Atlético “em casa” comemora 112 anos

Postado em 25/03/2020 12:00

O aniversário de 112 anos do Atlético-MG será celebrado pela torcida em meio à pandemia mundial do coronavírus. As comemorações ficam restritas nas casas dos alvinegros. Essa data ajuda o Galo a lembrar do passado, que ajuda também a olhar para o futuro. Por falar em casa, é em um novo estádio que o clube se baseia para garantir força financeira e títulos. A Arena MRV, entretanto, só ganhou condições de vida pois, há décadas, uma antiga moradia do Atlético foi resgatada. Essa história, que envolve o antigo estádio Antônio Carlos,tem batalha jurídica no STF, a construção do maior patrimônio do Galo e o sonho da casa própria.

Após aprovações internas e de órgãos públicos, o Atlético tem toda a documentação para inciar as obras da Arena MRV, com prazo de 28 meses para concluir. E o clube só tem o centro comercial como patrimônio pois, em 1988, conseguiu resgatar o terreno onde era o antigo Antônio Carlos após briga na Justiça contra a prefeitura de Belo Horizonte.

Um dos advogados responsáveis pela ação que atravessou mais de 10 anos é Francisco Moreno Netto. Jornalista, com passagens pela Itatiaia, Itacolomi, TV Vila Rica e também pela TV Globo, o conselheiro do Galo formou o trio de advogados que conseguiu reaver o terreno de Lourdes para a posse do clube. Era o pontapé inicial para que o projeto da Arena MRV tivesse o mínimo de chance de sair do papel. Quando veio a vitória no Supremo Tribunal Federal, Moreno Netto lembra que foi como um título:

“Nós soltamos foguetes na sede do Atlético! Me sinto glorioso por ter ajudado o Atlético a vencer a batalha de devolução do terreno. Foi um ‘presentaço’ para o clube. Agora, se Deus me permitir, quero conhecer a Arena MRV”

O estádio Antônio Carlos virou a redenção do Atlético esportivamente no fim da década de 1920. Era o primeiro campo com arquibancadas sofisticadas da história do clube. O Galo recebeu o terreno da prefeitura, uma vez que o órgão municipal precisou reaver o campo da Avenida Paraopeba (hoje Augusto de Lima). Em outubro de 1916, o prefeito Cornélio Vaz de Mello assim autorizava o uso do terreno em Lourdes pelo Atlético:

Art. 1º – Fica o Prefeito autorizado a conceder ao Club Athletico Mineiro, mediante a prova legal de sua organização, o terreno que actualmente occupa, ou outro que fôr julgado conveniente aos interesses da Prefeitura, para nelle a referida Associação estabelecer o seu campo de esport e, de accordo com a legislação em vigor, effectuar a construcção de archibancadas e outras obras necessarias aos seu fim. O terreno concedido será inalienavel e reverterá com todas as bemfeitorias ao dominio da Prefeitura, no caso de dissolução da sociedade.

O Estádio Antônio Carlos seria inaugurado em 1929. Entretanto, com a chegada de arenas maiores – Independência em 1950 e Mineirão em 1965 -, o campo de Lourdes se tornou obsoleto e serviu para poucos jogos na década de 1960. Passou a ser, então, o local de treinamentos das equipes e alojamento dos times de base. Até que, na virada dos anos 60 para a década de 1970, prestes a ser campeão brasileiro, o Galo acumulava dívidas com bancos e achou no Antônio Carlos uma maneira de saldar os débitos.

Primeiro com o presidente Eduardo Magalhães Pinto, em 1967. Carlos Alberto Naves, seu vice e sucessor, queria implementar um Parque Esportivo no Antônio Carlos, migrando os locais de treino para a atual Vila Olímpica, ainda inexistente. Depois, o plano passou a ser hipotecar o velho estádio para a Caixa Econômica Federal por um ano, ideia discutida em reunião do conselho em dezembro de 1969.

O jeito foi se desfazer do Antônio Carlos para a Prefeitura, que queria construir áreas de lazer e praças de esporte na capital mineira. A situação foi decidida no Galo em 1971. Tanto que, já campeão nacional, o Atlético tentava ser novamente dono do estádio, já na posse da Prefeitura. O que valeu nota com teor irônico da Revista Placar: “Atlético quer de graça o que vendeu caro”

O presidente do Galo, Nelson Campos, em conversa com o então governador Rondon Pacheco na recepção dos campeões, afirmava: “Todo bom filho que passa de ano merece um presente dos pais. O presente do Atlético só custa cr$ 3 milhões”. Nos jornais da época, era dito que a dívida do Galo girava em cr$ 4 milhões, e que o terreno do Antônio Carlos era avaliado em cr$ 3,5 milhões. O sacrifício do antigo estádio valeu a redenção alvinegra na época. Mas foi sua retomada, anos depois, que garantirá a promessa de prosperidade.

