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A história do Carnaval de Divinópolis

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Dona Oralda, Tio nelson Pelegrino como Rei Momo e Nonô, da Escola de Samba Tupy, no Carnaval dos anos 1970 / Acervo Grupo Memória de Divinópolis.

Por Felipe Machado

O primeiro registro de se festejar o Carnaval da maneira moderna, da qual conhecemos hoje, nesta localidade, se deu nome 1910, quando o sr. Adolpho Machado foi responsável por organizar um pioneiro cordão carnavalesco. A festa levava nome de ‘Entrudo’, e era comemorada com festas regadas à base de bisnaga e limão, as “águas perfumadas’’ pelas pessoas de mais posses, e os mais pobres brincavam com água comum em jarras e bacias.

Carnaval do Divinópolis Clube, nos anos 1940 / Acervo EmRedes.

Naquela época, a “terça-feira gorda” (Mardi Gras, em francês), como era famosa a Terça-feira de Carnaval, era comum festejar o último dia antes do início da Quaresma com a festa do Entrudo. Nela, consistia-se em atirar água de cheiro, ou uma água preparada, nas demais pessoas, numa constante euforia e alegria. Até na década de 1950 e 1960, em Divinópolis ainda era comum o ato entre populares. Pelas ruas, pessoas jogavam água das janelas, nas calcadas, nos pedestres. Caminhotes com baldes d’agua passavam e voltavam pelas avenidas alegrando e encharcando o pessoal. Com os anos e a modernidade, a tradicão se acabou. Hoje ninguem mais corre risco de se molhar no carnaval (a não ser na chuva).

Foto do carnaval de 1957, na Rua Goiás, documentando o “Cai-n’água” em Divinópolis / Acervo Vivina Michelini.

No decorrer ainda da década de 1910, quando Divinópolis se emancipou politicamente, a festa do entrudo começou a mudar. A sociedade divinopolitana, acompanhando o desenvolvimento das demais de todo o país, passou a seguir os festejos à moda veneziana. Nela, se distingue os bailes de máscara, fantasias, e eventos de destaque social, introduzidos pela figura do Pierrot e da Colombia em batalhas, que deixou de ter a água e o entrudo como “arma”, trocados pelos civilizados confetes e serpentinas do distinto carnaval.

Em 1923, o jornal “A Estrella da Oeste” trouxe uma nota com bastante humor a respeito de como o Carnaval pretendia animar a cidade naquele ano, sob comando do ‘Zaz-Traz Club’:

“A Estrella do Oeste”, de 1923, relatando o Carnaval daquele ano em Divinópolis / recorte do Acervo EmRedes

A festa de carnaval daquele ano foi um sucesso sob comando do ‘Zaz-Traz Club’, como também noticiou “A Estrella da Oeste”, posteriormente. Segundo o periódico, os membros deste clube “desempenharam suas obrigações otimamente”.

Em frente ao então Cinema Divinópolis, armou-se o coreto do ‘Zaz-Traz’, onde se apresentou a animada “Banda Lyra Oeste”. Neste mesmo local foi onde se concentrou todo o movimento nos três dias de folia. “Houve batalha de confete, de lança-perfume e serpentina, a população se esbaldou nesse divertido evento. Por sorte, a chuva deu trégua e permitiu a festa nas três tardes: domingo, segunda e terça-feira gorda.”, relatou a reportagem da época. 

Grupo carnavalesco do Bloco XPTO, do Largo da Matriz, que animava os carnavais divinopolitanos das décadas de 1920 e 1930 / Acervo EmRedes.

O “Zaz-Traz” organizou seu cordão, que era então dirigido pelo Maestro Timbié, o batuta do violino mágico e no percurso foi muito apreciado e aplaudido. Lá do Largo da Matriz veio descendo a Avenida 1º de Junho o cordão “Flor da Primavera”, harmonioso e deslumbrante nos seus trajes uniformes, causando a melhor das impressões. Mestre Candinho deu a sua nota com seu choro, apreciado por todos.

A surpresa daquela festança foi definida pela improvisação do grupo “Pau D´Águas” que fez sucesso com fantasiados avulsos que provocavam riso a todos. Nos últimos dois dias de folia, um animado grupo de “pierrots”, contando com moças e rapazes, correu as ruas da cidade. Por fim, a matéria informa e destaca que nos quatro locais de festejo naquele carnaval “não houve uma só perturbação da ordem com ocorrência policial”.

