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Time do divinopolitano Xavier planeja voos longos e ousados no futebol.

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O Amazonas FC quer dar um chacoalhão no futebol nacional. Fundado em maio de 2019 com uma proposta comercial de representar o maior estado do país, o clube de Manaus tem dois acessos seguidos no currículo e planos ambiciosos para as próximas temporadas. A meta é colocar a região Norte como protagonista no esporte mais popular do Brasil.

Em entrevista, o presidente Wesley Couto deixou claro os planos da Onça Pintada: estabelecer o Amazonas como força nacional, incomodar os clubes hegemônicos do eixo Rio-São Paulo, conquistar vaga nas competições Conmebol em até cinco anos e levantar a taça da Série A do Campeonato Brasileiro dentro de até duas décadas.

“O objetivo do clube é subir e atingir as competições internacionais para consolidar o trabalho. Ninguém consegue isso por muito tempo trabalhando apenas nas divisões inferiores do futebol brasileiro. Em 20 anos, temos que ter uma consolidação intensa na Série A com pelo menos dois títulos”.

Em quase cinco anos de existência, o principal feito foi o título da Série C do Brasileirão do ano passado, o que garantiu a vaga na Série B 2024. No último fim de semana, o Amazonas surpreendeu o Santos com o triunfo por 1 a 0 e conquistou a primeira vitória na Série B após quatro rodadas.

No dia 22 deste mês, o adversário será o Flamengo, na Arena da Amazônia, em confronto decisivo pela terceira fase da Copa do Brasil. Na ida, no Maracanã, os comandados de Tite venceram por 1 a 0 e agora jogam por um empate para avançar de fase.

“Temos a chance de eliminá-los. As chances podem ser remotas, mas são reais. Se eu não acreditar no que estamos fazendo, é melhor não fazer. Eu só não acreditaria nisso caso não tivéssemos chances” – relatou o confiante dirigente do Amazonas.

Foi em 1986, com o Nacional-AM, que o futebol brasileiro viu pela última vez um clube amazonense na elite. De lá para cá, mesmo com equipes tradicionais como Rio Negro, São Raimundo e Fast Clube, o estado passou a ser esquecido.

O “buraco” deixado pelas equipes locais, combinado com o crescimento e consolidação de gigantes da região Sudeste nas competições nacionais e internacionais, fez com que a torcida local voltasse os olhos ao sul do país.

De acordo com dados de 2023 do Instituto de Pesquisa do Norte (Ipen), 79% da população de Manaus torce para oito grandes clubes do eixo Rio-São Paulo, sendo que 47,9% são flamenguistas. Entre os entrevistados, 19,8% alegaram não torcer para nenhum time. Na prática, os clubes amazonenses têm o coração de menos de 1,2% dos manauaras.

Os números ajudam a explicar o porquê da fundação do Amazonas FC em maio de 2019. A ideia de ter um time com a cara e as cores do maior estado do Brasil surgiu em 2017 e, dois anos depois, o clube ganhou vida. Com um investimento milionário, a Onça Pintada não demorou a ganhar força e, em 2022, estava na Série D do Brasileirão.

“Somos uma proposta de mercado. Primeiro, tínhamos de pegar os fãs órfãos do futebol amazonense, que não tinham clube local para torcer. O segundo passo foi buscar as vitrines nacionais, o sonho era disputar campeonatos de elite como a Copa do Brasil e uma Série B ou Série A do Brasileirão. Essa era proposta, por isso não investimos em estrutura e sim no elenco” – falou Wesley Couto.

Importante ressaltar que o Amazonas não é o único clube “novo” do estado. Motivados pela mesma onda de preencher o espaço vazio, equipes como o Manaus FC (2013) e o Manauara EC (2020) foram criadas por empresários.

“O estado do Amazonas tem muito poder de mercado. Há um consumo muito forte de futebol na região. Imaginamos que um estado de 4,5 milhões de habitantes, sendo que 2,5 milhões estão em Manaus, não poderia ficar fora do cenário nacional de futebol. Não podemos ficar atrás de São Luís do Maranhão, Fortaleza e Belém em termos de mercado. Essas cidades não têm o mesmo poder econômico que temos”.

Quem acompanha o noticiário esportivo certamente se deparou com a contratação de algum medalhão pelo Amazonas. No atual elenco, além do auxiliar fixo Ibson, ex-Flamengo e Corinthians, o grupo conta com os experientes e nacionalmente conhecidos Sassá, Jô e Dentinho, que recebem por volta de R$ 80 mil mensais mais bonificação por metas individuais e coletivas.

A primeira movimentação de peso no mercado foi em 2020, quando o clube fechou com Maikon Leite – atacante com passagens marcantes por Palmeiras e Santos. No ano seguinte, o nome da vez foi Ibson, que gostou tanto do clube que ficou por Manaus. Em 2022, quando disputou a Série D do Brasileirão, a aposta foi o polêmico Walter.