Foi folheando o Diário Oficial do Município que o advogado e jornalista Francisco Moreno Netto sofreu aqueles momentos de luz interna, a famosa “eureka” de Arquimedes. Viu a lei de desapropriação do Antônio Carlos e, ali, uma margem para que o Atlético, sem precisar de “presentinho” dos órgãos públicos, tivesse novamente a posse do terreno valioso em Lourdes. Ao pegar o local, a Prefeitura instituía a finalidade de usá-lo como sede administrativa. Entretanto, tinha prazo para tal e, se usasse o terreno para outros fins, dava a chance de o Atlético reaver o lugar pelo preço da desapropriação.

A Prefeitura jamais deixou a Avenida Afonso Pena, e o Antônio Carlos, asfaltado e com apenas parte das arquibancadas ainda originais, virou um centro de lazer para diversas atividades esportivas e de entretenimento. Modesto Netto explica, então:

“Acontece que, eu lendo uma lei municipal no nosso escritório de advocacia, encontrei nesta lei que dizia: “Se a Prefeitura negociar algum terreno municipal e esse terreno tivesse uma finalidade específica, estaria sujeito a devolução do terreno, se a construção não se iniciasse em um prazo de três anos”. A Prefeitura desapropriou o estádio, ele foi demolido. Mas, se a Prefeitura não destinasse o terreno para a construção da nova sede dela, o proprietário anterior – quer dizer, o Atlético – poderia reaver o terreno, se pagasse a mesma importância recebida, e com os juros de lei”.

Moreno Netto, já participante do dia a dia do Atlético no conselho deliberativo, praticava direito no escritório de dois outros colegas alvinegros: Demétrio Ornelas e o ex-presidente José Ramos Filho. Esse último foi o alicerce financeiro para a elaboração e continuidade da ação judicial Atlético x Prefeitura. Num primeiro momento, a própria direção do Galo não quis levar em consideração o que foi uma luta árdua. Após derrota em primeira instância, vitória em segunda, o caso foi parar no Superior Tribunal Federal.

Em 1988, o extinto Jornal dos Sports noticiava que o Atlético voltava a ter a posse do terreno de Lourdes, que viria a ser o bote salva-vidas de anos e anos de insuficiência econômica.

“Os diretores do Atlético estavam eufóricos ontem, e fizeram uma festa na sede de Lourdes para comemorar a decisão do Supremo Tribunal Federal, que lhe deu novamente a posse do antigo Estádio Antônio Carlos. O terreno foi desapropriado em 1970 pela Prefeitura, e o presidente do clube avalia os 13,7 mil m² em cerca de 10 bilhões de cruzados”. O Atlético fez um empréstimo bancário para ressarcir a prefeitura, e esta dívida foi herdada pela empresa que construiu o Diamond Mall.

“Nós soltamos foguetes na sede do Atlético! Quem foi para Brasília fazer a defesa oral foi o dr. Demétrio, que era o mais novo dos três. Nós não recebemos nenhum centavo de honorário. O dr. José Ramos financiou tudo e não cobrou nada do clube, por amor” – lembra Moreno Netto.

Atuando no Mineirão, treinando na Vila Olímpica e já projetando recursos para a chegada da Cidade do Galo (projeto elaborado na gestão de Elias Kalil), o Atlético resolveu arrendar o terreno, desta vez para a criação do shopping Diamond Mall.

Novamente, é o Jornal dos Sports que auxilia o guia da linha do tempo. Em 30 de julho de 1992, o periódico informava e tentava profetizar:

“O Atlético-MG acaba de firmar um contrato que pode significar sua independência financeira e transformá-lo num dos clubes mais ricos do mundo. No antigo estádio Antônio Carlos, no bairro de Lourdes, um dos mais valorizados de Belo Horizonte, o clube irá construir um shopping center (…) O investimento é de US$ 50 milhões e o prazo para a conclusão das obras é de 36 meses”.