Em 1924, o jornal “A Estrella da Oeste”, do dia 24 de fevereiro, dedicou uma página inteira a respeito do Carnaval. Naquele ano, registrou-se dezenas de blocos carnavalescos em desfile, onde um prêmio de 100 mil réis foi oferecido pela Casa Michelini & Notini ao que fizesse maior sucesso. A banca que julgou o vencedor era composta pelo Dr. Ribeiro Pena, Ataliba Lago e Raymundo Ferreira. 

Bloco X.P.T.O. destaque do carnaval divinopolitano nas décadas de 20 e 30 / Acervo EmRedes.

Na época, outro destaque era o Bloco do Boi Sabino, organizado pelo mestre Sabino Pinto, antigo carnavalesco da cidade, que além de músico e sanfoneiro de primeira, era ferroviário. Sua casa vivia em festa o ano todo, e lá, se pagando os 200 réis de praxe, podia-se comer, beber, dançar e farrear a vontade. Sua exigência era apenas respeito e ordem. Não permitia confusão, bebedeira e barulho extremo. Em sua casa, os homens só entravam de terno e gravata. Como muitos que iam não tinham condições, na porta de entrada da residência, havia um cabide com gravatas para emprestar a quem não tinha.

Como Sabino era ferroviário, teve a ideia de construir uma armação de metal para levar um boi para a avenida, dando destaque ao seu bloco. A armação foi feita nas Oficinas da Rede, onde trabalhava, coberta com tecido colorido em formato de boi e com uma carranca bovina fixada, virando uma éspecie de Bumba-meu-boi. A idumentária era carregado por baixo por um tal de Vicente Papelão, que corria atrás dos foliões. O ‘Boi-do-Sabino’ puxava o bloco, assustando crianças e punha todos para correr. Com o tempo, Sabino ficou o mais conhecido carnavalesco da Divinópolis dos anos 1920 e 1930. 

Bloco Cidadão Bô, do Mestre Sabino, provavelmente na década de 1930 / Acervo Grupo Memória de Divinópolis

Já no ano de 1934 registra-se uma festança de arromba no Carnaval divinopolitano. Quase toda população estava nas ruas, pulando, cantando, se divertindo, “pintando o sete’’, como se dizia. E quem ficava em casa não perdia a boa visada que as janelas frontais permitiam. Naquele ano houve desfile na avenida 1º de Junho, carros ornamentados, máscaras, serpentinas, cordões inteiros compondo o corso, e as mais belas fantasias.

Desfilaram o famoso bloco XPTO, o Bloco do Catalão, o Bloco do Guarani, e o próprio sr. Halim Souki, comerciante libanês que vivia na cidade desde 1925 já se animava com a típica festa nacional, e puxava sua turma como um autêntico ‘paxá do oriente’. Tinha também o Clube Mineiro, do Sabino Pinto, e o Rancho do Roxo Apaixonado, do bairro Niterói, comandado pelo Chico ‘Pé-Espaiado’. Assim como o Cordão das Borboletas, de Zé Botelho e Familia Pereira, o Bloco Primavera de Adolfo Machado, o Bloco Euterpe de José Xavier Gontijo e Celestino Fernandes, e a Embaixada Francesa de Lucas Penna e Gustavo Affonso.

Nos anos 40, o carnaval imperou na cidade como um ditador, seguindo as tendências de supremacias e doutrinas que ameaçavam e conturbavam a paz mundial. Em 1940, o primeiro carnaval durante a II Guerra Mundial, que abalava então a Europa, não fez o povo aqui sossegar por quatro dias e quatro noites. O Divinópolis Jornal, de 15 de fevereiro de 1940 fez um pequeno resumo do tríduo de Rei Momo: “(…) Alguns cordões bem ensaiados davam uma nota alegre à Avenida. Às 11 horas, o movimento esfriava nas ruas para ferver nos clubes (…)

O sr. Raymundo Ferreira se destacou, entrando na folia fantasiado de Dom Casmurro, personagem célebre de Machado de Assis. Palmério Ameno, memorialista quase centenário, destaca outros carnavalescos famosos desta localidade: “(…) lá pela década de 1940, a Sissy do Fico, Dr. Mário Meireles, o Antonio Di Sabatino, a Yolanda Chagas, além do memorável médico Dr. Zósimo Ramos Couto que se fantasiava de “Yaiá Boneca” também animavam os cordões divinopolitanos. “Prevaleciam, naquele tempo, fantasias de pierrô, odaliscas, colombinas e marinheiros”, destaca Palmério. 