Hoje, são 38 jogadores inscritos na CBF para a disputa da Série B deste ano. Entre eles está o divinopolitano Guilherme Xavier que vem sendo titular com o técnico Adilson batista. A média de idade é de 27,6 anos – número considerado alto. De acordo com o presidente Wesley Couto, a estratégia de ter atletas consolidados no grupo possui relação direta com a manutenção da competitividade futura do clube no cenário nacional.

“Temos que ter algumas estratégias fora do futebol. Manaus é uma cidade bem evoluída, não perde em nada para nenhuma outra grande cidade do país. Tem uma carta imobiliária grande, boas moradias, grandes investimentos. Nossos jogadores vivem e moram bem. Isso influencia muito na questão de você trazer um atleta de alto nível, que já morou na Europa, nos Estados Unidos, no Japão”.

A ideia é simples: contratar um medalhão e oferecer as melhores condições de trabalho. Se esse jogador permanecer em Manaus, como tem sido os casos de Sassá e Jô, a diretoria entende que jovens talentos sentirão segurança em apostar no Amazonas.

“Se você tem o Jô aqui, o cara que é mais novo olha e pensa: ‘poxa, o Jô, da seleção brasileira, joga lá e está feliz’. Nós pagamos em dia, temos um projeto de longo prazo, a cidade é ótima e o clube está crescendo. Mas precisamos dessa vitrine para atrair outros talentos espalhados pelo Brasil” – explicou o dirigente.

Na onda de equipes tradicionais como Botafogo, Vasco, Cruzeiro e Atlético-MG, o Amazonas adotou a SAF (Sociedade Anônima do Futebol) como modelo administrativo em 2022.

O clube é gerido por um grupo de empresários (do agronegócio, da construção civil e do comércio) que bate o martelo sobre todas as decisões: formação do elenco, contratação de jogadores, investimentos em patrimônio, custos de logística e posicionamento nos bastidores da CBF.

As cifras movimentadas são mantidas em sigilo, porém a reportagem apurou que mais de R$ 30 milhões foram injetados no time desde a fundação.

Em suas propriedades físicas e digitais, o clube estampa 23 marcas, entre elas o Governo do Estado do Amazonas e a Prefeitura de Manaus. Em 2023, o governo estadual desembolsou mais de R$ 600 mil aos cofres do clube em um projeto que abrange outras equipes masculinas e femininas para o desenvolvimento do futebol amazonense.

Além da ajuda financeira, o poder público dá uma ajuda com os custos da Arena da Amazônia. Na rodada de abertura da Série B, derrota por 3 a 2 para o Sport, o governo não cobrou aluguel e o Amazonas arcou apenas com as despesas operacionais.

Mesmo repleto de patrocinadores, o clube ainda é deficitário. A folha salarial é uma das menores da Série B do Brasileirão – na casa de R$ 1 milhão mensal. Apontado como o favorito ao título e ao acesso, o Santos tem um custo mensal de R$ 11,5 milhões com o elenco comandado por Fábio Carille.

Para alavancar a receita, a Onça tem sua própria marca de roupas.

Recentemente, inaugurou a primeira loja oficial em um movimentado shopping de Manaus em evento que contou com as presenças de Jô, Dentinho e Sassá. O plano de sócio-torcedor está em crescimento e conta com aproximadamente cinco mil adimplentes.

Vaga na Série B do Brasileirão, duas dezenas de patrocinadores e visibilidade nacional. São muitos os fatores que fazem do Amazonas um dos clubes mais interessantes do futebol nacional no momento. Apesar de estar em alta, a Onça precisa percorrer um longo caminho para construir uma estrutura.

A construção de um estádio é praticamente inviável. Além do custo astronômico, Manaus tem a Arena da Amazônia com instalações de Copa do Mundo, gramado em boas condições e capacidade para mais de 45 mil pessoas.

O time profissional tem treinado no Clube da Petrobras – uma área utilizada por funcionários da estatal com dois campos em boas condições – e no Centro de Treinamento do 3B. A diretoria, no entanto, corre contra o tempo para ter seu próprio espaço com academia, piscina e a estrutura necessária para atender o time principal.

O grande vilão do Amazonas é a logística. Ao longo dos mais de sete meses de disputa da Série B, o clube de Manaus viajará mais de 45 mil km pelo Brasil. A título de comparação, o planeta Terra possui uma circunferência aproximada de pouco mais de 40 mil km.

Em linha reta, o trajeto mais longo é o da capital amazonense até Florianópolis, casa do Avaí, adversário da 13ª rodada. Além da distância em si, há a questão da ausência de voos diretos e demais deslocamentos, como dos aeroportos aos hotéis e dos hotéis aos estádios.

Na semana passada, quando enfrentou a Ponte Preta, em Campinas, o Amazonas não conseguiu retornar direto para casa e precisou fazer uma escala em Brasília.

“Quando nos metemos no futebol brasileiro, sabíamos que iríamos trabalhar dentro de um país com dimensão continental. Não é desculpa para nós, mas, claro, é cansativo. Não podemos deixar de avaliar cada viagem, não podemos avaliar rigorosamente os critérios de descanso e de deslocamento. Até por isso, precisamos de um elenco grande” – finalizou Wesley.

A onça caça em silêncio…

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