A extinção das Câmaras Municipais provocou reação entre os vereadores de Divinópolis após declarações do ex-prefeito Gleidson Azevedo, deputado federal eleito pelo Republicanos. Durante manifestações na Câmara Municipal, parlamentares criticaram a proposta e defenderam a importância do Poder Legislativo para a democracia, a fiscalização do Executivo e a representação da população.
A repercussão começou após uma entrevista concedida por Gleidson à Rádio Itatiaia, na quinta-feira (29 de outubro). Na ocasião, o ex-prefeito defendeu o fim das emendas parlamentares e a extinção dos Legislativos municipais em todo o Brasil. Além disso, questionou a efetividade do trabalho dos vereadores e os recursos destinados à manutenção das Câmaras.
O que Gleidson Azevedo disse sobre o fim das Câmaras Municipais?
Na entrevista, Gleidson apresentou a redução dos gastos públicos como justificativa para suas propostas. Segundo ele, a destinação e a execução das verbas deveriam ficar sob responsabilidade exclusiva do Poder Executivo, incluindo prefeitos, governadores e o presidente da República.
O deputado federal eleito também afirmou que pretende levar ao Congresso Nacional a proposta de extinção das Câmaras Municipais. Para justificar a ideia, mencionou o duodécimo, mecanismo que garante os recursos necessários ao funcionamento dos Legislativos municipais. Em sua argumentação, as despesas não apresentariam retorno proporcional à população.
Em Divinópolis, o percentual de 6% do orçamento municipal foi mencionado no debate sobre o repasse destinado à Câmara. Entretanto, a discussão ganhou outra dimensão quando Gleidson questionou publicamente a atuação dos vereadores, especialmente no exercício da fiscalização do Executivo.
A declaração atingiu diretamente os parlamentares de Divinópolis, cidade onde Gleidson iniciou sua trajetória política como prefeito. A situação também ganhou repercussão estadual, com manifestações de entidades representativas do Legislativo municipal.
Confira a entrevista de Gleidson Azevedo à Rádio Itatiaia sobre a extinção das Câmaras Municipais.
Como os vereadores de Divinópolis reagiram às declarações?
O vereador Ney Burguer, líder de governo, demonstrou tristeza com as declarações do ex-prefeito. Segundo ele, a fala atingiu todos os integrantes do Legislativo, inclusive aqueles que mantiveram uma relação próxima com Gleidson durante sua trajetória política.
Durante sua manifestação, Ney comparou a generalização contra os vereadores a afirmar que todos os policiais são corruptos quando se critica a atuação de parte da corporação. Para o parlamentar, questionar a existência das Câmaras e classificar seus projetos como inúteis desconsidera o trabalho realizado individualmente pelos representantes eleitos.
O vereador também destacou a trajetória política dos irmãos de Gleidson. Ele lembrou que Cleitinho iniciou sua carreira como vereador em Divinópolis, antes de seguir para a Assembleia Legislativa, o Senado e a disputa pelo Governo de Minas Gerais. Além disso, citou Eduardo Azevedo, que também começou no Legislativo municipal.
Ao demonstrar sua decepção, Ney utilizou uma expressão que resumiu seu sentimento: “A gente nunca deve quebrar o copo que a gente bebe água, porque vai dar sede outra vez.” A declaração recebeu aplausos dos vereadores presentes.
“A gente nunca deve quebrar o copo que a gente bebe água, porque vai dar sede outra vez.”
Por que a fiscalização e a democracia dependem do Legislativo?
A vereadora Keel Silva que também atua como professora avaliou a declaração como preocupante. Ela lembrou que a extinção das Câmaras poderia representar o início de um enfraquecimento institucional, com consequências para os demais poderes. Na avaliação dela, a concentração das decisões no Executivo ameaça o equilíbrio democrático.
A parlamentar mencionou a importância da Constituição Federal de 1988, que estabeleceu a organização dos poderes e fortaleceu as instituições democráticas brasileiras. Além disso, destacou que as Câmaras Municipais não existem apenas para fiscalizar prefeituras, mas também para elaborar leis que transformam a realidade da população.
Como exemplo concreto, a vereadora citou uma lei de sua autoria que determina a separação dos leitos hospitalares destinados às mães que tiveram filhos vivos daqueles destinados às mulheres que perderam seus bebês. A medida busca preservar a saúde mental das mães e das famílias em um momento de grande fragilidade emocional.
Segundo ela, a iniciativa demonstra como a atuação legislativa pode alcançar situações que muitas vezes passam despercebidas pela administração pública. A parlamentar ressaltou que ouvir a população e identificar necessidades específicas também faz parte da função de um vereador.
O que Rodyson destacou sobre a Constituição de 1988?
