Dona Oralda, Tio nelson
Pelegrino como Rei Momo e Nonô, da Escola de Samba Tupy, no
Carnaval dos anos 1970 / Acervo Grupo Memória de Divinópolis.
Por Felipe Machado
O primeiro registro de se festejar o
Carnaval da maneira moderna, da qual conhecemos
hoje, nesta localidade, se deu nome 1910, quando o sr. Adolpho
Machado foi responsável por organizar um pioneiro cordão
carnavalesco. A festa levava nome de ‘Entrudo’, e era comemorada
com festas regadas à base de bisnaga e limão, as “águas
perfumadas’’ pelas pessoas de mais posses, e os mais pobres
brincavam com água comum em jarras e bacias.
Carnaval do Divinópolis
Clube, nos anos 1940 / Acervo EmRedes.
Naquela época, a “terça-feira gorda”
(Mardi Gras, em francês), como era famosa a Terça-feira de
Carnaval, era comum festejar o último dia antes do início da
Quaresma com a festa do Entrudo. Nela, consistia-se em atirar água
de cheiro, ou uma água preparada, nas demais pessoas, numa
constante euforia e alegria. Até na década de 1950 e 1960, em
Divinópolis ainda era comum o ato entre populares. Pelas ruas,
pessoas jogavam água das janelas, nas calcadas, nos pedestres.
Caminhotes com baldes d’agua passavam e voltavam pelas avenidas
alegrando e encharcando o pessoal. Com os anos e a modernidade, a
tradicão se acabou. Hoje ninguem mais corre risco de se molhar no
carnaval (a não ser na chuva).
Foto do carnaval de 1957, na
Rua Goiás, documentando o “Cai-n’água” em Divinópolis / Acervo
Vivina Michelini.
No decorrer ainda da década de 1910,
quando Divinópolis se emancipou politicamente, a festa do entrudo
começou a mudar. A sociedade divinopolitana, acompanhando o
desenvolvimento das demais de todo o país, passou a seguir os
festejos à moda veneziana. Nela, se distingue os bailes de máscara,
fantasias, e eventos de destaque social, introduzidos pela figura
do Pierrot e da Colombia em batalhas, que deixou de ter a água e o
entrudo como “arma”, trocados pelos civilizados confetes e
serpentinas do distinto carnaval.
Em 1923, o jornal “A Estrella da
Oeste” trouxe uma nota com bastante humor a respeito de como o
Carnaval pretendia animar a cidade naquele ano, sob comando do
‘Zaz-Traz Club’:
“A Estrella do Oeste”, de
1923, relatando o Carnaval daquele ano em Divinópolis / recorte do
Acervo EmRedes
A festa de carnaval daquele ano foi
um sucesso sob comando do ‘Zaz-Traz Club’, como
também noticiou “A Estrella da Oeste”,
posteriormente. Segundo o periódico, os membros deste clube
“desempenharam suas obrigações otimamente”.
Em frente ao então Cinema
Divinópolis, armou-se o coreto do ‘Zaz-Traz’, onde
se apresentou a animada “BandaLyra
Oeste”. Neste mesmo local foi onde se concentrou todo o
movimento nos três dias de folia. “Houve batalha de confete, de
lança-perfume e serpentina, a população se esbaldou nesse divertido
evento. Por sorte, a chuva deu trégua e permitiu a festa nas três
tardes: domingo, segunda e terça-feira gorda.”, relatou a
reportagem da época.
Grupo carnavalesco do Bloco
XPTO, do Largo da Matriz, que animava os carnavais divinopolitanos
das décadas de 1920 e 1930 / Acervo EmRedes.
O “Zaz-Traz”
organizou seu cordão, que era então dirigido pelo Maestro Timbié, o
batuta do violino mágico e no percurso foi muito apreciado e
aplaudido. Lá do Largo da Matriz veio descendo a Avenida 1º de
Junho o cordão “Flor da Primavera”, harmonioso e
deslumbrante nos seus trajes uniformes, causando a melhor das
impressões. Mestre Candinho deu a sua nota com seu choro, apreciado
por todos.
A surpresa daquela festança foi
definida pela improvisação do grupo “Pau D´Águas”
que fez sucesso com fantasiados avulsos que provocavam riso a
todos. Nos últimos dois dias de folia, um animado grupo de
“pierrots”, contando com moças e rapazes, correu as ruas
da cidade. Por fim, a matéria informa e destaca que nos quatro
locais de festejo naquele carnaval “não houve uma só
perturbação da ordem com ocorrência policial”.
