É provável que o Kwid seja o primeiro modelo a se adequar ao
programa de incentivo. Hoje todas as versões do compacto são
equipadas com direção com assistência elétrica e ar-condicionado,
mas nem sempre foi assim.
No lançamento do carro, em junho de 2017, a opção Life não
trazia esses itens. Na época, o preço começava em R$ 30 mil – valor
que, corrigido com base no IPCA, equivale a aproximadamente R$ 41
mil hoje.
A inflação do setor automotivo, contudo, atingiu patamares mais
altos nos últimos anos. Além de os automóveis terem evoluído para
atender a normas mais severas de segurança e controle de emissões,
a crise econômica e a pandemia fizeram as empresas apostar em
veículos mais rentáveis. Neste cenário, compactos de maior volume
de vendas, mas pouco lucrativos, foram deixados de lado.
O efeito colateral da estratégia é a ociosidade das linhas de
montagem. O parque fabril tem capacidade para produzir cerca de 4,5
milhões de carros por ano. Foram fabricadas 2,37 milhões de
unidades em 2022, número que inclui carros de passeio, veículos
comerciais leves, ônibus e caminhões.
Para as marcas que não oferecem modelos de baixo custo e nem
pretendem simplificar seus carros, a expectativa é convencer o
governo de que o mais importante é criar formas de reduzir os
preços dos automóveis já existentes, mexendo na tributação e
retirando o mínimo possível de equipamentos.
“O carro depenado, sem conteúdo, não vai de encontro ao que o
brasileiro quer”, afirma à Folha Santiago Chamorro, presidente da
GM América do Sul. A montadora reposicionou seus produtos nos
últimos anos, incluindo mais itens de tecnologia e segurança até no
compacto Onix (a partir de R$ 84,4 mil).
“Na nossa opinião, ao contrário de fazer investimentos para
criar um veículo popular com condições que o cliente não quer,
devemos dar para esse consumidor a possibilidade de, dentro do
portfólio existente, ter um veículo com melhores condições de
acesso.”
Essa ideia deverá constar no plano do governo, que não vai se
limitar a modelos de entrada. Dessa forma, haverá redução de preços
e financiamento de longo prazo, mas sem a obrigação de atingir um
valor abaixo de R$ 60 mil para se ter acesso a benefícios
tributários.
Nesse caso, um dos critérios usados poderá ser a eficiência
energética, que vai beneficiar modelos menos poluentes.
Um dos sinais desse processo é a exclusão da expressão “carro
popular” das declarações públicas de representantes do governo e
das montadoras.
Outro sinal: a Volkswagen adiou a implementação do sistema
de layoff (suspensão temporária dos contratos de
trabalho) para 800 funcionários na fábrica de Taubaté (interior de
São Paulo), antes prevista para começar em junho.
Essa unidade produz o Polo Track (R$ 81.370), modelo que
substituiu o Gol como carro de entrada da marca alemã no Brasil.
Com a desistência, o veículo continuará sendo produzido em dois
turnos, o que indica vontade de aumentar o estoque.
Contudo um dos pontos defendidos pelo governo no início das
negociações deve ser alterado: a vinculação de benefícios a carros
movidos 100% a etanol.
Além de se preocupar com a aceitação do mercado, as montadoras
afirmam que os carros flex já podem rodar apenas com álcool.
Qualquer outra mudança exigiria novos investimentos, que não estão
nos planos das empresas.
Parte do que foi gasto nos últimos anos com a evolução dos
modelos ainda está sendo amortizada no País, e as fabricantes não
pretendem dedicar um ciclo exclusivo de aportes para produzir
carros considerados menos rentáveis. Por serem multinacionais, as
empresas do setor estão focadas no processo global de
eletrificação.
Mas é possível que o pacote a ser apresentado pelo governo
inclua estímulos à produção local de carros híbridos e elétricos,
algo que interessa às montadoras.
Em abril, a Toyota anunciou um investimento de R$ 1,7 bilhão
para produzir um novo SUV compacto no Brasil, que será movido a
gasolina, etanol e eletricidade.
Todo esse pacote, entretanto, esbarra no problema da renda média
do brasileiro, que foi ainda mais achatada devido à junção de crise
econômica com pandemia. A tempestade perfeita é complementada pelo
patamar atual da taxa básica de juros e por um persistente aumento
da inadimplência.
Segundo a Associação Nacional das Empresas Financeiras das
Montadoras (Anef), os atrasos de pagamentos com mais de 90 dias
chegaram a 5,9%, dos contratos, o que representa um aumento de 1,5%
em relação a 2021.
Esse é o desafio do setor financeiro: oferecer taxas atraentes
para pessoas físicas sem que isso implique em riscos de crédito.
Umas das ideias para contornar o problema é a utilização do FGTS
como garantia.
Dessa forma, o dinheiro não seria usado efetivamente para a
compra do carro, mas poderia ser acessado pelos bancos em caso de
inadimplência. O tema segue em discussão, e não se sabe se fará
parte do pacote de incentivos.
Todas as medidas buscam estimular as vendas no varejo, mas é
provável que os carros mais simples acabem em frotas de aluguel de
carros. Esses modelos seriam demandados, por exemplo, pelos
motoristas de aplicativo que aderem aos programas de assinatura de
longo prazo.
Foram emplacadas 160,7 mil unidades no último mês, e as
locadoras foram os principais clientes. As empresas do setor
compraram 47 mil veículos em maio.
As informações são do Diário do Comércio.
Foto: Reprodução/Renault.