Festa carnavalesca na residência do sr. Antônio di Sabatino (o terceiro em pé, da esquerda para direita), com presença do dr. Zózimo Ramos Couto, fantasiado de bebê, com direito a chupeta e tudo, abaixo, à direita / Acervo Grupo Memória de Divinópolis.

A partir da década de 1940, ficam famosos os bailes carnavalescos de salão, como do do Divinópolis Clube, o mais requisitado da época. Na época, a sede do clube se localizava no prédio de esquina da Avenida 1º de Junho com Rua Rio de Janeiro, e posteriormente mudou-se para sua sede própria, na Rua São Paulo. Ali, os 4 Bailes carnavalescos e suas ‘matinées dansantes’ eram abrilhantadas pelo “Jazz do Salim” e o “Bando da Lua”. 

Baile de Carnaval do Divinópolis Clube, quando o mesmo era na esquina da Av. 1º de Junho com Rua Rio de Janeiro, nos anos 1940 / Acervo Grupo Memória de Divinópolis.

Palmério, que por muitos anos frequentou e posteriormente presidiu, por vários anos, o Divinópolis Clube, registra como era a folia por lá nos idos tempos: 

“As folias nos clubes, (e aqui ressalto o Divinópolis Clube), se faziam com pessoas solitárias, casais, que dançavam, pulavam, girando em torno do salão, cantando marchinhas e sambas carnavalescos. Algumas mães, na Folia de Momo, preocupavam-se assaz com a virgindade das filhas, um tabu. Uma das brincadeiras consistia em esguichar no rosto, costas e, quando no bumbum das mulheres vestidas com “shorts” curtos, pulando à frente, abraçadas com o marido, namorado, ao sentirem o friozinho gelado na bunda, desafinavam o rebolado, davam um “bamboleio” e, vocês já adivinharam… Procuravam o/a autor/a, que reagia se fazendo de inocente, continuava como se nada houvesse acontecido, mas o ‘pau costumava comer’. Ao término dos bailes carnavalescos, a orquestra dava os últimos acordes daquela tradicional musiquinha: “Ai,ai,ai,ai! ‘Tá chegando a hora,/ o dia já vem raiando, meu bem,/ eu tenho que ir embora.” Um momento de emoção com algumas lágrimas rolando. O salão mantinha ainda por alguns dias aquele odor perfumado como a dizer que no ano que vem tem mais.”

Em 1944, o Divinópolis Clube lançou um concurso de Carnaval, que premiou foliões em três categorias. O ‘Divinópolis Jornal’ registrou a folia e noticiou o concurso elegido no grêmio. Foram estas as categorias e vencedores:

1ª foliana: Célia Dutra — prêmio oferecido pela Casa Nova Oriente
1ª fantasia: Irma Epifânio — prêmio oferecido pela Casa Nova Ltda
1º folião: Ramon Lago — prêmio oferecido pela casa Ao Novo Mundo

Registro do ‘Divinópolis Jornal’, de 1944, sobre o concurso carnavalesco daquele ano organizado pelo Divinópolis Clube / Acervo Digital da Biblioteca Nacional.

Havia também o Carnaval do Ferroviário Atlético Clube, do bairro Esplanada, comum entre os funcionários da ferrovia, e também o do Baile da Prefeitura, para os tipos mais populares. O Clube Recreativo Operário também disputava atenção dos carnavalescos da classe trabalhadora nesta época. 
Mais tarde, a partir dos anos 1950, também aparece o Carnaval do Estrela do Oeste Clube, presidido por José Alonso Dias, que adquiriu o antigo salão do Divinópolis Clube, na esquina da Avenida 1º de Junho com Rua Rio de Janeiro. Posterioemente, em 1970, o Estrela do Oeste concluiu as obras de sua sede própria, na Rua Rio de Janeiro, onde passou a celebrar seu carnaval.

