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Reexibição de “Roque Santeiro” abre espaço para reflexão sobre o atual cenário da dramaturgia brasileira

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Imagem: Reprodução

A escolha da Rede Globo de exibir novamente a novela “Roque Santeiro” (1985), substituindo a reprise de “Além do Tempo” (2015) na programação de outubro da “Edição Especial”, surpreendeu parte do público e da crítica especializada. Essa decisão ocorre após o insucesso de “Rainha da Sucata” (1990), também apresentada no “Vale a Pena Ver de Novo”, o que levou a emissora a adotar uma postura mais cautelosa em relação às reprises de produções mais antigas. A aposta em uma novela de grande prestígio, como “Roque Santeiro”, que figura entre as maiores audiências da história da televisão brasileira, representa tanto um risco quanto uma oportunidade para a Globo avaliar a qualidade e a ousadia de suas produções atuais.

Ao longo da última década, a teledramaturgia brasileira tem se caracterizado por uma tendência de manter-se em uma zona de conforto, muitas vezes subestimando a capacidade do público de se envolver com enredos menos convencionais e personagens mais complexos. Nesse contexto, “Roque Santeiro” se destaca por sua abordagem crítica e por apresentar uma narrativa que foge do padrão tradicional de mocinhas e heróis virtuosos. A novela, escrita por Aguinaldo Silva e Dias Gomes, é reconhecida por seu enredo carregado de crítica social, abordando temas relevantes como a influência dos mitos na cultura brasileira, o uso da religião como instrumento de controle social e a mercantilização da fé.

A trama, exibida originalmente em 1985, foi marcada por sua habilidade de tratar assuntos delicados com sutileza e inteligência, sem cair no didatismo. Os autores conseguiram explorar essas questões por meio de personagens que representam tipos sociais diversos, evitando a caricatura e promovendo uma reflexão mais profunda. “Roque Santeiro” conseguiu equilibrar o melodrama e a emoção com uma abordagem crítica, o que contribuiu para seu sucesso de audiência e reconhecimento de qualidade. Sua narrativa combina entretenimento com uma análise social, evitando o panfletarismo, um problema recorrente em produções mais recentes.

A reexibição da novela, portanto, não apenas serve como uma oportunidade de resgate de um clássico da televisão brasileira, mas também como um momento de reflexão sobre o estado atual da dramaturgia nacional. A expectativa é de que essa iniciativa possa estimular os profissionais do setor a repensar suas abordagens, incentivando produções que tragam mais assinatura autoral e identidade criativa, sem receio de inovar ou de desafiar o público.

Por fim, embora não seja possível prever se “Roque Santeiro” conseguirá reverter a queda de audiência provocada por “Além do Tempo”, a sua exibição certamente oferecerá ao público e aos criadores de conteúdo uma oportunidade de recordar o que há de melhor na teledramaturgia brasileira. A novela permanece como um exemplo de como uma narrativa bem construída, com temas relevantes e personagens complexos, consegue resistir ao tempo e manter sua relevância, inspirando uma reflexão sobre os rumos atuais da televisão no Brasil.