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Boni relata dificuldade na demissão de Dercy Gonçalves na Globo durante a ditadura militar

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Imagem: Reprodução/vídeo

O ex-vice-presidente de operações da TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, conhecido como Boni, revelou nesta quarta-feira (9) qual foi a demissão mais difícil de sua trajetória na emissora. Em vídeo divulgado nas redes sociais, Boni contou que a saída de Dercy Gonçalves, uma de suas amigas mais próximas, foi um momento extremamente doloroso, marcado por pressões decorrentes da censura imposta pelo regime militar na época.

Segundo Boni, a decisão de afastar Dercy Gonçalves ocorreu após uma série de problemas provocados pela censura governamental durante o período da ditadura militar, que teve início em 1964 e durou até o início dos anos 1980. Ele destacou que a relação com a atriz e comediante era de grande admiração, mas que a situação se tornou insustentável devido às intervenções constantes na programação da emissora. O programa de Dercy, na época, era exibido ao vivo, o que agravava as dificuldades enfrentadas com a censura, pois o governo exigia que o conteúdo fosse gravado previamente para facilitar cortes e intervenções.

Boni explicou que, inicialmente, a Globo tentou adaptar o formato do programa para o formato gravado, na tentativa de contornar as ações da censura. Contudo, essa estratégia não foi suficiente. A equipe produzia horas de material, mas uma parte significativa dele era cortada pelos censores, o que dificultava a exibição de um conteúdo completo. Com o tempo, a quantidade de cortes aumentou a ponto de a emissora não dispor de material suficiente para manter o programa no ar. Essa situação levou a uma redução progressiva na quantidade de conteúdo autorizado, até que a emissora não conseguiu mais exibir o programa de Dercy Gonçalves de forma regular.

Boni afirmou que a censura tinha impacto direto também na parte financeira da Globo. Como o programa de Dercy não podia ser exibido com regularidade, a emissora enfrentou dificuldades para garantir os patrocínios necessários à sua sustentação. A ausência de patrocínios e a redução de conteúdo comprometeram o funcionamento da atração, levando à decisão de afastar Dercy Gonçalves da emissora. Boni ressaltou que essa decisão não foi fácil e que a responsabilidade de comunicar a saída de Dercy coube a ele pessoalmente. Ele contou que precisou conversar com a atriz, chamando-a para uma reunião em que explicou a situação, deixando claro que, assim que fosse possível, ela seria recontratada.

O relato de Boni evidencia o impacto emocional daquele momento, marcado pela despedida de uma das artistas mais emblemáticas da história da televisão brasileira. Dercy Gonçalves faleceu em 2008, aos 101 anos, mas seu legado na televisão permanece vivo. Durante o regime militar, ela comandou programas como o “Dercy Espetacular”, em 1966, e o “Dercy de Verdade”, exibido entre 1966 e 1969. A atuação da censura na época foi intensa, chegando ao ponto de inviabilizar a continuidade de seus programas e contribuindo para sua saída da Globo, conforme relatado por Boni. O episódio revela as dificuldades enfrentadas pela emissora durante um período de forte repressão política e censura, que afetou a produção artística e o relacionamento com seus talentos mais tradicionais.