Outro local onde o Carnaval ganhava alegria na folia de fevereiro era no antigo salão e restaurante do Íris Hotel, localizado no mesmo prédio atual, na esquina da Avenida 1º de Junho com Rua Rio de Janeiro. A festa era animada pelos seus proprietários, Dona Íris e o sr. Francisco Teodoro da Silva, o “Chiquinho Teodoro”. 

Registro do Carnaval do salão e restaurante do Íris Hotel, em 1958 / Acervo EmRedes

Após década de 1950 surgem algumas escolas de samba, como o Rancho Tupy, do Nonô, a Unidos do Niterói, a do Flamengo Esporte Clube, do Palmeiras Futebol Clube, do Guarani Esporte Clube e do Ferroviário Atlético Clube.

Em 1952, Nonô, atendendo os anseios da populção, iniciou a organização do carnaval de rua por conta própria. Nesta época, o desfile de rua da cidade volta a ganhar destaque. Surgem então os grandes comboios, as alas e toda a alegoria que voltava a pisar na avenida, alegrando a cidade como um todo. Naquele ano, o Bloco Rancho Tupy desfilou com maior estrutura, composto de três carros alegóricos: o primeiro, com um cisne puxando a carruagem que levava o Rei Momo, Tio Nelson, além da Rainha e da Princesa do Carnaval; o segundo puxava homenagem ao esporte divinopolitano; e o terceiro carro levava dois índios, o “Filho do Fogo” e o “Sobrinho do Trovão”. 

Valdete Viriato representando na avenida o Grupo “Os Metralhas”, no carnaval divinopolitano nos anos 1970 / Acervo Grupo Memória de Divinópolis.

É impossível falar do Carnaval de Divinópolis sem citar duas grandes personalidades que animaram a folia na terra do Divino: o sr. Nelson Pelegrino, o “Tio Nelson” e o Maestro Ivan Silva.

O primeiro, se perpetuou no carnaval da cidade como eterno Rei Momo, do qual vestiu a fantasia por mais de 40 carnavais seguidos! Simplesmente reinou perante a folia, ganhando passe livre em todos os desfiles e clubes carnavalescos da região. Além da brincadeira, presidiu também a famosa e inesquecível “República do Tio Nelson” de rapazes lá hospedados, os quais acolhiam qualquer pessoa qua ali chegasse. Foi também marcador de quadrilhas nas festas juninas e das barraquinhas, que anivama a Rua Rio de Janeiro nas noites de São João. No Natal, era também o Papai Noel, alegria garantida para a criançada. Foi ainda alfaiate e sócio-fundador do Lions Clube de Divinópolis. 

Tio Nelson Pelegrino, Rei Momo do carnaval, e a Rainha do Carnaval de Divinópolis, Angela Maria, em 1972 / Acervo Grupo Memória de Divinópolis.

Já o Maestro Ivan Silva, filho desta cidade, onde nasceu, no Íris Hotel, pertencente à sua família, e onde viveu toda uma vida. Foi grande ativista da cultura, dos movimentos culturais e musicais desta cidade. Além disso, foi colunista social, criou, lançou e promoveu diversos eventos sociais, em que tinha um talento inconfundível. Ajudou a fundar o Jornal Agora, criou e batizou o “Troféu Status”, a boate e o grupo ‘KaSamba’. 

Ivan Silva, fantasiado de pirata no carnaval, nos ano 1960 / Acervo EmRedes.

Era um excelente pianista, que o levou a diversas performances veneráveis. Com o talento, formou o conjunto musical com seu próprio nome, o qual ficou famoso nesta Divinópolis e em toda Minas Gerais. Presença constante nas festas, era muito solicitado para bailes de gala de alta classe. Apresentava concursos de beleza, de misses e demais agendas sociais. Amava o Carnaval, e sempre se apresentava na festa com roupas e fantasias impecáveis. Chegou, inclusive, a desfilar no carnaval do Rio de Janeiro, pela Portela, nos anos 70. Acima de tudo, era um ser humano encantador, que morreu muito cedo e que muitas saudades deixou. Hoje seu nome homenageia a Escola de Música Maestro Ivan Silva, anexa ao Teatro Usina Gravatá.

Maestro Ivan Silva, à esquerda, ao lado de Tio Nelson, de Rei Momo, à direita. Duas lendas do Carnaval de Divinópolis / Acervo EmRedes.

