Especialista da USP explica origem de tremores de terra em Divinópolis; acompanhe entrevista - Portal MPA

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Especialista da USP explica origem de tremores de terra em Divinópolis; acompanhe entrevista

Postado em 20/01/2022 7:36

Os abalos sísmicos ou tremores de terra geralmente ocorrem quando as rochas estão sob grande pressão, vinda do interior do planeta. Essa pressão exerce uma força nas rochas (placas tectônicas). No geral, os abalos sísmicos ocorrem nas áreas de contato dessas placas.
A reportagem do Sistema MPA de Comunicação conversou com Bruno Colaço, que faz parte do departamento de Sismologia da USP-SP, para entender a origem dos tremores de terra em Divinópolis, do dia 10 de Janeiro até 19 de Janeiro. De acordo com Bruno Colaço, quando questionado sobre a origem dos tremores, ele disse que tanto em Minas Gerais como em outras partes do Brasil, os tremores de terra naturais ocorrem por deslizamento repentino em falhas ou fraturas geológicas causado pelo acúmulo de tensões geológicas (“pressões internas”) a que a crosta está submetida. Estas tensões se devem às forças tectônicas que movem a placa Sul-Americana onde o Brasil está inserido.
Ao ser questionado se seria aconselhável uma equipe da USP em Divinópolis para fazer análise, Bruno relatou que seria aconselhável a instalação de uma estação sismográfica na região epicentral para poder monitorar os eventos menores que não são registrados pelas estações da rede brasileira e da Vale. Isso demanda a disponibilidade de pessoas, equipamentos e recursos. Ele acrescentou que as análises são feitas com base nos dados de estações sismográficas que pertencem a Rede Sismográfica Brasileira e outras estações da Rede Sismográfica da Vale, que tem parceria com o Centro de Sismologia. Juntamente com os dados dos instrumentos são avaliados também os relatos das pessoas que são enviados através da plataforma Sentiu Aí no site da USP.
 
 
Sobre região que teve mais relatos de tremores em Divinópolis:

Segundo Bruno Colaço, os epicentros estão mais próximos do bairro Candidés, o mais afetado com intensidades até IV ou V na escala Mercalli Modificada, (correspondendo a barulho de portas e janelas, por exemplo), sem danos comprovados. Sismos de magnitude 3 podem ser sentidos até 10 km de distância e mais raramente até 20 km. “Pequenos tremores em Minas Gerais são mais frequentes do que a média brasileira, Sismos de magnitude 3,0 são bastante comuns no Brasil e em Minas Gerais. O estado já presenciou sismos de magnitudes bem maiores, como os de São Francisco de 1931 e o de Itacarambi de 2007, no norte do estado, ambos com magnitudes 4,9 e intensidades máximas de VI e VII. Os tremores podem ocorrer com padrões diferentes. Boa parte dos tremores ocorrem de maneira isolada com um único tremor principal, seguido às vezes por uma série de réplicas menores. E outros casos os tremores ocorrem na forma de um “enxame” de sismos (ou “surtos”) que podem demorar vários dias, semanas e, mais raramente, até vários meses. Em Minas Gerais o melhor exemplo de surtos de sismicidade ocorreu na cidade de Bom Sucesso: primeiro durante vários meses em 1901, depois em 1903, em 1919-1920, em 1935-1936, e em 1939-1940″, frisou.

Último sismo registrado em Divinópolis antes dos sismos desse ano de 2022:

“Em Divinópolis, o último sismo de que temos registro foi em 11-Julho-1990 com magnitude 2.8, também sem nenhum dano relatado. Como não há como prever a evolução da atividade sísmica, não dá pra saber se os tremores continuarão ocorrendo nos próximos dias”, finalizou.

Veja depoimento de Bruno Colaço e abaixo o relatório completo dos abalos sísmicos em Divinópolis do dia 10 ao dia 19 de Janeiro:

Relatório Completo sendo 29 tremores de terra em Divinópolis no período de 10 a 19 de Janeiro:

Entre 10 e 19 de Janeiro (até 17h), 29 tremores de terra em Divinópolis foram localizados pelas estações da Rede Sismográfica Brasileira e da Rede Sismográfica da VALE no Quadrilátero Ferrífero. As magnitudes variam entre 3,0 (o maior do primeiro dia, 10/Jan) a 1,6. Os epicentros estão próximos do Bairro Candidés, na parte NE da cidade onde o tremor foi mais sentido. As máximas intensidades foram IV a V na escala Mercalli Modificada (correspondendo a barulho de portas e janelas, e queda de alguns objetos, por exemplo), sem danos comprovados. Mais de 500 relatos da população foram enviados ao Centro de Sismologia da USP, o que permitiu melhor estimar a localização do epicentro.

Esses tremores ocorreram numa região de Minas Gerais, em torno de Belo Horizonte, com um longo histórico de sismos no passado. Não há razão para acreditar que não se trate de atividade sísmica natural, sem relação com atividade exploratório de pedreiras, ou com enchimento rápido do reservatório do Gafanhoto. Possível relação com chuvas intensas no último mês é pouco provável e muito difícil de comprovar. O padrão de tremores ocorrendo durante vários dias (“enxame” de sismos) não é incomum. Sismos de magnitude 3,0 são bastante comuns no Brasil e em Minas Gerais. O estado já presenciou sismos de magnitudes bem maiores, como os de São Francisco de 1931 e o de Itacarambi de 2007, no norte do estado, ambos com magnitudes 4,9 e intensidades máximas de VI e VII MM (trincas e rachaduras em paredes). Essa série de tremores em Divinópolis parece fazer parte de uma zona de sismos mais frequentes que inclui o Quadrilátero Ferrífero. Sismos naturais são totalmente imprevisíveis e não é possível saber até quando a atividade continuará, se as magnitudes vão diminuir ou se vão aumentar.

