junto a sua esposa, Gertrudes Neukom, criando seus filhos, os pequenos Eduardo Neukom e Henriqueta Neukom. Segundo Werneck, “seu filho Eduardo foi, praticamente, educado tendo com professora a mãe. Ele frequentou uma escola regular somente no quarto ano do ensino fundamental (…)”.

Na nova residência o mistério ainda mais se acentuou. Segundo Palmério Ameno os comentários eram gerais. “O Suiço deve ser um espião ”, murmurava a população. O tempo ia passando, os rumores iam crescendo até que, certa vez, o suposto “espião” com sua família, desapareceram “que nem estrela cadente”, definiu.

Na madrugada do dia 6 de Setembro de 1962, de forma repentina e sem alarde, a família Neukom abandonou a cidade e o Castelo, deixando a maioria de seus pertences, levando apenas o que era possível em mãos. Ninguém ficou sabendo para onde teriam ido.

Segundo declarado pelo seu filho, Eduardo, na época com apenas 10 anos de idade, o avião da empresa Soares Nogueira, guiado pelo piloto Ítalo Consoli, decolou do Aeroporto Brigadeiro Cabral naquela alvorada, com destino ao Rio de Janeiro, levando os quatro membros da família Neukom. No mesmo dia, às 10 horas da noite, a família pegou um voo da Lufthansa com destino a Zurich, capital da Suíça.

“De madrugada uma pessoa veio nos buscar e embarcamos em um teco-teco, não me recordo aonde, rumo Rio de Janeiro. Sem entender o que estava acontecendo, embarcamos no avião da Lufthansa e desembarcamos na Suíça. Tudo novo, estranho, diferente para mim. Isto foi em setembro de 1962. Ficou pra trás Castelo Suiço e o carro Standard Vanguard, que tinha a superficie do teto queimado do sol e era apelidado de ‘’Roxinhol’’, relatou Eduardo Neukom.

Italo Consoli, piloto ao lado da aeronave PT-AHK, da firma Soares Nogueira S.A., que partiu com os quatro membros da família Neukom do Aeroporto de Divinópolis rumo ao Rio de Janeiro em 6 de setembro de 1962 / Acervo Grupo Memória de Divinópolis

Em outro registro, Eduardo deu mais detalhes sobre o dia que antecedeu a fuga da família:

“O que vc está relatando foi exatamente no dia quando a tarde meu pai, Edwin, me mandou cortar o cabelo. Eu tinha 10 anos de idade. Ao anoitecer eu encontrei meu pai e minha mãe jogando objetos em um buraco do lado da dependência construída como sendo um depósito, aonde do lado de fora estavam instalados os grandes botijões de gás. Na madrugada embarcamos em um carro para o campo de aviação. Isto em setembro 1962, quando o Sr. José Jaime comprou a propriedade.”

Perguntado sobre o motivo da fuga dos pais, esta foi a resposta do filho do casal:

“Na época eu tinha 11 anos. Eu fui educado em um regime ‘sim ou não’. Criança não participava de conversas de adulto, a não ser se fosse chamado. Com o tempo fui descobrindo o fato de todo o acontecimento. Em 1961 meu pai tinha viajado para a Suíça por motivo do falecimento da minha avó. Na torre do castelo pode se ver uma janela aonde tinha um quarto com um cama toda coberta de branco e móveis de madeira nobre que era destinada à minha avó visitante. Na época o meu pai tinha vendido a fábrica equipamentos para gás e construído dois galpões na Rua Espirito Santo, oposto ao castelo, que seria uma fundição para materiais especiais. Não foi concretizado devido a rápida desvalorização do Cruzeiro. Em Setembro de 1962, em um dia a tarde, meu pai me mandou para o cabelereiro. Quando cheguei em casa, no final da tarde, me deparei com meu pai e minha mãe em frente a um buraco com chamas e fumaça. Me despistaram para o jantar e dormir. De madrugada fui acordado. Pai, mãe, irmã e eu embarcamos em um carro e, ao amanhecer, embarcamos em um pequeno avião. Condutor do carro era o sr. José Jaime, e o do avião o comandante Consoli, rumo ao Rio de Janeiro. Tudo foi tão rápido, normal, sem perguntas. Para o meu pai tinha ficado claro que, após o aumentar da desvalorização do Cruzeiro, vinha uma instabilidade politica. Dito e feito, em 1964 o Exército assumiu o comando no Brasil. Resumindo: Saída repentina em 1962 por motivo da inflação alta e incerteza da situação politica.”

O “Castelo do Suíço”, que hoje abriga o Colégio Anglo, na Rua Espírito Santo / Foto: Colégio Anglo Divinópolis.

Quando deixaram o Castelo, foi revelado que o sr. Neukom havia procurado os empresários Alvimar Mourão e José Capitão para vender sua propriedade. A venda acabou sendo concluída para outro empresário local, o sr. José Jaime Soares, que junto com sua família, passou a residir no Castelo após a partida dos suíços. Posteriormente a residência foi vendida para o dr. Arthur Albino, que por sua vez passou-a para o empresário Flavio Carneiro. Este último foi quem transferiu-a para o Sr. Antonio Martins Guimarães, ex-prefeito de Divinópolis, último proprietário do imóvel identificado, antes que o local se desconfigurasse em escola.

O “Castelo do Suíço”, a centro-direita na foto, cercado pelas árvores, em vista aérea do bairro Sidil, ns anos 1960 / Acervo EmRedes.

Edwin e Gertrude Neukom nunca mais pisaram em solo brasileiro. Em 1983, mais de vinte anos depois de sua repentina fuga, por razões da qual se desconhece, ambos lamentavelmente selaram pacto de morte e se suicidaram. No mesmo ano, o filho do casal retornou de passagem por Divinópolis, quando fez contato com os proprietários do Castelo na época e visitou suas dependências depois de mais de duas décadas, revivendo as memórias de sua infância. Concluindo seus estudos na Suíça, bem longe do Castelo de Divinópolis, Eduardo Neukom cursou também o Estudo da Língua Inglesa na Universidade de Cambrige. Atualmente, Eduardo Neukom reside em Navegantes, no estado de Santa Catarina, onde é/foi supervisor operacional de navios, além de poliglota dominador de sete idiomas distintos.