Por Daniel Bicalho
Eu fiquei de quarentena ano passado. Depois do transplante renal que recebi. Já no hospital convivi com umas coisas que hoje são bem comuns: só andava de máscara, luvas, lavava as mãos toda hora, antes de tudo e depois de tudo. Aprendi sobre os perigos de roer unha e parei. Álcool gel virou rotina. Pra mim e pra minha família. E muitas outras coisas que hoje me são bem úteis. Não podia pegar nenhum vírus. Qualquer um podia ser fatal. E tinha um que era o pior de todos: o CMV. E eu tinha 99,9% de chances de contraí-lo: eu nunca havia pegado e a minha esposa e doadora tinha o CMV (90% das pessoas tem). Até hoje ele não deu as caras.
Mas eu fui relaxando a quarentena. Devagar, fui baixando a guarda, um beijo ali, um abraço, uma saída sem máscara, luvas nunca mais, álcool gel só de vez em quando, comendo fora de casa sem muita preocupação. No final já estava era chutando o balde.
Aí me ferrei. E nem foi vírus. Peguei uma bactéria. Klebisiella, uma “superbactéria” resistente a todos os tipos de antibiótico. Comecei com um cansaço que diagnostiquei como resultado do período comercial de final de ano. Depois uma febre alta que não cedia. Daí falta de ar. Então hospital e uma semana da qual não me lembro de nada. Infecção generalizada. Médicos sem muitas opções de tratamento. O rim transplantado dando sinais que ia parar. Sistema respiratório parando, cérebro entrando em parafuso. Um dia, os médicos (já eram uma junta nesse dia) entraram no quarto (que já tinha uma placa na porta: NÃO ENTREM. PACIENTE IMUNOSSUPRIMIDO INFECTADO) e jogaram a real: teremos que tentar um tratamento não convencional. Um remédio tal, numa dose tal, que já deu resultado positivo em alguns casos como o seu. Nada garantido. É nossa última bala. A Denise saiu com eles, assustada: ‘vai dar certo?’ e o médico: ‘você tem fé? Então reze.’
Fiz o tratamento e estou aqui hoje, quatro meses depois, enfrentando minha segunda quarentena. Poderia não estar. Quando tive alta hospitalar, depois de passar natal e réveillon, fui agradecer aos médicos. “Tivemos sorte”, disse um, “agradeça a Deus”, disse outro.
Quis contar essa história porque senti na pele o que o meu relaxamento com uma quarentena fez.
E era uma quarentena solitária. Ninguém se contaminou porque eu me contaminei. Não havia uma pandemia onde milhares de pessoas estão se contaminando juntos sobrecarregando o sistema de saúde. A minha irresponsabilidade só afetou a minha saúde.
Não vamos relaxar a nossa quarentena. Não vamos vacilar achando que não vai acontecer com a gente. E não vamos nos fiar num remédio que ainda não foi testado consistentemente. Pode dar certo com uns e não com outros. Aí é sorte, não é medicina.
Daniel Bicalho, 45 anos, é escritor, músico, empresário dono da Boutique do Livro. É um dos organizadores da Feira Literária Divinopolitano (FLID).