O Diamond Mall demorou além do programado. Foi inaugurado em 1996, tendo a Multiplan, a empresa de calçados Elmo e a Usiminas como parceiras no empreendimento. Além do próprio Atlético, proprietário do shopping que, pelo contrato, teria direito a 15% da receita bruta dos aluguéis de lojas e estacionamento. O contrato de arrendamento era de 30 anos – até 2026. Mas foi ampliado até 2030 quando a Multiplan comprou 50,1% do Diamond para o Atlético ter receita para levantar a Arena MRV.

Após 10 anos da parceria que fez o Galo ser dono de shopping, o clube arrecadava R$ 3 milhões por ano (em valores corrigidos pelo IPCA, seria o equivalente a R$ 6 milhões). Para 2020, o Atlético prevê a arrecadação via Diamond Mall em R$ 10 milhões anuais. E a tendência é de aumentar. O shopping terá expansão e criação de novas lojas. Mais aluguéis, maior incidência dos 15% e mais dinheiro entrando. Neste tema, é o atual presidente Sérgio Sette Câmara que comenta.

“Vem aí uma expansão do Shopping, o Atlético não tem que desembolsar nada. Pelo contrato, todo o custeio da expansão, do andar novo do shopping, é pago pela Multiplan, que é uma obra de quase R$ 70 milhões. Ou seja, acrescenta mais R$ 35 milhões ao patrimônio do clube. O Atlético tem um percentual em cima do faturamento do shopping. Se você aumenta loja, você aumenta a base de cálculo e a base de incidência desses 15%. Quer dizer, 15% de R$ 1 mil daria R$ 150, 15% de R$ 2 mil daria R$ 300

Hoje, os 50,1% do shopping que o Atlético negociou por R$ 250 milhões já estão batendo a casa dos R$ 300 milhões. Agora, fica uma questão que já foi levantada, mas carece de análise profunda do conselho: o que fazer com os 49,9% que restou na posse do Galo?

São dois caminhos que se desenham. A partir de 2031, já com a Arena MRV no bairro Califórnia perto de completar 10 anos, o Galo passa a receber pouco menos da metade do faturamento anual líquido do Diamond Mall. Por outro lado, poderia negociar esse percentual restante por valores similares aos R$ 250 milhões e, assim, abater boa parte das dívidas. Discussão para o conselho deliberativo, conforme aponta Sette Câmara.

“Existe uma comissão hoje, que pedi para se formar lá (no Conselho). O dr. Castellar nomeou pessoas gabaritadas para analisar a situação financeira do clube e encontrar caminhos. Então, assim, acredito que isso (venda dos outros 49,9%) seja uma possibilidade. Mas não sei se é a melhor coisa, não. A gente tem que fazer cálculo. Consigo trocar a dívida que o clube tem hoje pelos 49,9% do Diamond? Você zeraria a dívida… Mas zera hoje e daqui a pouco vem outro gestor e aumenta a dívida outra vez. Então, estaremos sem shopping e endividados. Então, há razões de todos os lados. Se encontrarmos saída que não seja vendendo o shopping, ótimo. Mas se a única solução for essa”…

“É um movimento complicado. Para se fazer alienação de qualquer bem do clube, é preciso votação favorável de 2/3 do Conselho, e não é dos conselheiros presentes, não. E para fazer um processo desse, acredito que obrigatoriamente teria de se fazer também uma mudança do estatuto, criando regras rígidas de compliance, de governança, que engessassem de certo modo a diretoria a fazer amplos poderes, sempre passando por um conselho gestor. Então, acho que é momento complicado para se fazer isso, mas estamos tentando achar outros caminhos: cortes de custos que estamos implementando aos poucos. Ah, você trouxe o Sampaoli? Mas você tem que ver que é assim, o futebol é o carro-chefe. É investimento bom, com responsabilidade, e enxugar a máquina da melhor forma possível para ter sobra de caixa” – completou o presidente.

Outro movimento possível no Atlético, que envolve a construção da Arena MRV, é o deslocamento da sede administrativa para o complexo do estádio multiuso. Com isso, o Galo teria o prédio na avenida Olegário Maciel, em frente ao Diamond Mall, passivo de ser explorado financeiramente. Uma ideia pactuada por Sérgio Sette Câmara. “Mas eu sou um conselheiro só, né? Tem que ver o que os demais conselheiros vão achar. Na minha opinião pessoal, não é nem de presidente, mas de conselheiro, é que a sede do clube deveria ser onde é o estádio. Então, você concentra tudo em um local só. Mas você pode fazer, por exemplo, permuta daquela área ali da sede atual para uma construtora e pegar ali alguns andares, parte de lojas”. Cenas dos próximos capítulos da, até aqui, história de 112 anos.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 

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