‘A poliomelite devastou minha vida’ – Leia relato de quem sofre com a doença

Postado em 31/08/2018 14:59

Reportagem de TATIANA LAGÔA E MICHELYNE KUBITSCHEK para o Jornal “O tempo”

 

Era 1964, tempo de escassez de vacinas e surto de paralisia infantil (poliomielite) no Brasil, quando a família do gerente de operações Milton Crepali, 55, percorreu 350 km no interior de São Paulo em busca de imunização para ele e a irmã Fátima, na época com 1 e 2 anos, respectivamente. Como não conseguiram a dose, acabaram perdendo a guerra e ficaram doentes. Ele teve sequelas permanentes na perna. Ela morreu sete anos depois por complicações da paralisia.

“A poliomelite devastou minha vida, levou minha irmã e arrasou minha família”, lamenta Crepali. Ele conta que a infância com a doença foi difícil e o forçou a aprender a conviver com o bullying. “Para as brincadeiras, sempre fui o último escolhido. Eu desistia, ia embora para casa”, lembra. Para a irmã do gerente, os reflexos foram mais graves. “Ela nunca mais fez nada sozinha. Não falava, não andava, não brincava, não vivia”, conta.

É para impedir que essa doença volte a fazer vítimas e a deixar marcas incuráveis nas vidas de brasileiros que o Ministério da Saúde fará neste sábado (1) o Dia D de vacinação contra a paralisia infantil e sarampo. A procura pela imunização está muito baixa. O apelo é para que todas as crianças de 1 ano a 4 anos, 11 meses e 29 dias sejam levadas aos postos de saúde. “É inaceitável se pensar que pais achem desculpas para não vacinar os filhos. Levem as crianças para vacinar, é muito simples, vai salvar a vida delas e de toda a família”, disse Crepali.

O sarampo, que pode levar à cegueira e à morte, já foi reintroduzido no Brasil. Só neste ano, foram confirmados 1.553 brasileiros doentes. Sete pessoas morreram. Em Minas, 42 casos estão em investigação.

Preconceito. Para alguns, a paralisia infantil não levou à morte de entes queridos, mas tirou oportunidades. “A gente se torna deficiente em um mundo preconceituoso. Entrar no mercado de trabalho é mais difícil”, afirma a professora aposentada Mirian da Silva Cachoeira, 60. Ela adoeceu quando tinha apenas 1 ano e, por isso, teve que andar a vida toda com apoio de aparelho ortopédico.

A assistente social Rita Ruggio, 42, também teve a doença no primeiro ano de vida. Por isso, ela teve que ficar internada até os 2 anos. Como consequência, ela, que já dava os primeiros passos, regrediu e só conseguiu andar sozinha com 5 anos. “Tive que me acostumar a andar sozinha. É como se eu fosse um passarinho que nasceu com a asa quebrada. Eu nunca soube o que é voar. Por isso não sinto que perdi algo”, diz.

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