Efeitos dos tremores relatados pela população
Segundo informações, por ocasião do primeiro tremor de 10/Jan, moradores da parte norte da cidade relataram “estrondo, depois portas, janelas e móveis se mexeram”, o que corresponde a intensidade IV MM (escala Mercalli Modificada). Estas informações iniciais foram confirmadas pelas centenas de relatos de moradores de Divinópolis, como descrito a seguir. A página do Centro de Sismologia da USP (http://www.sismo.iag.usp.br/eq/dyfi) recebeu centenas de relatos de moradores com descrição dos efeitos dos tremores.

Histórico de sismicidade em Minas Gerais
Pequenos tremores em Minas Gerais são mais frequentes do que a média brasileira. No passado, já ocorreram tremores de magnitude até 4,9 em Minas Gerais, principalmente na parte Norte do estado: São Francisco 1931 (m=4.9), Itacarambi 2007 (m=4.9), Montes Claros 2012 (m=4.0). Sismos acima de 4, como esses anteriores, podem causar pequenos danos em algumas casas (trincas em paredes, queda de reboco e de telhas). No caso de Itacarambi de 2007, várias casas de construção precária desabaram no bairro de Caraíbas, e os moradores foram reassentados em outro local pelo governo estadual.Sismos em Minas Gerais. Fonte: catálogo de sismos brasileiros do Centro de Sismologia da USP.

Causas da sismicidade
Tanto em Minas Gerais como em outras partes do Brasil, os tremores de terra naturais ocorrem por deslizamento repentino em falhas ou fraturas geológicas causado pelo acúmulo de tensões geológicas (“pressões internas”) a que a crosta está submetida. Estas tensões se devem às forças tectônicas que movem a placa Sul-Americana. 

A barragem de Gafanhoto
Embora alguns reservatórios hidrelétricos possam induzir tremores de terra, esse fenômeno só ocorre em reservatórios com grande profundidade (mais de 30 ou 50 m; o caso de Cajuru, com apenas 20 m, é uma exceção a nível mundial). Além disso, os epicentros dos tremores induzidos por reservatórios estão dentro do lago ou nas suas margens. A barragem de Gafanhoto está a 2.5 km do epicentro macrossísmico (Fig. 7), bem fora da área de influência do reservatório. Portanto, a possibilidade dos tremores terem alguma relação com a barragem é extremamente remota e pode ser descartada. Mais improvável ainda seria alguma relação com o reservatório de Cajuru devido à grande distância dos epicentros.

Pedreiras
Exploração em pedreira raramente causa tremores de terra. Os poucos casos conhecidos (tanto na literatura como no Brasil) são de extração de enormes quantidades de rocha deixando uma cava com mais de 100 m de profundidade. Esse tipo de extração de rocha pode provocar um alívio das pressões verticais logo abaixo da pedreira. Dependendo da orientação e magnitude das tensões geológicas existentes, este alívio pode induzir pequenos tremores de terra. Neste caso os focos dos sismos estarão também logo abaixo da cava ou nas suas beiradas. Os tremores de Divinópolis estão longe das pedreiras Dibrita (2.2 km) e MBL (3.4km). Portanto, pode-se também descartar a possibilidade de efeito das pedreiras mencionadas.

Chuvas intensas
Como estamos em período de chuvas intensas, incluindo inundações catastróficas e pluviosidade bem acima da média histórica, é natural perguntar-se se chuvas intensas podem, de alguma maneira, causar tremores. Em princípio, um aumento significativo da pressão da água em fraturas a alguns km de profundidade poderia facilitar o deslizamento de blocos causando tremores. Esse é o mecanismo principal dos sismos induzidos por reservatório hidrelétricos. No entanto, apenas muita chuva e alagamento não são capazes, normalmente, de aumentar a pressão da água a alguns km de profundidade a ponto de desestabilizar alguma falha geológica. Há alguns casos raros, comprovados na literatura, de tremores induzidos por chuva. Chama-se a isso de “hidrossismicidade”. Mas deve-se lembrar que, estatisticamente, os tremores naturais ocorrem com igual probabilidade durante o ano inteiro, tanto nas épocas de chuva como nas épocas de estiagem. É muito difícil comprovar a hipótese de hidrossismicidade pois exigiria um acompanhamento de alguns anos (pra ver se os tremores diminuem na estiagem e voltam a aumentar nas chuvas seguintes). Além disso, seria preciso um monitoramento sísmico de detalhe para acompanhar a evolução dos sismos, suas profundidades e mecanismos de falhamento. Considerando que chuvas intensas têm ocorrido em várias partes do Brasil e não se constatou nenhum aumento da sismicidade em outras regiões, a hipótese de influência das chuvas nos tremores de Divinópolis deve ser considerada muito remota.Conclusões Tudo indica que os tremores de terra em Divinópolis são de origem natural e fazem parte de um “enxame” sísmico similar a outros casos de sismicidade no Brasil. Infelizmente, não existe técnica comprovada que permita prever a evolução da sismicidade. São raros os casos em que os tremores aumentam em frequência e magnitude a ponto de causar danos sérios, mas não se pode descartar totalmente esta possibilidade. No entanto, a chance de danos maiores é remota.