Com o tempo, o Bloco Rancho Tupy se tornou a grandiosa Escola de Samba Tupy, ainda sob os auspícios do Seu Nonô e Dona Oralda, que abrilhantaram com gala o desfile que irrompia as ruas do centro da cidade, transformando a Avenida 1º de Junho numa versão não carioca, mas candidé, da Maquês de Sapucaí. 

Palmerio Ameno também registra sobre a histórica Escola de Samba de Nonô e Oralda:

“(…)As classes populares se contentavam com os desfiles da Escola de Samba Tupy , do grande Nonô, que era marceneiro de profissão e carnavalesco por vocação. Ele e a Dona Oralda, sua esposa, se transformavam em Rei e Rainha e faziam das ruas divinopolitanas, o verdadeiro tapete vermelho por onde desfilavam toda sua majestade (…)“.

Dona Oralda, Tio nelson Pelegrino como Rei Momo e Nonô, da Escola de Samba Tupy, no Carnaval dos anos 1970 / Acervo Salete Michelini.

Seu Nonô era o apelido de Antônio Venâncio Rosa, natural de São João del Rei, veio a trabalho para Divinópolis em 1939. Mesmo convivendo sem incentivos financeiros e com muitas dificuldades, seu Nonô nunca deixou se desanimar nem de festejar o Carnaval. Desfilava sempre com seu grupo de foliões pela avenida, formando a famosa a Escola de Samba Tupy, que por muitos anos animou nossa festa. 

Junto com sua grande parceira, sua esposa Dona Oralda, transbordaram exemplo de amor ao Carnaval. Nonô faleceu em 1994, aos 71 anos de idade, levando consigo um pouco da alegria carnavalesca desta cidade. 

“Abram Alas, deixem o Nonô passar!” Nonô, vestido de índio e montado a cavalo, numa de suas impecáveis fantasias de carnaval, nos anos 1980 / Acervo Salete Michelini.

Outro famoso na época era o “Bloco dos Sujos”, que irrompia as ruas da cidade em alegria e perversão. Segundo Palmério Ameno, ali “os homens surrupiavam vestidos dos guarda roupas das mães, esposas e irmãs e saiam faceiros, cada um mais feio do que o outro, turbinados pela cachaça, que é um santo remédio contra todas as inibições” e festejavam pelas ruas, travestidos de mulher. A gandaia durava todo o dia, a noite e varava as madrugadas, até na quarta-feira final. 

Na época, o Carnaval era muito esperado pela população, que meses antes já preparava o figurino para dias de folia. “Na velha Divineia, carnaval era coisa importante, as pessoas se preparavam bem antes para os bailes do Divinópolis Clube e, tempos depois, do Estrela”, descreveu Palmério, que por ano presidiu o Divinópolis Clube. “Minhas amigas de adolescência caprichavam no figurino, se transformando em havaianas, baianas, num conjunto de cores que nos deixavam mais apaixonados ainda, pelas belezuras e pelas barriguinhas, ano inteiro escondidas, agora mostradas com gosto, graças ao santo Carnaval!”, continua. 

Jovens “índigenas” do carnaval do Divinópolis Clube, dos anos 1970 / Acervo EmRedes.

Um elemento imprescindível no Carnaval de antigamente na cidade era a presença do Lança-Perfume. Vendido em garrafinhas de vidro, que geralmente vinham importadas da Argentina ou do Paraguai, o Lança-Perfume dava o toque final na festa momesca de outrora, numa atmosfera atemporal. 

“(…)Esse líquido, ao ser espargido, gerava uma sensação de congelamento na pele. Vinha acondicionado em tubos metálicos, os famosos ‘rodoros’, sob forte pressão. Havia quem colocava um em cada bolso da camisa. Era um ‘charme’ daquele tempo. Aparentemente, uma diversão inofensiva e até crianças os portavam nos bailes infantis; paqueravam-se moças com tais esguichos. Guardava-se o perfume em toalhinhas, lenços, para recordação daquele carnaval (…)”, destaca Palmério. 