Em 1924, o jornal “A Estrella da
Oeste”, do dia 24 de fevereiro, dedicou uma página inteira a
respeito do Carnaval. Naquele ano, registrou-se dezenas de blocos
carnavalescos em desfile, onde um prêmio de 100 mil réis foi
oferecido pela Casa Michelini & Notini ao que fizesse maior
sucesso. A banca que julgou o vencedor era composta pelo Dr.
Ribeiro Pena, Ataliba Lago e Raymundo Ferreira.
Bloco X.P.T.O. destaque do
carnaval divinopolitano nas décadas de 20 e 30 / Acervo
EmRedes.
Na época, outro destaque era o
Bloco do Boi Sabino, organizado pelo mestre Sabino
Pinto, antigo carnavalesco da cidade, que além de músico e
sanfoneiro de primeira, era ferroviário. Sua casa vivia em festa o
ano todo, e lá, se pagando os 200 réis de praxe, podia-se comer,
beber, dançar e farrear a vontade. Sua exigência era apenas
respeito e ordem. Não permitia confusão, bebedeira e barulho
extremo. Em sua casa, os homens só entravam de terno e gravata.
Como muitos que iam não tinham condições, na porta de entrada da
residência, havia um cabide com gravatas para emprestar a quem não
tinha.
Como Sabino era ferroviário, teve a
ideia de construir uma armação de metal para levar um boi para a
avenida, dando destaque ao seu bloco. A armação foi feita nas
Oficinas da Rede, onde trabalhava, coberta com tecido colorido em
formato de boi e com uma carranca bovina fixada, virando uma
éspecie de Bumba-meu-boi. A idumentária era carregado por baixo por
um tal de Vicente Papelão, que corria atrás dos foliões. O
‘Boi-do-Sabino’ puxava o bloco, assustando crianças e punha todos
para correr. Com o tempo, Sabino ficou o mais conhecido
carnavalesco da Divinópolis dos anos 1920 e 1930.
Bloco Cidadão Bô, do Mestre
Sabino, provavelmente na década de 1930 / Acervo Grupo Memória de
Divinópolis
Já no ano de 1934 registra-se uma
festança de arromba no Carnaval divinopolitano. Quase toda
população estava nas ruas, pulando, cantando, se divertindo,
“pintando o sete’’, como se dizia. E quem ficava em casa não perdia
a boa visada que as janelas frontais permitiam. Naquele ano houve
desfile na avenida 1º de Junho, carros ornamentados, máscaras,
serpentinas, cordões inteiros compondo o corso, e as mais belas
fantasias.
Desfilaram o famoso bloco
XPTO, o Bloco do Catalão, o
Bloco do Guarani, e o próprio sr. Halim
Souki, comerciante libanês que vivia na cidade desde 1925
já se animava com a típica festa nacional, e puxava sua turma como
um autêntico ‘paxá do oriente’. Tinha também o
Clube Mineiro, do Sabino Pinto, e o Rancho
do Roxo Apaixonado, do bairro Niterói, comandado pelo
Chico ‘Pé-Espaiado’. Assim como o Cordão das
Borboletas, de Zé Botelho e Familia Pereira, o
Bloco Primavera de Adolfo Machado, o Bloco
Euterpe de José Xavier Gontijo e Celestino Fernandes, e a
Embaixada Francesa de Lucas Penna e Gustavo
Affonso.
Nos anos 40, o carnaval imperou na
cidade como um ditador, seguindo as tendências de supremacias e
doutrinas que ameaçavam e conturbavam a paz mundial. Em 1940, o
primeiro carnaval durante a II Guerra Mundial, que abalava então a
Europa, não fez o povo aqui sossegar por quatro dias e quatro
noites. O Divinópolis Jornal, de 15 de fevereiro de 1940 fez um
pequeno resumo do tríduo de Rei Momo: “(…) Alguns cordões bem
ensaiados davam uma nota alegre à Avenida. Às 11 horas, o movimento
esfriava nas ruas para ferver nos clubes (…)”
O sr. Raymundo Ferreira se destacou,
entrando na folia fantasiado de Dom Casmurro, personagem célebre de
Machado de Assis. Palmério Ameno, memorialista quase centenário,
destaca outros carnavalescos famosos desta localidade: “(…) lá
pela década de 1940, a Sissy do Fico, Dr. Mário Meireles, o Antonio
Di Sabatino, a Yolanda Chagas, além do memorável médico Dr. Zósimo
Ramos Couto que se fantasiava de “Yaiá Boneca” também animavam
os cordões divinopolitanos. “Prevaleciam, naquele tempo,
fantasias de pierrô, odaliscas, colombinas e marinheiros”,
destaca Palmério.
