O mercado financeiro brasileiro registrou fortes oscilações nesta segunda-feira (26), no primeiro pregão após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a Presidência da República. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira, chegou a cair 17,34%, enquanto o dólar atingiu R$ 5,6048 na máxima do dia.
A queda da Bolsa levou a B3 a acionar o chamado circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações diante de movimentos muito bruscos do mercado. Após a retomada dos negócios, o Ibovespa voltou a registrar perdas expressivas.
Por volta das 14h30, o índice recuava 14,10%, aos 176.173 pontos. No mesmo horário, o dólar subia 8,82%, cotado a R$ 5,4336. Os valores correspondem a um recorte daquele momento e podem variar ao longo do pregão.
Na sexta-feira (23), antes da eleição, o dólar havia fechado em queda de 0,90%, a R$ 4,9930, enquanto o Ibovespa avançou 0,47%, aos 205.083 pontos.
Por que a Bolsa interrompeu as negociações?
O circuit breaker é um mecanismo de proteção utilizado pela B3 para interromper temporariamente as negociações em momentos de queda acentuada. A pausa busca reduzir movimentos desordenados e permitir que os investidores reavaliem suas posições.
A interrupção desta segunda-feira ocorreu após o Ibovespa registrar queda superior a 10% em relação ao fechamento anterior. Os negócios foram suspensos por 30 minutos e depois retomados.
Pelas regras usuais da Bolsa, uma queda de 15% após a primeira interrupção pode provocar uma nova suspensão, desta vez por uma hora. Nesta segunda-feira, porém, a B3 anunciou ajustes excepcionais nos limites de oscilação para a sessão. O limite para um segundo acionamento foi elevado a 20%.
O mecanismo já havia sido acionado durante a pandemia de Covid-19, em março de 2020. Naquele mês, a Bolsa brasileira registrou seis interrupções, em meio à turbulência nos mercados internacionais.
Reeleição de Lula influencia reação do mercado
A vitória de Lula no segundo turno, realizado no domingo (25), contrariou as expectativas de parte dos investidores, que apostavam na eleição do senador Flávio Bolsonaro (PL). A mudança de cenário provocou ajustes nas posições de investidores em ações, câmbio e contratos de juros.
Entre as principais preocupações do mercado estão a condução da política fiscal, a trajetória da dívida pública, o controle das despesas e a credibilidade das metas fiscais do governo.
O analista Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, afirmou que a política fiscal será um dos principais pontos observados pelos investidores durante o quarto mandato de Lula. O economista-chefe da Lev DTVM, Jason Vieira, por sua vez, mencionou discussões sobre revisão de gastos obrigatórios e o cumprimento das metas fiscais.
A reação negativa do mercado não significa, por si só, que todos os indicadores econômicos terão a mesma trajetória nos próximos meses. A evolução dos preços dependerá também das decisões do governo, dos dados econômicos e das condições internacionais.
Dólar chega a R$ 5,60
O dólar comercial também registrou forte alta durante a sessão. Por volta das 14h30, a moeda norte-americana avançava 8,82%, a R$ 5,4336, depois de alcançar R$ 5,6048 na máxima do dia.
A valorização reflete, entre outros fatores, a busca de investidores por proteção diante da incerteza e a revisão de posições após o resultado eleitoral. O comportamento do câmbio também pode ser influenciado pela perspectiva para as contas públicas e pelos juros no Brasil e no exterior.
As ações brasileiras negociadas no exterior também sofreram perdas. O EWZ, fundo negociado em Nova York que acompanha ações brasileiras, chegou a registrar queda superior a 26% antes da abertura regular dos mercados norte-americanos.
Juros futuros disparam
Os contratos de juros futuros também tiveram alta expressiva. Esses contratos refletem as expectativas dos investidores para as taxas de juros nos próximos meses e anos e são influenciados por projeções de inflação, política monetária e risco fiscal.
Por volta das 10h, a taxa negociada para janeiro de 2027 avançava de 13,475% para 13,898% ao ano. Para janeiro de 2029, subia de 12,595% para 15,03%. No contrato com vencimento em 2035, a taxa passou de 12,68% para 15,375%.
A alta dos juros futuros não representa um aumento automático e imediato da taxa Selic ou dos juros cobrados pelos bancos. No entanto, se a pressão persistir, poderá elevar os custos de financiamento para empresas, governos e consumidores.
Tesouro recompra títulos públicos
Em meio à turbulência, o Tesouro Nacional realizou uma operação de recompra de títulos públicos que movimentou cerca de R$ 7,1 bilhões. Foram recomprados aproximadamente 8,4 milhões de títulos prefixados, segundo os dados divulgados.
A recompra consiste na aquisição, pelo Tesouro, de títulos que estavam nas mãos dos investidores. Em um cenário de forte volatilidade, operações desse tipo podem ajudar a dar liquidez ao mercado, embora não garantam a reversão das oscilações.
No mercado de títulos, os preços e as taxas de rendimento geralmente se movimentam em sentidos opostos: quando o preço de um título cai, sua taxa de rendimento sobe.
Mercado internacional também está no radar
Além do cenário político e fiscal brasileiro, os investidores acompanham os preços do petróleo e as tensões envolvendo Estados Unidos e Irã. As preocupações com possíveis interrupções no fornecimento da commodity podem influenciar as cotações internacionais e as expectativas para a inflação.
Por volta das 13h30, o barril do Brent, referência internacional, subia 0,34%, cotado a US$ 117,12. Já o petróleo WTI, referência nos Estados Unidos, recuava 0,34%, a US$ 102,92.
As decisões de política monetária de bancos centrais também estão no radar. A expectativa se concentra na reunião do Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, prevista para quarta-feira. As decisões do Banco Central Europeu e do Banco do Japão também são acompanhadas pelos investidores.
Questionamentos sobre a eleição ampliam incerteza
A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin, de prorrogar a votação até as 19h também passou a integrar o debate político após a eleição. A medida foi motivada por pedidos relacionados a problemas no transporte público e às condições de votação em municípios atingidos por chuvas.
Flávio Bolsonaro afirmou, após a derrota, que não reconhecia o resultado e que recorreria à Justiça para pedir a anulação do pleito. A declaração representa o posicionamento do candidato e não altera, por si só, o resultado oficial da eleição.
Para investidores, a possibilidade de novos questionamentos políticos e jurídicos é mais um elemento de incerteza. O efeito sobre os preços dos ativos, porém, depende dos desdobramentos concretos e da avaliação que o mercado fizer das decisões futuras.
Quando o circuit breaker foi acionado pela última vez?
Antes desta segunda-feira, a última vez que a B3 havia acionado o circuit breaker no mercado brasileiro tinha sido em março de 2020, durante a pandemia de Covid-19.
Outros episódios marcantes ocorreram durante a crise asiática de 1997, a desvalorização do real em 1999 e a crise financeira internacional de 2008. Em março de 2020, o mecanismo foi acionado seis vezes, diante da forte queda das bolsas globais e das incertezas provocadas pela pandemia.
A interrupção desta segunda-feira marcou o retorno do mecanismo após mais de seis anos sem acionamento, em uma sessão de forte reação dos investidores ao resultado das eleições presidenciais.














