Uma das principais editoras responsáveis pela publicação e tradução das obras da escritora norte-americana bell hooks no Brasil, a Editora Elefante, gerou polêmica nas redes sociais ao compartilhar um carrossel de imagens que continha a frase “A esquerda brasileira não tem projeto de mudança”. A publicação também apresentava o catálogo da editora, reconhecida por divulgar obras de pensamento crítico e autores ligados a debates sociais e políticos. A repercussão ocorreu em meio ao contexto político das eleições presidenciais de 2022, especificamente após o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, terminar o primeiro turno à frente do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, no cenário eleitoral brasileiro.
A postagem provocou uma onda de críticas por parte de diversos setores da sociedade. Entre as respostas, a deputada federal eleita pelo PT do Rio de Janeiro, Anielle Franco, afirmou que há projetos de mudança na esquerda brasileira. Ela destacou a existência de muitas iniciativas e pediu que não se desrespeitasse o país e seus atores políticos que atuam de forma democrática. Em sua declaração, ela afirmou: “Tem sim! Tem muitos inclusive! Não façam isso com esse país e com quem faz política democraticamente”. Sua manifestação reflete o entendimento de que a esquerda no Brasil possui propostas concretas e que a generalização contida na publicação da editora foi considerada injusta por parte de seus apoiadores.
A reação negativa também contou com comentários de figuras públicas e influenciadores. Spartakus, conhecido por seu trabalho como influenciador digital, descreveu a publicação como “um desserviço”, criticando a estratégia da editora ao divulgar uma mensagem que, segundo ele, poderia contribuir para a polarização política. Jéssica Balbino, jornalista e analista política, questionou o impacto da publicação no cenário eleitoral, levantando a hipótese de que o engajamento obtido pela postagem poderia ser prejudicial caso o candidato de direita, Flávio Bolsonaro, fosse eleito. Ela afirmou: “O que a editora vai fazer com esse engajamento obtido hoje se o Flávio Bolsonaro for eleito? Olha… sinceramente”.
Outro comentário relevante foi do apresentador Roger Cipó, que destacou a presença de bell hooks no catálogo da editora. Ele criticou a escolha da publicação, afirmando: “Se vocês publicarem o Cury eu até entenderia o post, mas vocês publicam bell hooks, sabe?”. Sua observação reforça a contradição entre a reputação da autora, conhecida por suas obras sobre feminismo, raça e questões de classe, e a estratégia de marketing adotada pela editora.
A curadora de arte Andreza Delgado também se manifestou criticamente, apontando uma possível tática de engajamento baseada na polarização. Ela afirmou que a estratégia da editora poderia ser interpretada como uma “tática do backlash”, ou seja, uma tentativa de gerar reações contrárias para aumentar o alcance da publicação. Delgado ressaltou que “like e engajamento momentâneo não limpam uma reputação manchada depois” e que, como pesquisadora de bell hooks, ela se incomoda ao ver a obra da autora circulando em uma página que, segundo ela, estaria abrindo mão de seu conteúdo em troca de curtidas e visualizações.
Este episódio evidencia o impacto das estratégias de comunicação no cenário político e cultural brasileiro, sobretudo quando envolvem figuras e obras de relevância internacional, como bell hooks. A controvérsia também reacende debates sobre o papel das editoras na formação de opiniões e a responsabilidade social na divulgação de conteúdos relacionados a temas sensíveis, como política, identidade e justiça social.