Festa carnavalesca na
residência do sr. Antônio di Sabatino (o terceiro em pé, da
esquerda para direita), com presença do dr. Zózimo Ramos Couto,
fantasiado de bebê, com direito a chupeta e tudo, abaixo, à direita
/ Acervo Grupo Memória de Divinópolis.
A partir da década de 1940, ficam
famosos os bailes carnavalescos de salão, como do do
Divinópolis Clube, o mais requisitado da época. Na
época, a sede do clube se localizava no prédio de esquina da
Avenida 1º de Junho com Rua Rio de Janeiro, e posteriormente
mudou-se para sua sede própria, na Rua São Paulo. Ali, os 4 Bailes
carnavalescos e suas ‘matinées dansantes’ eram abrilhantadas pelo
“Jazz do Salim” e o “Bando da Lua”.
Baile de Carnaval do
Divinópolis Clube, quando o mesmo era na esquina da Av. 1º de Junho
com Rua Rio de Janeiro, nos anos 1940 / Acervo Grupo Memória de
Divinópolis.
Palmério, que por muitos anos
frequentou e posteriormente presidiu, por vários anos, o
Divinópolis Clube, registra como era a folia por lá nos idos
tempos:
“As folias nos clubes, (e aqui
ressalto o Divinópolis Clube), se faziam com pessoas solitárias,
casais, que dançavam, pulavam, girando em torno do salão, cantando
marchinhas e sambas carnavalescos. Algumas mães, na Folia de Momo,
preocupavam-se assaz com a virgindade das filhas, um tabu. Uma das
brincadeiras consistia em esguichar no rosto, costas e, quando no
bumbum das mulheres vestidas com “shorts” curtos, pulando à frente,
abraçadas com o marido, namorado, ao sentirem o friozinho gelado na
bunda, desafinavam o rebolado, davam um “bamboleio” e, vocês já
adivinharam… Procuravam o/a autor/a, que reagia se fazendo de
inocente, continuava como se nada houvesse acontecido, mas o ‘pau
costumava comer’. Ao término dos bailes carnavalescos, a orquestra
dava os últimos acordes daquela tradicional musiquinha:
“Ai,ai,ai,ai! ‘Tá chegando a hora,/ o dia já vem raiando, meu bem,/
eu tenho que ir embora.” Um momento de emoção com algumas lágrimas
rolando. O salão mantinha ainda por alguns dias aquele odor
perfumado como a dizer que no ano que vem tem mais.”
Em 1944, o Divinópolis Clube lançou
um concurso de Carnaval, que premiou foliões em três categorias. O
‘Divinópolis Jornal’ registrou a folia e noticiou o concurso
elegido no grêmio. Foram estas as categorias e vencedores:
1ª foliana: Célia Dutra — prêmio
oferecido pela Casa Nova Oriente
1ª fantasia: Irma Epifânio — prêmio oferecido pela Casa Nova
Ltda
1º folião: Ramon Lago — prêmio oferecido pela casa Ao Novo
Mundo
Registro do ‘Divinópolis
Jornal’, de 1944, sobre o concurso carnavalesco daquele ano
organizado pelo Divinópolis Clube / Acervo Digital da Biblioteca
Nacional.
Havia também o Carnaval do
Ferroviário Atlético Clube, do bairro Esplanada,
comum entre os funcionários da ferrovia, e também o do
Baile da Prefeitura, para os tipos mais populares.
O Clube Recreativo Operário também disputava
atenção dos carnavalescos da classe trabalhadora nesta
época.
Mais tarde, a partir dos anos 1950, também aparece o
Carnaval do Estrela do Oeste Clube, presidido por
José Alonso Dias, que adquiriu o antigo salão do Divinópolis Clube,
na esquina da Avenida 1º de Junho com Rua Rio de Janeiro.
Posterioemente, em 1970, o Estrela do Oeste concluiu as obras de
sua sede própria, na Rua Rio de Janeiro, onde passou a celebrar seu
carnaval.
