Um novo livro intitulado “Bons Tempos” (originalmente “Yesteryear”) e lançado recentemente no Brasil pela editora Rocco tem gerado discussões acaloradas entre leitores e críticos, devido à sua abordagem sobre a vida das mulheres que defendem papéis tradicionais dentro do contexto familiar e social. A obra, de estreia da autora Caro Claire Burke, apresenta uma narrativa que transporta uma influenciadora conservadora do século 21 para o século 19, explorando as contradições e percepções relacionadas às chamadas tradwives, mulheres que promovem e defendem um estilo de vida voltado ao papel tradicional na família.
O enredo acompanha Natalie Heller Mills, uma influenciadora altamente religiosa que construiu sua imagem de perfeição na vida doméstica nas redes sociais. Casada, mãe de cinco filhos e grávida do sexto, ela vive em uma fazenda chamada Bons Tempos, onde produz alimentos e educa as crianças em casa. Contudo, essa imagem de vida ideal é uma fachada cuidadosamente construída, já que as atividades cotidianas são sustentadas por babás, funcionários e uma estrutura que ela não realiza na prática, apesar de divulgar uma versão idealizada na internet.
A narrativa se complica quando Natalie é misteriosamente transportada para o século 19, período que ela costuma romantizar em seus conteúdos. Deslocada de sua rotina de apoio de funcionários e da produção de alimentos, ela precisa experimentar na prática as condições de vida que costuma exaltar. A história, narrada pela própria personagem, alterna entre o passado e os acontecimentos que levaram à sua persona digital, levando a questionamentos sobre a natureza de sua experiência: se ela estaria participando de um reality show, sendo submetida a um teste divino ou envolvida em algo mais sinistro.
Um dos aspectos centrais do livro é o uso do recurso da viagem no tempo, que serve para questionar a idealização da vida tradicional e abordar temas como a cultura das influenciadoras digitais, a economia dos criadores de conteúdo, a figura das tradwives, além de temas relacionados à maternidade, casamento, religião e feminismo. A obra também discute a contradição presente na figura da tradwife: mulheres que defendem a crítica aos papéis profissionais femininos, mas que transformam sua rotina doméstica em uma carreira lucrativa nas redes sociais. Essa temática remete à influência de figuras como Hannah Neeleman, conhecida pelo perfil Ballerina Farm, que possui mais de 10 milhões de seguidores e vive em uma fazenda nos Estados Unidos.
A recepção do livro tem sido mista, com opiniões que variam entre elogios à sua sátira inteligente da cultura digital e críticas à superficialidade com que aborda temas políticos e sociais. Alguns leitores apontam que a obra poderia aprofundar mais a discussão sobre as tradwives, que muitas vezes é reduzida a uma narrativa de infelicidade feminina, o que gerou debates mais acalorados do que consensos. Apesar das controvérsias, “Bons Tempos” conquistou destaque internacional, permanecendo por semanas na lista de mais vendidos do The New York Times e alcançando o topo entre os livros de ficção do Sunday Times, no Reino Unido.
No Brasil, a obra também despertou interesse, tendo vendas antecipadas marcadas para o fim de agosto. Sua repercussão se estendeu às redes sociais, especialmente nas comunidades do BookTok e do Bookstagram, onde foi um dos assuntos mais comentados em junho, provocando discussões entre leitores e influenciadores. Além disso, a atriz Anne Hathaway foi escalada para interpretar a personagem principal na adaptação cinematográfica do livro, cuja produção está sob responsabilidade da Amazon MGM Studios, embora ainda não haja previsão de estreia.












