
Segundo Bruno Colaço, os epicentros estão mais próximos do bairro Candidés, o mais afetado com intensidades até IV ou V na escala Mercalli Modificada, (correspondendo a barulho de portas e janelas, por exemplo), sem danos comprovados. Sismos de magnitude 3 podem ser sentidos até 10 km de distância e mais raramente até 20 km. “Pequenos tremores em Minas Gerais são mais frequentes do que a média brasileira, Sismos de magnitude 3,0 são bastante comuns no Brasil e em Minas Gerais. O estado já presenciou sismos de magnitudes bem maiores, como os de São Francisco de 1931 e o de Itacarambi de 2007, no norte do estado, ambos com magnitudes 4,9 e intensidades máximas de VI e VII. Os tremores podem ocorrer com padrões diferentes. Boa parte dos tremores ocorrem de maneira isolada com um único tremor principal, seguido às vezes por uma série de réplicas menores. E outros casos os tremores ocorrem na forma de um “enxame” de sismos (ou “surtos”) que podem demorar vários dias, semanas e, mais raramente, até vários meses. Em Minas Gerais o melhor exemplo de surtos de sismicidade ocorreu na cidade de Bom Sucesso: primeiro durante vários meses em 1901, depois em 1903, em 1919-1920, em 1935-1936, e em 1939-1940″, frisou.
Último sismo registrado em Divinópolis antes dos sismos desse ano de 2022:
“Em Divinópolis, o último sismo de que temos registro foi em 11-Julho-1990 com magnitude 2.8, também sem nenhum dano relatado. Como não há como prever a evolução da atividade sísmica, não dá pra saber se os tremores continuarão ocorrendo nos próximos dias”, finalizou.
Veja depoimento de Bruno Colaço e abaixo o relatório completo dos abalos sísmicos em Divinópolis do dia 10 ao dia 19 de Janeiro:
Relatório Completo sendo 29 tremores de terra em Divinópolis no período de 10 a 19 de Janeiro:
Entre 10 e 19 de Janeiro (até 17h), 29 tremores de terra em Divinópolis foram localizados pelas estações da Rede Sismográfica Brasileira e da Rede Sismográfica da VALE no Quadrilátero Ferrífero. As magnitudes variam entre 3,0 (o maior do primeiro dia, 10/Jan) a 1,6. Os epicentros estão próximos do Bairro Candidés, na parte NE da cidade onde o tremor foi mais sentido. As máximas intensidades foram IV a V na escala Mercalli Modificada (correspondendo a barulho de portas e janelas, e queda de alguns objetos, por exemplo), sem danos comprovados. Mais de 500 relatos da população foram enviados ao Centro de Sismologia da USP, o que permitiu melhor estimar a localização do epicentro.
Esses tremores ocorreram numa região de Minas Gerais, em torno de Belo Horizonte, com um longo histórico de sismos no passado. Não há razão para acreditar que não se trate de atividade sísmica natural, sem relação com atividade exploratório de pedreiras, ou com enchimento rápido do reservatório do Gafanhoto. Possível relação com chuvas intensas no último mês é pouco provável e muito difícil de comprovar. O padrão de tremores ocorrendo durante vários dias (“enxame” de sismos) não é incomum. Sismos de magnitude 3,0 são bastante comuns no Brasil e em Minas Gerais. O estado já presenciou sismos de magnitudes bem maiores, como os de São Francisco de 1931 e o de Itacarambi de 2007, no norte do estado, ambos com magnitudes 4,9 e intensidades máximas de VI e VII MM (trincas e rachaduras em paredes). Essa série de tremores em Divinópolis parece fazer parte de uma zona de sismos mais frequentes que inclui o Quadrilátero Ferrífero. Sismos naturais são totalmente imprevisíveis e não é possível saber até quando a atividade continuará, se as magnitudes vão diminuir ou se vão aumentar.
Efeitos dos tremores relatados pela população
Segundo
informações, por ocasião do primeiro tremor de 10/Jan, moradores da
parte norte da cidade relataram “estrondo, depois portas, janelas e
móveis se mexeram”, o que corresponde a intensidade IV MM (escala
Mercalli Modificada). Estas informações iniciais foram confirmadas
pelas centenas de relatos de moradores de Divinópolis, como
descrito a seguir. A página do Centro de Sismologia da USP
(http://www.sismo.iag.usp.br/eq/dyfi) recebeu centenas de relatos
de moradores com descrição dos efeitos dos tremores.
