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Tarantino estreia em São Paulo em 1992 com sessão esvaziada, feijoada e uma história de helicóptero inexistente

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Em outubro de 1992, Quentin Tarantino chegou ao Brasil para participar da 16ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo ainda como um cineasta desconhecido do grande público. Aos 29 anos, ele apresentou seu primeiro longa-metragem, “Cães de Aluguel”, em uma visita que começou com uma sessão para apenas 16 pessoas, mas terminou com o reconhecimento da crítica e uma das histórias mais curiosas da trajetória do festival.

Atualmente, qualquer aparição de Tarantino costuma provocar grande movimentação e longas filas. Naquele momento, porém, o diretor circulava pela avenida Paulista sem ser reconhecido. Dois anos antes do lançamento de “Pulp Fiction”, filme que o transformaria em um dos nomes mais conhecidos do cinema mundial, o cineasta ainda era identificado principalmente como um jovem apaixonado por filmes e ex-balconista de locadora.

A presença de Tarantino na Mostra ocorreu a convite de Leon Cakoff, fundador do evento, conhecido por seu olhar atento para novos realizadores. Renata de Almeida, atual diretora da Mostra, também participou da recepção ao cineasta durante a passagem pelo Brasil. O festival se tornou, assim, um dos primeiros espaços a apresentar ao público brasileiro o diretor que mais tarde alcançaria projeção internacional.

Primeira sessão reuniu 16 pessoas

A recepção inicial a “Cães de Aluguel” foi discreta. Na primeira exibição do filme, realizada no Museu de Arte de São Paulo, o público era formado por apenas 16 pessoas, incluindo o próprio Tarantino. O número contrastava com a dimensão que o diretor alcançaria nos anos seguintes e se tornou um dos episódios mais lembrados de sua participação na Mostra.

A reação, no entanto, mudou rapidamente. O comentário entre os espectadores fez com que o interesse pelo filme crescesse dentro do festival. As sessões seguintes ficaram lotadas, e Tarantino recebeu o Prêmio da Crítica daquela edição. O reconhecimento mostrou que, embora ainda não fosse conhecido, seu trabalho havia causado impacto entre os frequentadores e os profissionais ligados à Mostra.

Sem o assédio que acompanharia sua carreira depois de “Pulp Fiction”, o diretor aproveitou a programação de maneira informal. Misturado ao público, chegou a assistir a quatro filmes por dia. A experiência também incluiu a descoberta da vida noturna paulistana, além do contato com a feijoada e a caipirinha, lembranças que ele passou a mencionar com entusiasmo ao recordar a visita ao Brasil e a relação com Leon Cakoff.

Entrevista gerou referência a uma cena que não existia

A falta de familiaridade do público e da imprensa com “Cães de Aluguel” também produziu uma anedota durante a agenda de entrevistas. O jornalista Hamilton Rosa Júnior foi encarregado de conversar com Tarantino sem ter assistido ao filme. Diante da situação, fez perguntas genéricas para conduzir a entrevista.

Tarantino percebeu que o repórter não conhecia a obra e decidiu brincar com a situação. Com naturalidade, perguntou o que ele havia achado da “grande cena de perseguição de helicópteros”. Para não revelar que ainda não tinha visto o longa, o jornalista elogiou a suposta sequência e chegou a mencioná-la em sua matéria.

A descoberta veio no dia seguinte, quando Hamilton Rosa Júnior finalmente assistiu ao filme no cinema. Tarantino estava sentado na fileira de trás. A trama de “Cães de Aluguel” se passava quase inteiramente dentro de um galpão fechado e não apresentava nenhuma cena de helicóptero.

Mais de três décadas depois, a visita de 1992 permanece como um dos episódios mais representativos da história da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O caso resume a capacidade do festival de identificar e apresentar novos talentos antes que eles se tornem conhecidos mundialmente — naquele momento, Tarantino ainda cabia em uma sala com 16 espectadores.