Outro local onde o Carnaval ganhava
alegria na folia de fevereiro era no antigo salão e restaurante do
Íris Hotel, localizado no mesmo prédio atual, na
esquina da Avenida 1º de Junho com Rua Rio de Janeiro. A festa era
animada pelos seus proprietários, Dona Íris e o sr. Francisco
Teodoro da Silva, o “Chiquinho Teodoro”.
Registro do Carnaval do
salão e restaurante do Íris Hotel, em 1958 / Acervo
EmRedes
Após década de 1950 surgem algumas
escolas de samba, como o RanchoTupy, do Nonô, a Unidos do
Niterói, a do Flamengo Esporte Clube, do Palmeiras Futebol
Clube, do Guarani Esporte Clube e do Ferroviário Atlético
Clube.
Em 1952, Nonô, atendendo os anseios
da populção, iniciou a organização do carnaval de rua por conta
própria. Nesta época, o desfile de rua da cidade volta a ganhar
destaque. Surgem então os grandes comboios, as alas e toda a
alegoria que voltava a pisar na avenida, alegrando a cidade como um
todo. Naquele ano, o Bloco Rancho Tupy desfilou
com maior estrutura, composto de três carros alegóricos: o
primeiro, com um cisne puxando a carruagem que levava o Rei Momo,
Tio Nelson, além da Rainha e da Princesa do Carnaval; o segundo
puxava homenagem ao esporte divinopolitano; e o terceiro carro
levava dois índios, o “Filho do Fogo” e o “Sobrinho do
Trovão”.
Valdete Viriato
representando na avenida o Grupo “Os Metralhas”, no carnaval
divinopolitano nos anos 1970 / Acervo Grupo Memória de
Divinópolis.
É impossível falar do Carnaval de
Divinópolis sem citar duas grandes personalidades que animaram a
folia na terra do Divino: o sr. Nelson Pelegrino,
o “Tio Nelson” e o Maestro Ivan Silva.
O primeiro, se perpetuou no carnaval
da cidade como eterno Rei Momo, do qual vestiu a fantasia por mais
de 40 carnavais seguidos! Simplesmente reinou perante a folia,
ganhando passe livre em todos os desfiles e clubes carnavalescos da
região. Além da brincadeira, presidiu também a famosa e
inesquecível “República do Tio Nelson” de rapazes
lá hospedados, os quais acolhiam qualquer pessoa qua ali chegasse.
Foi também marcador de quadrilhas nas festas juninas e das
barraquinhas, que anivama a Rua Rio de Janeiro nas noites de São
João. No Natal, era também o Papai Noel, alegria garantida para a
criançada. Foi ainda alfaiate e sócio-fundador do Lions Clube de
Divinópolis.
Tio Nelson Pelegrino, Rei
Momo do carnaval, e a Rainha do Carnaval de Divinópolis, Angela
Maria, em 1972 / Acervo Grupo Memória de Divinópolis.
Já o Maestro Ivan
Silva, filho desta cidade, onde nasceu, no Íris Hotel,
pertencente à sua família, e onde viveu toda uma vida. Foi grande
ativista da cultura, dos movimentos culturais e musicais desta
cidade. Além disso, foi colunista social, criou, lançou e promoveu
diversos eventos sociais, em que tinha um talento inconfundível.
Ajudou a fundar o Jornal Agora, criou e batizou o “Troféu Status”,
a boate e o grupo ‘KaSamba’.
Ivan Silva, fantasiado de
pirata no carnaval, nos ano 1960 / Acervo EmRedes.
Era um excelente pianista, que o
levou a diversas performances veneráveis. Com o talento, formou o
conjunto musical com seu próprio nome, o qual ficou famoso nesta
Divinópolis e em toda Minas Gerais. Presença constante nas festas,
era muito solicitado para bailes de gala de alta classe.
Apresentava concursos de beleza, de misses e demais agendas
sociais. Amava o Carnaval, e sempre se apresentava na festa com
roupas e fantasias impecáveis. Chegou, inclusive, a desfilar no
carnaval do Rio de Janeiro, pela Portela, nos anos 70. Acima de
tudo, era um ser humano encantador, que morreu muito cedo e que
muitas saudades deixou. Hoje seu nome homenageia a Escola de Música
Maestro Ivan Silva, anexa ao Teatro Usina Gravatá.
