O aplicativo Letterboxd ganhou espaço entre cinéfilos e passou a fazer parte das conversas sobre a relação dos jovens com o cinema, especialmente durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A plataforma, que permite registrar filmes assistidos, atribuir notas, publicar críticas e acompanhar a atividade de amigos, também se tornou assunto em entrevistas com celebridades internacionais que mencionam o serviço ao falar sobre seus hábitos de consumo de cinema.
Nas filas da Mostra, o aplicativo apareceu associado a um comentário recorrente sobre a geração Z: a possibilidade de que parte dos jovens esteja assistindo a filmes também com o objetivo de registrar as sessões no Letterboxd. A ideia alimenta um debate sobre até que ponto o uso da plataforma representa interesse genuíno pelo cinema ou uma forma de performance relacionada à identidade de seus usuários.
Para Isis, advogada, o contato com comunidades de cinema nas redes sociais pode levar novos públicos ao aplicativo. Segundo ela, pessoas que descobrem discussões sobre filmes no TikTok podem acabar conhecendo o Letterboxd e, a partir daí, ampliar o repertório cinematográfico.
“Às vezes a pessoa tá ali no TikTok e acaba vendo que existe essa comunidade, e aí ela acaba entrando pelo Letterboxd. Comecei também a conhecer mais filmes, filmes internacionais, filmes mais antigos”, afirmou.
Luísa, estudante de cinema, reconhece que há usuários que utilizam a plataforma de maneira performática, mas afirma que esse comportamento não representa todos os participantes. Para ela, existe uma parcela significativa de pessoas interessadas de fato em assistir e conhecer filmes, independentemente do registro feito no aplicativo.
“Por mais que existam os performáticos, ainda tem muita gente que gosta de verdade, que não está só pelo Letterboxd”, disse.
Eduardo, orientador de público, também vê uma relação entre o uso da plataforma e a curiosidade por novos títulos. Na avaliação dele, mesmo quando existe algum componente de exibição ou performance, o usuário pode se beneficiar da experiência e aproveitar o contato com as obras.
“Também tem um fundinho de curiosidade de querer ver os filmes e tal. Você pode estar performando ali, mas você tá aproveitando também”, afirmou.
Plataforma registra crescimento e milhões de filmes assistidos
O crescimento do Letterboxd ajuda a explicar sua presença cada vez maior entre os cinéfilos. Um relatório anual da empresa apontou que o número de usuários passou de 1,7 milhão, em 2020, para 26 milhões. Em 2024, os usuários registraram 701 milhões de filmes na plataforma ao longo do ano.
O hábito de catalogar filmes, porém, também é alvo de críticas. Ally, estilista, afirmou que o aplicativo pode fazer com que algumas pessoas dediquem mais tempo à pesquisa sobre as obras do que à própria sessão de cinema. Para ela, a busca por informações, trailers e outros conteúdos relacionados pode acabar ocupando espaço que seria destinado a assistir aos filmes.
“No final você acaba passando mais tempo lendo sobre os filmes e vendo trailer do que de fato vendo filmes”, afirmou.
Rita Couto, aposentada, relacionou o funcionamento atual da plataforma a formas mais antigas de buscar informações e recomendações cinematográficas. Ela contou que acompanha o cinema desde o século passado, quando o público recorria a uma publicação impressa que reunia sinopses e dados sobre diretores.
“Eu venho desde o século passado. Havia uma revistinha física, então você tinha a sinopse, tinha o diretor”, disse.
Segundo Rita, as indicações também vinham de professores, organizadores de eventos e críticos de cinema. Entre as referências citadas por ela está Leon Cakoff, ligado à organização da Mostra, além de profissionais que recomendavam diretores e obras ao público.
Luísa afirmou que ainda acompanha críticos para encontrar referências e listas de filmes. Ela citou Felipe Furtado e Diego Quaglia, conhecido por sua atuação no Twitter, como nomes que podem ajudar espectadores a descobrir produções e montar seus próprios caminhos de pesquisa.
“Acompanhe, por exemplo, os críticos: Felipe Furtado, tem o Diego Quaglia do Twitter, enfim. E veja listas pra você ir atrás dos filmes”, disse.
Para Franchesco, estudante, o possível caráter performático do Letterboxd não elimina seu efeito positivo. Ele considera que a plataforma pode estimular as pessoas a assistir a mais filmes e a procurar títulos que talvez não conhecessem de outra maneira.
“Mas no fim as pessoas estão vendo muito mais filme por causa disso. De algum jeito, se isso faz as pessoas se interessarem por cinema e por descobrirem coisas novas, eu acho que tá valendo”, afirmou.
Luísa defendeu que a discussão não seja transformada em preconceito contra novos públicos. Para ela, a expansão das formas de acesso e conversa sobre cinema contribui para manter o interesse pelas produções e pela própria cultura cinematográfica.
“Eu diria pra não ter preconceito, porque o cinema vive, a paixão pelo cinema vive”, afirmou.