Essa delícia perfumada, gelada, inocente e até ‘infantil’fez do “lança-perfume”, considerado, antes, romântico, alegre, uma droga, acabou proibitiva e criminalizada. Em 1961, no rápido conservador governo de Jânio Quadros, o lança-perfume acabou proibido em todo território nacional. É claro que não deixou de ser usado, de uma hora para outro, mas sua compra acabou restrita, os preços subiram, e aos poucos, deixou de alegrar e perfumar as festas carnavalescas. 

Baile de Carnaval em Divinópolis, nos anos 1960. na imagem, figuras como Tio Nelson como Rei Momo, Rosenval Hudson de Oliveira, Maestro Ivan Silva, os músicos Tony Kinho e Siqueira, além da Rainha Ana Pera / Acervo Grupo Memória de Divinópolis.

“Eu cantava, com gosto, junto de minha mãe, a ‘Jardineira’, ‘O Mal me Quer’, ‘As Pastorinhas’, ‘O Teu Cabelo Não Nega’ e mais um repertório infinito que representava a inocência de um Brasil que ficou no passado. Agora, neste tristes tempos atuais, o Carnaval tem o gosto amargo de uma eterna Quarta-Feira de Cinzas, onde a remissão dos pecados está na ordem do dia. Me resta ser renitente e cantarolar bem baixinho, um ‘Alah La Ô’, reclamando do calor, e voltar a cantar as marchinhas que ainda guardo na memória. Assim transformo minha casa nos salões do Divinópolis Clube e tenho as lembranças dos velhos amigos, aqueles que partiram e os que estão entre nós, no tal bloco da saudade.” Palmério Ameno.

A partir de 1971 os desfiles de carnaval passaram a cargo da Prefeitura Municipal. Até então, os desfiles somente saíam às ruas devido o esforço e organização de pessoas que gostavam e que mantinham vivo o espírito carnavalesco. A mudança deu novos rumos ao carnaval de rua da cidade, que passou a ter regulamento e também divisões, entre primeiro e segundo grupo. Tal divisão se deu, primeiramente, deviso a classificação de cada escola, decorrendo também de seu tamanho e número de integrantes. 

Passou-se também a haver uma banca julgadora para avaliar as escolas, diante dos quesitos estabelecidos, como Comissão de Frente, Bateria, Mestre Sala e Porta Bandeira, Samba-Enredo, Fantasia, Harmonia, Evolução, Alegoria e Adereços. 

Os desfiles ocorriam entre o domingo e a terça-feira mágica, na Avenida 1º de Junho. As escolas se aglomeravam, no final da tarde e início da noite, na Praça da Catedral, desfilando pela via principal da cidade até a Rua Goiás.

Seu Nonô e Dona Oralda, da Escola de Samba Tupy, recebendo do então Prefeito de Divinópolis, Antônio Martins Guimarães, o prêmio de Campeão do Carnaval de 1974 / Acervo Grupo Memória de Divinópolis.

Neste período, destacaram se a Escola da Samba Tupy, do Nonô e a recém-fundada Escola de Samba Metralhas, de Ivan Silva, que passaram a fazer grande rivalidade na avenida. As demais organizações carnavalescas vinham dos bairros, como a Escola de Samba Os Carrascos, criada do Bloco Caricato da Vila Cruzeiro; o Grêmio Recreativo Império do Novo Mundo, que pisou na avenida pela primeira vez em 1974; a Escola de Samba Unidos do Divino, de Jorge Miranda, fundada em 1976; a Escola de Samba Santa Cruz, do São João de Deus, fundada pelo senhor Expedito em 1978; o Grêmio Recreativo Unidos do Guarani, de 1979, do sr. Hélio Evangelista; e o Grêmio Recreativo Escola de Samba Princesa do Oeste, do Estrela do Oeste Clube, de José Alonso Dias, que representavam o expoente do esporte local; a Escola de Samba Andorinhas da Serra; a Unidos da Vila, o Grêmio Recreativo Monte Líbano, entre outras, que garantiram o espetáculo na época. 

Ivan Silva na presença ilustre de Elke Maravilha no carnaval divinopolitano, nos anos 1980 / Acervo EmRedes.

Em 1980, Nonô da Tupy entrou na festença comemorando seus 28 anos de pé na avenida com o enredo “Primavera em Festa” e o samba “Falei das Flores”, música e letra de Afonso Teixeira. Nos anos 1980, a Tupy e a Santa Cruz passaram a ser as maiores escolas do carnaval divinopolitano, a qual disputavam o título oferecido pela Prefeitura quase todos os anos.