Maestro Ivan Silva, à
esquerda, ao lado de Tio Nelson, de Rei Momo, à direita. Duas
lendas do Carnaval de Divinópolis / Acervo EmRedes.
Com o tempo, o Bloco Rancho Tupy se
tornou a grandiosa Escola de Samba Tupy, ainda sob
os auspícios do Seu Nonô e Dona Oralda, que abrilhantaram com gala
o desfile que irrompia as ruas do centro da cidade, transformando a
Avenida 1º de Junho numa versão não carioca, mas candidé, da Maquês
de Sapucaí.
Palmerio Ameno também registra sobre
a histórica Escola de Samba de Nonô e Oralda:
“(…)As classes populares se
contentavam com os desfiles da Escola de Samba Tupy , do
grande Nonô, que era marceneiro de profissão e carnavalesco por
vocação. Ele e a Dona Oralda, sua esposa, se transformavam em Rei e
Rainha e faziam das ruas divinopolitanas, o verdadeiro tapete
vermelho por onde desfilavam toda sua majestade (…)“.
Dona Oralda, Tio nelson
Pelegrino como Rei Momo e Nonô, da Escola de Samba Tupy, no
Carnaval dos anos 1970 / Acervo Salete Michelini.
Seu Nonô era o
apelido de Antônio Venâncio Rosa, natural de São
João del Rei, veio a trabalho para Divinópolis em 1939. Mesmo
convivendo sem incentivos financeiros e com muitas dificuldades,
seu Nonô nunca deixou se desanimar nem de festejar o Carnaval.
Desfilava sempre com seu grupo de foliões pela avenida, formando a
famosa a Escola de Samba Tupy, que por muitos anos
animou nossa festa.
Junto com sua grande parceira, sua
esposa Dona Oralda, transbordaram exemplo de amor ao Carnaval. Nonô
faleceu em 1994, aos 71 anos de idade, levando consigo um pouco da
alegria carnavalesca desta cidade.
“Abram Alas, deixem o Nonô
passar!” Nonô, vestido de índio e montado a cavalo, numa de suas
impecáveis fantasias de carnaval, nos anos 1980 / Acervo Salete
Michelini.
Outro famoso na época era o
“Bloco dos Sujos”, que irrompia as ruas da cidade
em alegria e perversão. Segundo Palmério Ameno, ali “os homens
surrupiavam vestidos dos guarda roupas das mães, esposas e irmãs e
saiam faceiros, cada um mais feio do que o outro, turbinados pela
cachaça, que é um santo remédio contra todas as inibições” e
festejavam pelas ruas, travestidos de mulher. A gandaia durava todo
o dia, a noite e varava as madrugadas, até na quarta-feira
final.
Na época, o Carnaval era muito
esperado pela população, que meses antes já preparava o figurino
para dias de folia. “Na velha Divineia, carnaval era coisa
importante, as pessoas se preparavam bem antes para os bailes do
Divinópolis Clube e, tempos depois, do Estrela”, descreveu
Palmério, que por ano presidiu o Divinópolis Clube. “Minhas
amigas de adolescência caprichavam no figurino, se transformando em
havaianas, baianas, num conjunto de cores que nos deixavam mais
apaixonados ainda, pelas belezuras e pelas barriguinhas, ano
inteiro escondidas, agora mostradas com gosto, graças ao santo
Carnaval!”, continua.
Jovens “índigenas” do
carnaval do Divinópolis Clube, dos anos 1970 / Acervo
EmRedes.
Um elemento imprescindível no
Carnaval de antigamente na cidade era a presença do Lança-Perfume.
Vendido em garrafinhas de vidro, que geralmente vinham importadas
da Argentina ou do Paraguai, o Lança-Perfume dava o toque final na
festa momesca de outrora, numa atmosfera atemporal.
“(…)Esse líquido, ao ser
espargido, gerava uma sensação de congelamento na pele. Vinha
acondicionado em tubos metálicos, os famosos ‘rodoros’, sob forte
pressão. Havia quem colocava um em cada bolso da camisa. Era um
‘charme’ daquele tempo. Aparentemente, uma diversão inofensiva e
até crianças os portavam nos bailes infantis; paqueravam-se moças
com tais esguichos. Guardava-se o perfume em toalhinhas, lenços,
para recordação daquele carnaval (…)”, destaca
Palmério.