Histórico de sismicidade em Minas Gerais
Pequenos
tremores em Minas Gerais são mais frequentes do que a média
brasileira. No passado, já ocorreram tremores de magnitude até 4,9
em Minas Gerais, principalmente na parte Norte do estado: São
Francisco 1931 (m=4.9), Itacarambi 2007 (m=4.9), Montes Claros 2012
(m=4.0). Sismos acima de 4, como esses anteriores, podem causar
pequenos danos em algumas casas (trincas em paredes, queda de
reboco e de telhas). No caso de Itacarambi de 2007, várias casas de
construção precária desabaram no bairro de Caraíbas, e os moradores
foram reassentados em outro local pelo governo estadual.Sismos em
Minas Gerais. Fonte: catálogo de sismos brasileiros do Centro de
Sismologia da USP.
Causas da sismicidade
Tanto
em Minas Gerais como em outras partes do Brasil, os tremores de
terra naturais ocorrem por deslizamento
repentino em falhas ou fraturas geológicas causado pelo acúmulo de
tensões geológicas (“pressões
internas”) a que a crosta está submetida. Estas tensões se devem às
forças tectônicas que movem
a placa Sul-Americana.
A barragem de Gafanhoto
Embora
alguns reservatórios hidrelétricos possam induzir tremores de
terra, esse fenômeno só ocorre em reservatórios com grande
profundidade (mais de 30 ou 50 m; o caso de Cajuru, com apenas 20
m, é uma exceção a nível mundial). Além disso, os epicentros dos
tremores induzidos por reservatórios estão dentro do lago ou nas
suas margens. A barragem de Gafanhoto está a 2.5 km do epicentro
macrossísmico (Fig. 7), bem fora da área de influência do
reservatório. Portanto, a possibilidade dos tremores terem alguma
relação com a barragem é extremamente remota e pode ser descartada.
Mais improvável ainda seria alguma relação com o reservatório de
Cajuru devido à grande distância dos epicentros.
Pedreiras
Exploração
em pedreira raramente causa tremores de terra. Os poucos casos
conhecidos (tanto na literatura como no Brasil) são de extração de
enormes quantidades de rocha deixando uma cava com mais de 100 m de
profundidade. Esse tipo de extração de rocha pode provocar um
alívio das pressões verticais logo abaixo da pedreira. Dependendo
da orientação e magnitude das tensões geológicas existentes, este
alívio pode induzir pequenos tremores de terra. Neste caso os focos
dos sismos estarão também logo abaixo da cava ou nas suas beiradas.
Os tremores de Divinópolis estão longe das pedreiras Dibrita (2.2
km) e MBL (3.4km). Portanto, pode-se também descartar a
possibilidade de efeito das pedreiras mencionadas.
Chuvas intensas
Como
estamos em período de chuvas intensas, incluindo inundações
catastróficas e pluviosidade bem acima da média histórica, é
natural perguntar-se se chuvas intensas podem, de alguma maneira,
causar tremores. Em princípio, um aumento significativo da pressão
da água em fraturas a alguns km de profundidade poderia facilitar o
deslizamento de blocos causando tremores. Esse é o mecanismo
principal dos sismos induzidos por reservatório hidrelétricos. No
entanto, apenas muita chuva e alagamento não são capazes,
normalmente, de aumentar a pressão da água a alguns km de
profundidade a ponto de desestabilizar alguma falha geológica. Há
alguns casos raros, comprovados na literatura, de tremores
induzidos por chuva. Chama-se a isso de “hidrossismicidade”. Mas
deve-se lembrar que, estatisticamente, os tremores naturais ocorrem
com igual probabilidade durante o ano inteiro, tanto nas épocas de
chuva como nas épocas de estiagem. É muito difícil comprovar a
hipótese de hidrossismicidade pois exigiria um acompanhamento de
alguns anos (pra ver se os tremores diminuem na estiagem e voltam a
aumentar nas chuvas seguintes). Além disso, seria preciso um
monitoramento sísmico de detalhe para acompanhar a evolução dos
sismos, suas profundidades e mecanismos de falhamento. Considerando
que chuvas intensas têm ocorrido em várias partes do Brasil e não
se constatou nenhum aumento da sismicidade em outras regiões, a
hipótese de influência das chuvas nos tremores de Divinópolis deve
ser considerada muito remota.Conclusões Tudo indica que os tremores
de terra em Divinópolis são de origem natural e fazem parte de um
“enxame” sísmico similar a outros casos de sismicidade no Brasil.
Infelizmente, não existe técnica comprovada que permita prever a
evolução da sismicidade. São raros os casos em que os tremores
aumentam em frequência e magnitude a ponto de causar danos sérios,
mas não se pode descartar totalmente esta possibilidade. No
entanto, a chance de danos maiores é remota.