Decoração da Avenida 1º de Junho para o desfile de Carnaval de 1987 / Acervo Salete Michelini.
Desfile de Carnaval em 1988, na esquina da Avenida 1º de Junho com Rua Rio de Janeiro / Acervo EmRedes.

A Escola de Samba Tupy abrilhantou o carnaval até as vésperas da morte de seu mestre Nonô, no início dos anos 1990. Com sua partida, morreu um pouco do carnaval divinopolitano, que no final daquela década deixou de realizar seu tradicional desfile após quase meio século. A cidade foi se tornando mais vazia e silenciosa no período. Esvaziada pelas festas em outras regiões, o Carnaval de Divinópolis teve sua última tentativa em 2001 quando a Prefeitura realizou o último desfile, reunindo algumas agremiações ainda sobreviventes, tentando atrir o povo, sem muito sucesso.

Registro do último desfile de Carnaval em Divinópolis, ocorrido em 2001 / Acervo do Grupo Memória de Divinópolis.
Populares durante o último desfile de Carnaval em Divinópolis, em 2001 / Acervo EmRedes.

A partir de 2003, Divinópolis passou a receber uma festa que arrastou foliões fora de época para a cidade: a Divina Folia, uma tentativa de fazer um “carnaval” divinopolitano animou a cidade no segundo semestre do ano, trazendo atrações nacionais e internacionais, como Ivete Sangalo, Chiclete com Banana, Tuca Fernandes, Cheiro de Amor, eFatBoysSlim, entre outras. Em 2019 o evento acabou sendo cancelado. 

Em 2016 surgiu o Bloco do Cléo, que organizou a primeira edição do Pré-Carnaval de Divinópolis. Em 2017, o evento ganhou maiores proporções, acompanhado por uma multidão que lotou as ruas do centro da cidade. Neste ano em questão, o Bloco se concentrou na Praça do Mercado na manhã do sábado, dia 18 de fevereiro, desfilando pelas Avenida Antônio Olímpio de Morais, Rua Coronel João Notini, Avenida 21 de Abril, Rua Rio de Janeiro, e Rua Oswaldo Machado Gontijo, na parte da tarde. 

Com o sucesso, o evento reunido pela Prefeitura se tornou oficialmente o Pré-Carnaval divinopolitano, reunindo 60 mil pessoas em 2018 e 80 mil em 2019. Em 2020, antes da Pandemia, o Pré-Carnaval teve seu local alterado, deixando as ruas do centro da cidade, e sendo realizado na Rua Pitangui. Não realizado em 2021 e 2022 devido às restrições de saúde, o evento retornou em 2023, sendo realizado desde então no alto da Avenida Paraná, nas proximidades da nova sede da Prefeitura de Divinópolis. 

Pré-Carnaval de Divinópolis em 2018 / Acervo Foto: Bloco do Cléo/Divulgação.

FONTES:

Referências Bibliográficas:

AMENO, Helena A. e VENÂNCIO, Daniel F. Divinópolis no Carnaval. Leando Pena Catão, João Ricardo Ferreira Pires e Batistina de Sousa Corgosinho (org.). Divinópolis História e Memória. Volume 3: Economia e Cultura. Belo Horizonte: Crisálida, 2015

AZEVEDO, Francisco G. e AZEVEDO, Antônio G. Da Historia de Divinópolis. Divinópolis, 1988.

BARRETO, Lázaro. Memorial de Divinópolis. Divinópolis, 1992.

LARA, José Dias. Divinópolis Com Amor e Humor. Divinópolis: Fortil, 1987.

MOURÃO, Ana Maria. Mamma Mia e a Poeira de Minas. Gráfica Real, 2003.

Jornais: 

Jornal “A Estrella da Oeste”: Ano I, edição 12, de 25 de fevereiro de 1923. Acervo EmRedes.

Jornal “Divinópolis Jornal”: Ano X, edição s/nº, de fevereiro de 1944. Acervo Digital da Biblioteca Nacional.

Sites: 

Grupo Memória de Divinópolis / Facebook: https://www.facebook.com/share/g/1631KYWWR1/

Portal da Memória do Centro-Oeste Mineiro / EmRedes: https://emredes.com.br/index.php