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Competições de canto ameaçam a biodiversidade de pássaros no Sudeste Asiático

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Cientistas expressam preocupação com a diminuição do canto dos pássaros, um dos sons mais emblemáticos das florestas, especialmente na Indonésia. Anualmente, milhões de aves silvestres são capturadas para atender a um mercado bilionário de animais de estimação e competições de canto. Esse que, para muitos, é um hobby tradicional, se tornou uma das maiores ameaças à biodiversidade na região, colocando diversas espécies em risco de extinção e comprometendo funções essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas florestais.

As competições de canto têm uma longa tradição na cultura indonésia, atraindo centenas de criadores em cidades como Sukabumi, onde semanalmente os pássaros são avaliados por juízes em critérios como potência vocal, repertório, afinação e presença de palco. Durante os eventos, aves como beija-flores-de-jardim, bulbuls-de-faces-cinzentas, rouxinóis-orientais e tordos-de-cabeça-laranja se apresentam em exibições que duram cerca de dez minutos. Contudo, os shamas-de-rabadilha-branca se destacam como as estrelas do espetáculo, atraindo a atenção do público para suas complexas melodias.

Os prêmios para os vencedores incluem motocicletas, carros e quantias que podem chegar a valores equivalentes a até dez anos de salário. O prestígio que acompanha esses triunfos aumenta significativamente o valor comercial das aves. Benjamin Mirin, biólogo acústico da Universidade Cornell, comentou sobre a popularidade e a lucratividade desses eventos, afirmando que eles estão contribuindo para um aumento alarmante na caça ilegal de pássaros, resultando em florestas cada vez mais silenciosas.

A demanda por aves silvestres é alimentada pela crença de que pássaros capturados na natureza têm um repertório vocal superior ao de suas contrapartes criadas em cativeiro, o que perpetua a extração de novos indivíduos das florestas. Embora o comércio ilegal de aves também ocorra em países como Vietnã, Tailândia, Malásia e Singapura, a Indonésia é considerada um dos maiores mercados do mundo para aves canoras. Chris Shepherd, especialista em comércio de vida selvagem do Centro para a Diversidade Biológica, descreve a situação como alarmante, dado que o país abriga cerca de 1.800 espécies de aves, mais do que o dobro do que é encontrado nos Estados Unidos.

Entretanto, uma em cada cinco espécies de aves já foi encontrada à venda em mercados, incluindo espécies protegidas e ameaçadas de extinção, como o mainá-de-asas-pretas e a pega-verde-de-java. Com populações que não ultrapassam 250 e 100 indivíduos, respectivamente, essas aves estão entre as mais ameaçadas. A pressão sobre as populações naturais é imensa, com estimativas indicando que aproximadamente 30% da população da Indonésia, cerca de 90 milhões de pessoas, possui entre 164 milhões e 187 milhões de pássaros canoros capturados na natureza, sendo que entre 66 e 84 milhões estão na ilha de Java.

A perda de biodiversidade traz consequências graves. Agung Nur Haq, responsável pela conservação do Centro de Resgate e Reabilitação de Pássaros Canoros Wak Gatak, afirma que a “floresta silenciosa” já é uma realidade. Espécies como o mainá-de-asas-pretas e a pega-verde-de-java estão em risco crítico, enquanto outras aves desapareceram de regiões onde eram abundantes. A extinção dessas aves vai além da perda de diversidade, uma vez que elas desempenham papéis ecológicos cruciais, como a dispersão de sementes e o controle de populações de insetos.

Alexander Lees, biólogo da conservação da Universidade Metropolitana de Manchester, alerta para o fenômeno conhecido como “síndrome da floresta vazia”, onde ambientes aparentemente preservados carecem de fauna, resultando em desequilíbrios ecológicos. Ele cita o exemplo da ilha de Guam, onde a introdução de uma cobra invasora levou ao desaparecimento da maioria das aves nativas, causando mudanças drásticas no ecossistema.

Em resposta a essa crise, parte das aves apreendidas pelas autoridades é levada ao Centro Wak Gatak, inaugurado em 2022 pela organização Planet Indonesia, onde veterinários tentam reabilitar os animais que chegam em condições precárias. O veterinário Happy Ferdiansyah relata que entre 70% e 80% das aves morrem nas duas primeiras semanas após a apreensão, devido ao estado crítico em que chegam. Desde sua abertura, o centro recebeu quase 3 mil aves de 45 espécies, reintroduzindo centenas delas na natureza. No entanto, especialistas reconhecem que essa ação é apenas uma resposta limitada a um problema muito maior.

Para combater o tráfico de aves, os especialistas argumentam que é necessário não apenas aumentar a fiscalização, mas também mudar a percepção pública em relação às aves silvestres. Iniciativas educativas, ações em comunidades próximas a áreas de captura e esforços para desencorajar competições de canto estão sendo implementadas na Indonésia. Contudo, o desafio é significativo, uma vez que grupos de criadores exercem forte influência política e autoridades locais frequentemente participam dos torneios.