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“Por Você” demonstra que é possível realizar merchandising social de forma autêntica sem apelar à militância vazia

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Imagem: Globo

Nos últimos anos, a televisão brasileira tem enfrentado uma crescente tendência de inserir temas sociais de forma didática e, muitas vezes, superficial, especialmente nas novelas. Com a popularização das redes sociais e a disseminação de discursos de lacração, muitas produções passaram a priorizar causas em detrimento da narrativa, resultando em uma troca da emoção por discursos panfletários que afastam o público. Nesse cenário, a novela “Por Você”, de Dino Cantelli e Juliana Peres, surge como uma tentativa de reverter essa tendência, apresentando uma abordagem mais equilibrada e sensível de temas relevantes.

A trama, que estreou recentemente, dedica-se a discutir a violência contra professores na escola pública, um problema recorrente nos noticiários brasileiros. A personagem Margô, interpretada com maestria por Regiane Alves, é uma professora agredida por um de seus alunos, uma cena que evidencia a violência e a impotência enfrentadas por profissionais da educação. A atuação de Alves nessa sequência foi marcada por uma entrega emocional que transmitiu vergonha, medo, indignação e impotência, sinalizando que os autores pretendem aprofundar o tema de forma mais realista e menos didática. Ao evitar o discurso panfletário, a novela busca promover uma reflexão mais genuína, conectando o público às questões sociais de maneira mais envolvente e menos didática.

Além de abordar temas sociais de forma mais madura, “Por Você” já demonstrou capacidade de inserir discussões relevantes sem recorrer à militância vazia, como evidenciado na trama que se passa na ala premium da maternidade. Nesse cenário, a novela faz uma crítica bem-humorada ao comércio criado em torno da gravidez, expondo a obsessão por serviços exclusivos e caros, muitos deles considerados desnecessários, utilizados por personagens como a de Alinne Moraes. Essa abordagem revela uma preocupação em mostrar as contradições do mercado de luxo voltado às gestantes, sem perder o tom de humor e de crítica social.

Dino Cantelli e Juliana Peres representam uma nova geração de autores que trazem uma proposta de renovação para a teledramaturgia brasileira. Sua estratégia de inserir merchandising social de forma natural e emocional remete a uma tradição de autores veteranos como Gloria Perez e Manoel Carlos, que sempre souberam utilizar suas novelas para promover debates sociais relevantes. Acredita-se que a melhor maneira de realizar esse tipo de merchandising na televisão é envolver emocionalmente o público, estimulando a reflexão e o diálogo na sociedade, ao invés de discursos vazios ou panfletários.

Ao apostar em temas atuais, abordados com sensibilidade e profundidade, “Por Você” demonstra que é possível fazer uma televisão de qualidade, que promove o debate social sem abrir mão do entretenimento e da narrativa envolvente. Essa postura representa uma tentativa de resgatar a essência da teledramaturgia brasileira, priorizando histórias humanas e reflexões sociais que possam gerar impacto real na audiência.