O vereador Rodyson também fez uma defesa do Poder Legislativo e relacionou a importância das Câmaras Municipais à história democrática brasileira. Ele lembrou que a Constituição Federal de 1988 consolidou a organização institucional do país e estabeleceu mecanismos fundamentais para garantir a liberdade de expressão, a participação popular e o equilíbrio entre os poderes.
Na avaliação do parlamentar, o Legislativo exerce funções indispensáveis nas esferas municipal, estadual e federal. Entre elas estão a fiscalização dos recursos públicos, a votação dos orçamentos e a aprovação de projetos apresentados tanto pelos próprios parlamentares quanto pelo Executivo.
Rodyson também ressaltou que os vereadores representam a população e contribuem para a criação de leis que orientam a atuação do Judiciário e a organização da sociedade. Para ele, enfraquecer o Legislativo significa colocar em risco conquistas democráticas construídas ao longo da história brasileira.
O vereador classificou a declaração de Gleidson como infeliz e demonstrou tristeza pelo posicionamento de alguém que construiu parte de sua trajetória política no próprio Legislativo municipal. Ele também lembrou que Cleitinho e Eduardo Azevedo iniciaram suas carreiras como vereadores em Divinópolis.
Ao final, Rodyson destacou que a democracia permite à população escolher seus representantes pelo voto. Portanto, na avaliação dele, a solução para eventuais problemas de desempenho ou fiscalização não está na extinção das instituições, mas no fortalecimento dos mecanismos de controle e participação popular.
Flávio Marra acredita que Gleidson ainda precisa conhecer o papel do vereador?
O vereador Flávio Marra também comentou a repercussão e reconheceu a importância da administração de Gleidson Azevedo à frente da Prefeitura de Divinópolis. Ele afirmou que o ex-prefeito deixou marcas de trabalho em diferentes bairros da cidade e é reconhecido por muitos como um dos principais gestores da história do município.
Entretanto, Flávio Marra apresentou uma interpretação diferente para a declaração. Segundo ele, Gleidson iniciou sua trajetória política diretamente no Executivo, assumindo a Prefeitura como primeira experiência em um cargo eletivo. Por isso, acredita que o ex-prefeito ainda não compreendeu integralmente a importância das atribuições do Legislativo municipal.
O parlamentar avaliou que a experiência de Gleidson no Congresso Nacional poderá ampliar sua compreensão sobre as funções legislativas. Afinal, deputados federais também precisam legislar, fiscalizar e representar a população, responsabilidades semelhantes às exercidas pelos vereadores nos municípios.
Flávio Marra ainda ponderou que Cleitinho e Eduardo Azevedo, por terem iniciado suas trajetórias como vereadores, conhecem a importância dessa função. Para ele, o Legislativo municipal possui três atribuições fundamentais: legislar, fiscalizar e representar os cidadãos.
Gleidson pediu desculpas após a repercussão?
Depois da repercussão negativa, Gleidson Azevedo publicou um vídeo nas redes sociais, no qual reconheceu que sua manifestação durante a entrevista à Rádio Itatiaia foi inadequada. Na ocasião, o ex-prefeito não apenas pediu desculpas, como também admitiu que não conseguiu expressar corretamente o que pretendia dizer.
“Eu me expressei muito mal na entrevista da Itatiaia”, declarou o deputado federal eleito. Além disso, a manifestação ocorreu após a Associação das Câmaras Municipais de Minas Gerais (ACAM) divulgar uma nota de repúdio às declarações. Dessa forma, a repercussão ultrapassou os limites de Divinópolis e ganhou dimensão estadual.
Em sua manifestação, a entidade classificou a proposta como um retrocesso institucional. Além disso, alertou para os riscos à autonomia dos municípios, à representação popular e ao equilíbrio entre os poderes. Consequentemente, o posicionamento também mobilizou vereadores e representantes do Legislativo em diferentes regiões de Minas Gerais.
Entretanto, mesmo após o pedido público de desculpas, as manifestações dos vereadores de Divinópolis demonstraram que o episódio deixou marcas na relação política entre o ex-prefeito e integrantes da Câmara Municipal. Nesse sentido, o debate trouxe novamente ao centro da discussão as atribuições dos representantes eleitos, sobretudo a importância da fiscalização dos atos do Executivo.
Diante desse cenário, o próximo passo será acompanhar como Gleidson Azevedo pretende conduzir essa discussão no Congresso Nacional e, consequentemente, como os representantes municipais responderão às propostas. Em Divinópolis, os vereadores reforçaram que a melhoria do serviço público depende da cobrança, da fiscalização e, principalmente, do fortalecimento das instituições democráticas.















