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Clubes pedem socorro financeiro ao Governo em meio à ameaça às bets

Clubes brasileiros negociam linha de crédito do BNDES diante do risco de perda de receitas com bets
Clubes das Séries A e B negociam uma possível linha de crédito do BNDES para enfrentar dívidas e investir em infraestrutura.

Clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro negociam com o Governo Federal uma possível linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para ajudar no enfrentamento das dívidas e, em alguns casos, permitir investimentos em infraestrutura.

A negociação ocorre em meio à discussão sobre o futuro das empresas de apostas esportivas no Brasil. O Governo Federal avalia medidas para restringir as atividades das chamadas bets, enquanto clubes e entidades do futebol demonstram preocupação com o impacto financeiro de uma eventual redução ou proibição desse mercado.

A CBF participa das conversas como articuladora, e não como financiadora da eventual linha de crédito.

Proposta prevê crédito com juros menores

O formato do possível auxílio ainda não foi definido. Uma das principais propostas discutidas é a criação de uma linha de crédito do BNDES com condições mais favoráveis do que as encontradas normalmente no mercado bancário.

A ideia é que os recursos sejam destinados principalmente ao pagamento de dívidas dos clubes.

A proposta seria diferente de programas de refinanciamento tributário, como os REFIS, porque não ficaria restrita a débitos fiscais.

Também existe a discussão sobre permitir que parte dos recursos seja direcionada para investimentos em infraestrutura. Nesse caso, clubes com menor nível de endividamento também poderiam ser contemplados.

Até o momento, não estão definidos o valor total que poderia ser disponibilizado pelo BNDES nem os critérios que seriam utilizados para aprovação dos empréstimos.

Corinthians e Internacional participam das articulações

As conversas têm sido conduzidas principalmente por Corinthians e Internacional, clubes que atravessam dificuldades financeiras e estão sob transfer bans da Fifa.

Os presidentes Osmar Stabile, do Corinthians, e Alessandro Barcellos, do Internacional, buscaram apoio de Pedro Daniel, atual CEO do Atlético-MG e ex-diretor executivo da consultoria EY.

Um estudo produzido pela consultoria teria ajudado a embasar as discussões com o Ministério do Esporte e a CBF.

As negociações acontecem desde agosto.

Fair Play Financeiro é usado como argumento

Outro ponto utilizado nas conversas é a implementação do Sistema de Sustentabilidade Financeira da CBF, modelo de regras de controle financeiro que passou a ser aplicado em 2026.

O sistema estabelece mecanismos de controle sobre dívidas, gastos com elenco, capacidade de endividamento e equilíbrio operacional dos clubes. A fiscalização é feita pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol.

Os clubes argumentam que o cenário atual é diferente de períodos anteriores em que houve medidas de auxílio ao futebol, já que as equipes passaram a operar sob regras específicas de sustentabilidade financeira.

A CBF também anunciou, em fevereiro, um programa próprio de apoio à reestruturação financeira dos clubes da Série B, condicionado à adoção de práticas de boa gestão e ao cumprimento do Sistema de Sustentabilidade Financeira.

Clubes temem perda de receita com as bets

A discussão sobre a linha de crédito ganhou força paralelamente às incertezas envolvendo o mercado de apostas esportivas.

Clubes e federações manifestaram preocupação com a possibilidade de novas restrições às bets e divulgaram, em 17 de setembro, um manifesto defendendo a manutenção do mercado regulado.

Levantamentos recentes mostram o peso financeiro desse setor no futebol brasileiro. Em agosto, 13 dos 20 clubes da Série A tinham empresas de apostas como patrocinadoras, com contratos que, somados, chegavam a cerca de R$ 1 bilhão.

Outro levantamento publicado em setembro apontou que pelo menos 28 dos 40 clubes das Séries A e B mantinham algum tipo de vínculo comercial com empresas de apostas.

Dados divulgados em reportagem do UOL indicam ainda que as bets representaram cerca de R$ 1,03 bilhão dos R$ 3,069 bilhões arrecadados em patrocínios pelos clubes da Série A em 2025.

Patrocínios podem ser afetados

A preocupação aumentou após empresas do setor comunicarem clubes sobre possíveis revisões de contratos caso novas regras inviabilizem suas operações no país.

Segundo informações divulgadas em 24 de setembro, a Superbet notificou São Paulo e Fluminense sobre a possibilidade de encerramento dos acordos caso haja proibição das apostas. A Esportes da Sorte também teria enviado notificações a clubes patrocinados.

Nesse cenário, os clubes envolvidos nas negociações avaliam que uma eventual queda brusca das receitas provenientes das bets poderia ampliar problemas financeiros já existentes.

Negociação ainda não tem valor definido

Apesar das conversas entre clubes, Governo Federal e CBF, não existe até o momento uma definição sobre a criação da linha de crédito.

Também não foram estabelecidos o valor disponível, as taxas, os critérios para acesso ou quais clubes poderiam ser contemplados.

A expectativa apresentada nas negociações é de que o assunto avance posteriormente ao período eleitoral, cujo segundo turno está marcado para 25 de outubro.

Enquanto isso, os clubes tentam construir uma alternativa de financiamento que permita reorganizar dívidas e, em determinados casos, realizar investimentos em estrutura, especialmente diante da incerteza sobre as receitas provenientes do mercado de apostas esportivas.

Clubes das Séries A e B negociam uma possível linha de crédito do BNDES para enfrentar dívidas e investir em infraestrutura.