Essa delícia perfumada, gelada,
inocente e até ‘infantil’fez do “lança-perfume”, considerado,
antes, romântico, alegre, uma droga, acabou proibitiva e
criminalizada. Em 1961, no rápido conservador governo de Jânio
Quadros, o lança-perfume acabou proibido em todo território
nacional. É claro que não deixou de ser usado, de uma hora para
outro, mas sua compra acabou restrita, os preços subiram, e aos
poucos, deixou de alegrar e perfumar as festas
carnavalescas.
Baile de Carnaval em
Divinópolis, nos anos 1960. na imagem, figuras como Tio Nelson como
Rei Momo, Rosenval Hudson de Oliveira, Maestro Ivan Silva, os
músicos Tony Kinho e Siqueira, além da Rainha Ana Pera / Acervo
Grupo Memória de Divinópolis.
“Eu cantava, com gosto, junto de
minha mãe, a ‘Jardineira’, ‘O Mal me Quer’, ‘As Pastorinhas’, ‘O
Teu Cabelo Não Nega’ e mais um repertório infinito que representava
a inocência de um Brasil que ficou no passado. Agora, neste tristes
tempos atuais, o Carnaval tem o gosto amargo de uma eterna
Quarta-Feira de Cinzas, onde a remissão dos pecados está na ordem
do dia. Me resta ser renitente e cantarolar bem baixinho, um ‘Alah
La Ô’, reclamando do calor, e voltar a cantar as marchinhas que
ainda guardo na memória. Assim transformo minha casa nos salões do
Divinópolis Clube e tenho as lembranças dos velhos amigos, aqueles
que partiram e os que estão entre nós, no tal bloco da
saudade.” Palmério Ameno.
A partir de 1971 os desfiles de
carnaval passaram a cargo da Prefeitura Municipal. Até então, os
desfiles somente saíam às ruas devido o esforço e organização de
pessoas que gostavam e que mantinham vivo o espírito carnavalesco.
A mudança deu novos rumos ao carnaval de rua da cidade, que passou
a ter regulamento e também divisões, entre primeiro e segundo
grupo. Tal divisão se deu, primeiramente, deviso a classificação de
cada escola, decorrendo também de seu tamanho e número de
integrantes.
Passou-se também a haver uma banca
julgadora para avaliar as escolas, diante dos quesitos
estabelecidos, como Comissão de Frente, Bateria, Mestre Sala e
Porta Bandeira, Samba-Enredo, Fantasia, Harmonia, Evolução,
Alegoria e Adereços.
Os desfiles ocorriam entre o domingo
e a terça-feira mágica, na Avenida 1º de Junho. As escolas se
aglomeravam, no final da tarde e início da noite, na Praça da
Catedral, desfilando pela via principal da cidade até a Rua
Goiás.
Seu Nonô e Dona Oralda, da
Escola de Samba Tupy, recebendo do então Prefeito de Divinópolis,
Antônio Martins Guimarães, o prêmio de Campeão do Carnaval de 1974
/ Acervo Grupo Memória de Divinópolis.
Neste período, destacaram se a
Escola da Samba Tupy, do Nonô e a recém-fundada
Escola de Samba Metralhas, de Ivan Silva, que
passaram a fazer grande rivalidade na avenida. As demais
organizações carnavalescas vinham dos bairros, como a
Escola de Samba Os Carrascos, criada do Bloco
Caricato da Vila Cruzeiro; o Grêmio Recreativo Império do
Novo Mundo, que pisou na avenida pela primeira vez em
1974; a Escola de Samba Unidos do Divino, de Jorge
Miranda, fundada em 1976; a Escola de Samba Santa
Cruz, do São João de Deus, fundada pelo senhor Expedito em
1978; o Grêmio Recreativo Unidos do Guarani, de
1979, do sr. Hélio Evangelista; e o Grêmio Recreativo
Escola de Samba Princesa do Oeste, do Estrela do Oeste
Clube, de José Alonso Dias, que representavam o expoente do esporte
local; a Escola de Samba Andorinhas da Serra; a
Unidos da Vila, o Grêmio Recreativo Monte
Líbano, entre outras, que garantiram o espetáculo na
época.
Ivan Silva na presença
ilustre de Elke Maravilha no carnaval divinopolitano, nos anos 1980
/ Acervo EmRedes.
