Na manhã deste domingo (6), a cidade de Belo Horizonte registrou duas prisões de homens suspeitos de agredir suas companheiras em episódios ocorridos em bairros distintos, nas regiões Norte e Noroeste da capital. Os casos, que aconteceram em um intervalo de poucas horas, revelam uma sequência de violência doméstica que, em ambos os casos, já tinha sido reportada anteriormente pelas vítimas às autoridades policiais.
No bairro Pindorama, na Região Noroeste, uma mulher de 43 anos foi encontrada com hematomas no rosto após vizinhos ouvirem seus gritos de socorro e acionarem a Polícia Militar (PM). A vítima revelou que o suspeito, de quem já estava separada, invadiu sua residência no fim da noite de sábado (5), desrespeitando uma medida protetiva que determinava seu afastamento. Para resgatar a vítima, os policiais precisaram pular o muro da casa para entrar no imóvel, onde encontraram sinais de desordem, objetos quebrados e sujeira. Segundo ela, o ex-companheiro, que faz uso frequente de álcool e drogas, a agrediu com força, apertando sua boca e braços, o que a fez cuspir sangue. A mulher também relatou episódios anteriores de violência, incluindo uma ocasião em que o suspeito teria amordaçado e ameaçado ela com uma faca, prometendo cortar seus olhos e tendões para impedir que ela pudesse andar novamente.
O suspeito negou as agressões durante depoimento, alegando apenas que havia “contido fisicamente” a ex-companheira, e admitiu ter antecedentes criminais por tráfico de drogas e homicídio. Ele foi preso em flagrante e encaminhado à Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam).
Horas depois, na região do bairro Ribeiro de Abreu, na Zona Norte, outro homem, de 28 anos, foi detido sob suspeita de violência contra a namorada, incluindo uma tentativa de feminicídio. De acordo com o boletim de ocorrência, a vítima sofreu socos, chutes, teve os cabelos puxados e foi alvo de uma tentativa de mordida, apresentando hematomas e lesões na boca, braços e costas. A mulher relatou que o agressor tentou matá-la ao pegar um revólver e disparar contra ela, porém a arma falhou. Após a tentativa, o suspeito teria jogado a arma em um imóvel vizinho, onde ela não foi localizada. Na residência do casal, os policiais encontraram outro revólver calibre .22, com a numeração raspada, além de 95 munições, sendo 4 deflagradas e 7 de calibre .32.
Após as agressões, a vítima, que também possui uma filha de três anos, informou que chamaria a polícia, momento em que o suspeito fugiu. Ele foi localizado posteriormente em um shopping no centro de Belo Horizonte. Segundo ela, episódios de violência e ameaças de morte contra ela já haviam ocorrido anteriormente, e a criança também presencia parte dessas agressões.
O suspeito confirmou que havia se desentendido com a namorada, mas não apresentou detalhes sobre as agressões ou a tentativa de feminicídio. Ambos os homens foram presos em flagrante e encaminhados às autoridades policiais competentes.
Os casos ilustram um problema recorrente na capital mineira. Dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) indicam que, entre janeiro e julho de 2023, Belo Horizonte registrou 11.855 vítimas de agressões contra mulheres, o que representa uma média de quase 56 ocorrências diárias ou aproximadamente duas por hora. Esse número mostra um aumento de 8,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando foram contabilizados 10.931 casos. No total, em 2022, a capital mineira registrou 19.150 ocorrências de violência contra a mulher.
Outro aspecto preocupante é a presença de crianças durante episódios de violência doméstica. Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, conduzida pelo Instituto DataSenado em parceria com o Nexus e o Observatório da Mulher contra a Violência, revela que sete em cada dez casos de agressão no ambiente doméstico são presenciados por crianças. O estudo ouviu 21.641 mulheres e constatou que 71% das agressões ocorrem na presença de outras pessoas, das quais 70% eram crianças, muitas vezes os próprios filhos das vítimas.
A pesquisa também aponta que mais da metade das mulheres (58%) convivem com agressões há mais de um ano, evidenciando o ciclo de violência de longa duração. Além disso, o levantamento indica um baixo conhecimento da legislação de proteção às vítimas: 67% das mulheres afirmaram conhecer pouco a Lei Maria da Penha, enquanto 11% disseram desconhecê-la completamente. Tal desconhecimento é ainda maior entre mulheres de baixa renda e escolaridade, grupos considerados mais vulneráveis à violência de gênero.
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