
Por Felipe Machado
A história do farmacêutico, memorialista, e um dos homens de maior cultura e sabedoria da história de Divinópolis: Francisco Gontijo de Azevedo, o “Chico Doido”, que de adoidado nada tinha, mas sim muita inteligência e cultura.
Francisco Gontijo de Azevedo, o ‘’Chico Doido’’, nasceu em 11 de abril de 1901 no então Arraial do Espírito Santo do Itapecerica, atual Divinópolis, filho de João Severino de Azevedo e Maria Teodora Gontijo. Família tradicional, seu pai seria um dos vereadores eleitos para a Primeira Câmara na emancipação do municício, em 1912, e sua mãe, sobrinha do ‘Patriarca de Divinópolis’, o sr. Francisco Machado Gontijo.
Iniciou-se no pequeno Grupo Escolar do professor Chico Dias, por quem sempre demonstrou profunda veneração. Após sua formação, estudou na Faculdade de Farmácia de Pouso Alegre, onde desenvolveu sua paixão pelo estudo. Foi, durante sua vida, um excelente farmacêutico e de nobre colaboração a sua terra natal.
Casou-se com Anísia
Ferreira da Silva, também de família desta localidade, com quem
teve quatro filhos. Era membro influente da Maçonaria, com
participações especiais em atividades sociais e filantrópicas,
ajudando principalmente na instalação da Loja Estrela do Oeste,
inclusive com trabalhos braçais. Colaborou também com a fundação
da Escola Normal Dr. Mário Casasanta, inicialmente no
velho sobrado do Largo da Matriz.
Foi responsável também por abrir, dentro da Loja Maçônica, um
recinto voltado ao estudo do Esperanto, língua que no ideal de
Zemenhof seria a auxiliar de comunicação internacional. Adorava
também a música, e tocava alguns instrumentos de sopro, amando o
estilo erudita. Possuía a utopia que algum dia, haveria um piano em
cada casa.
Sua devoção ao estudo, a arte, a farmácia e demais causas nobres que seguia lhe renderam o apelido de ‘Chico Doido’, que apesar de jeito, era de certa forma carinhoso e bem aceito. De tão inteligente, acima da média, era considerado ‘doido’ por uma maioria que não era capaz de entendê-lo, classificando toda sua postura estudiosa, erudita e culta como ‘’loucura’’.
Num tempo de total domínio da Igreja Católica, Francisco lutava sempre pela abertura e pela liberdade religiosa. Participava influentemente da 1ª Igreja Batista, na Avenida Independência, e como membro da Loja Maçônica Estrela do Oeste, o que levou à sua excomungão da Igreja Católica, vivendo sob discriminação de muitos daqueles que se convertiam à fé da Igreja do Vaticano.
Em 1944, foi autor de um importate e revoltante texto publicado no Divinópolis Jornal, intitulado ‘Espetáculo Desconsertante’:
‘’No dia 27 de janeiro (1944), a Avenida 1º de Junho foi placo de um espetáculo verdadeiramente desconsertante e muito põe em dúvida o nosso grau de civilização. Em plena luz de um sol claro, quando os meninos saiam do Grupo Escolar, passaram pela Avenida 1º de junho, principal Avenida em movimento e comércio de nossa cidade, dois cavaleiros armados de vara-de-ferrão, conduzindo uma vaca para ser abatida no Açougue Municipal (no atual Parque da ilha). As disparadas, as correrias, os gritos, em poucos minutos, puzeram a Avenida em pânico. Para mais ‘africanizar’ o espetáculo, havia ainda dois cães de fila que latiam desesperadamente e mordiam enraivados no animal que procurava fugir de seu caminho de execução de morte. Os cavaleiros esbordavam a vaca, metiam-lhe o ferrão em todas as partes do corpo, fazima gestos elegantes em cima do cavalo e a vaca urrava, berrava, enquanto a meninada e algumas crianças ‘de cabelos brancos’ gozavam e gargalhavam com estrepitosas manifestações de prazer diante de tão singular espetáculo. Aturdida pelas pancadas e pelos latidos dos cães, tão bem amestrados para tal fim, desorientada pela algazarra produzida, a vaca desfalecia ou escorregava nas poças dos enxurros, e caía mais uma vez, para dar início a mais uma modalidade de martírio e exemplificação de selvageria: — torciam-lhe o rabo, aferroavam-lhe as partes mais sensíveis do corpo, enquanto a vaca urrava, berrava e corcoveando, pulando pela Avenida a fora, recebia do povo as gargalhadas, as manifestações de alegria e os aplausos hilariantes da meninada que tanto gozava do espetáculo gratuito e em que todos nós éramos protagonistas. E nesse cortejo de miséria, nessa via dolorosa de martírio, foi-se mais uma vaca para o Matadouro Municipal, para ser abatida, depois de bem martirizada, afim de bem alimentar um povo. Será que, lá no inferno, os demônios, os capetas, os satanazes terão os mesmos sentimentos para com os condenados? O diabo, apesar de não se alimentar da carne humana, terá tanta eficiência na arte de martirizar suas presas? Eu até penso que o diabo deve ser mais humano um pouco, até porque ele não tem culto de civilização e nem anuncia as suas virtudes…”
Ao lado do irmão, Antônio Gontijo de Azevedo, escreveu o livro ‘Da História de Divinópolis’, obra importantíssima, publicada por sua filha somente quatro décadas após sua morte, que tratou de reunir e registrar as histórias orais que passaram de geração em geração desde os mais antigos moradores de Arraial até as histórias da moderna Divinópolis no século XX.
Faleceu no dia 11 de
outubro de 1948, com apenas 47 anos de idade. Estava em um
congresso maçônico na cidade de Araxá, onde um mal súbito o levou
ao óbito. Naquele dia, segundo testemunhas, havia proferido algumas
de suas últimas palavras: “Quem não fizer a sua lousa em vida,
não a fará depois de morto.”
Seu sepultamento foi mais um ato de seus ideais, sendo enterrado
num local, na época, chamado de ‘campo dos pagãos’, num
pequeno anexo do cemitério da Rua Paraná destinado aos
“não-católicos” e “pessoas de pouca fé”.
No livro ‘Construtores da História de Divinópolis’ é apontado como um dos que mais contribuiram à cidade de Divinópolis na saúde, na cultura, na religião protestante, na maçonaria e na memorabilidade.
Em sua homenagem, a Prefeitura de Divinópolis batizou a Escola Francisco Gontijo de Azevedo, na década de 50, atualmente desativada.