Em 1980, Nonô da Tupy entrou na
festença comemorando seus 28 anos de pé na avenida com o enredo
“Primavera em Festa” e o samba “Falei das Flores”, música e letra
de Afonso Teixeira. Nos anos 1980, a Tupy e a Santa Cruz passaram a
ser as maiores escolas do carnaval divinopolitano, a qual
disputavam o título oferecido pela Prefeitura quase todos os
anos.
Decoração da Avenida 1º de
Junho para o desfile de Carnaval de 1987 / Acervo Salete
Michelini.Desfile de Carnaval em 1988,
na esquina da Avenida 1º de Junho com Rua Rio de Janeiro / Acervo
EmRedes.
A Escola de Samba Tupy abrilhantou o
carnaval até as vésperas da morte de seu mestre Nonô, no início dos
anos 1990. Com sua partida, morreu um pouco do carnaval
divinopolitano, que no final daquela década deixou de realizar seu
tradicional desfile após quase meio século. A cidade foi se
tornando mais vazia e silenciosa no período. Esvaziada pelas festas
em outras regiões, o Carnaval de Divinópolis teve sua última
tentativa em 2001 quando a Prefeitura realizou o último desfile,
reunindo algumas agremiações ainda sobreviventes, tentando atrir o
povo, sem muito sucesso.
Registro do último desfile
de Carnaval em Divinópolis, ocorrido em 2001 / Acervo do Grupo
Memória de Divinópolis.Populares durante o último
desfile de Carnaval em Divinópolis, em 2001 / Acervo
EmRedes.
A partir de 2003, Divinópolis passou
a receber uma festa que arrastou foliões fora de época para a
cidade: a Divina Folia, uma tentativa de fazer um
“carnaval” divinopolitano animou a cidade no segundo semestre do
ano, trazendo atrações nacionais e internacionais, como Ivete
Sangalo, Chiclete com Banana, Tuca Fernandes, Cheiro de Amor,
eFatBoysSlim, entre outras. Em 2019 o evento acabou sendo
cancelado.
Em 2016 surgiu o Bloco do
Cléo, que organizou a primeira edição do Pré-Carnaval de
Divinópolis. Em 2017, o evento ganhou maiores proporções,
acompanhado por uma multidão que lotou as ruas do centro da cidade.
Neste ano em questão, o Bloco se concentrou na Praça do Mercado na
manhã do sábado, dia 18 de fevereiro, desfilando pelas Avenida
Antônio Olímpio de Morais, Rua Coronel João Notini, Avenida 21 de
Abril, Rua Rio de Janeiro, e Rua Oswaldo Machado Gontijo, na parte
da tarde.
Com o sucesso, o evento reunido pela
Prefeitura se tornou oficialmente o Pré-Carnaval divinopolitano,
reunindo 60 mil pessoas em 2018 e 80 mil em 2019. Em 2020, antes da
Pandemia, o Pré-Carnaval teve seu local alterado, deixando as ruas
do centro da cidade, e sendo realizado na Rua Pitangui. Não
realizado em 2021 e 2022 devido às restrições de saúde, o evento
retornou em 2023, sendo realizado desde então no alto da Avenida
Paraná, nas proximidades da nova sede da Prefeitura de
Divinópolis.
Pré-Carnaval de Divinópolis
em 2018 / Acervo Foto: Bloco do Cléo/Divulgação.
…
FONTES:
Referências Bibliográficas:
AMENO, Helena A. e VENÂNCIO, Daniel
F. Divinópolis no Carnaval. Leando Pena Catão, João Ricardo
Ferreira Pires e Batistina de Sousa Corgosinho (org.).
Divinópolis História e Memória. Volume 3: Economia e
Cultura. Belo Horizonte: Crisálida, 2015
AZEVEDO, Francisco G. e AZEVEDO,
Antônio G. Da Historia de Divinópolis.
Divinópolis, 1988.
BARRETO, Lázaro. Memorial de
Divinópolis. Divinópolis, 1992.
LARA, José Dias. Divinópolis
Com Amor e Humor. Divinópolis: Fortil, 1987.
MOURÃO, Ana Maria. Mamma Mia
e a Poeira de Minas. Gráfica Real, 2003.
Jornais:
Jornal “A Estrella da
Oeste”: Ano I, edição 12, de 25 de fevereiro de 1923.
Acervo EmRedes.
Jornal “Divinópolis
Jornal”: Ano X, edição s/nº, de fevereiro de 1944. Acervo
Digital da Biblioteca Nacional.