Enfraquecido após derrota nas urnas, PSDB busca autocrítica

Postado em 22/10/2018 9:06

Domingos Sávio defende que o PSDB passe por uma “refundação” |

Em 2014, Aécio Neves era a principal figura do PSDB. As esperanças do partido de voltar à Presidência estavam depositadas no senador mineiro. A noite de domingo, 26 de outubro, anunciou o resultado em segundo turno. Depois de uma disputa voto a voto contra Dilma Rousseff (PT), os tucanos, pela quarta vez consecutiva, perdiam a eleição.

Aécio e PSDB, embora tenham provado o gosto amargo da derrota, saíram fortes da corrida ao Palácio do Planalto. Com mais de 51 milhões de apoio nas urnas, ou 48,36% dos votos válidos – e uma pequena diferença de 3 milhões para a petista –, eles venceram em 12 Estados, e Aécio era o nome natural da sigla para concorrer à eleição deste ano. Porém, no meio do caminho havia uma delação.

Em maio de 2017, Aécio Neves, então presidente do PSDB, foi flagrado em uma gravação pedindo R$ 2 milhões para Joesley Batista, um dos donos do frigorífico JBS. A quantia seria para pagar as despesas de Aécio com sua defesa na Lava Jato. Batista entregou a fita à Procuradoria Geral da República em uma delação premiada.

O episódio trouxe consequências não só ao mineiro, mas também a seu partido. Senador em fim de mandato e eleito deputado federal com cerca de 100 mil votos, quando sua equipe esperava quatro vezes mais, Aécio voltará ao Congresso com a imagem desgastada. O PSDB também.

A queda

De terceira maior bancada eleita na Câmara dos Deputados em 2014, com 54 representantes, o partido ocupará, a partir do ano que vem, apenas a nona posição, com 29 parlamentares. Na atual configuração, a legenda possui 49 cadeiras na casa.

Em Minas, também houve queda – perdeu duas vagas e, no mandato que se inicia em 2019, terá sete nomes na Assembleia.

Na corrida presidencial, os tucanos tiveram o pior desempenho desde a fundação, em 1988. Geraldo Alckmin alcançou 4,76% dos votos, pouco mais de 5 milhões, número muito aquém do esperado e dez vezes menor se comparado ao líder no primeiro turno, Jair Bolsonaro (PSL).

As prisões de caciques da legenda também contribuíram para um 2018 longe do plano ideal tucano. O ex-governador de Minas, Eduardo Azeredo, está detido desde maio, condenado a 20 anos por peculato e lavagem de dinheiro no mensalão tucano. Mais recentemente, Beto Richa e Marconi Perillo, ex-governadores do Paraná e de Goiás, respectivamente, passaram alguns dias na cadeia, mas conseguiram retomar a liberdade por meio de habeas corpus.

Mea culpa

Em setembro, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) admitiu que o partido falhou na estratégia em várias situações nos últimos anos. “O grande erro, e boa parte do PSDB se opôs a isso, foi entrar no governo Temer. Foi a gota d’água, junto com os problemas do Aécio”, afirmou.

Diferentemente de Jereissati, o ex-governador de São Paulo Alberto Goldman considera que a participação na gestão Temer foi uma decisão da executiva nacional para garantir a governabilidade, mas ponderou que o episódio Aécio Neves e JBS “foi determinante nesse desempenho horroroso” que o partido teve.

Aliás, um imbróglio no PSDB paulista envolvendo Goldman expõe os rachas internos do partido. Um dia após o primeiro turno, a imprensa noticiou que ele havia sido expulso por traição.

A alegação é que ele teria apoiado adversários de João Doria, seu desafeto, que disputa o governo de São Paulo. O tucano, porém, contesta: “Para expulsar alguém tem um rito processual, um processo no conselho de ética. O diretório nacional se manifestou dizendo que o ato não tinha nenhum efeito”. 

Crise

Embora seja consenso nos bastidores que a sigla sai bastante enfraquecido da recente disputa, alguns integrantes avaliam que o momento é crítico também para a chamada “política tradicional”.

Para o presidente do PSDB em Minas, deputado federal reeleito Domingos Sávio, houve um desgaste de todos os partidos tradicionais, e a situação tucana requer uma profunda análise. “O PSDB recebeu um recado das urnas e deve ter humildade para fazer a autocrítica”, argumentou.

O deputado federal Marcus Pestana diz que todo o sistema político tradicional foi “gravemente derrotado” pelas urnas em 2018.

“Houve um tsunami político. Os outsiders encontraram um terreno fértil para a chamada ‘terceira via’ contra a polarização entre PT e PSDB, que deram um verdadeiro abraço de afogados”, afirmou o parlamentar, que tentou a reeleição no último pleito, mas não conseguiu aprovação popular. Procurado, o senador Aécio Neves não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Jejum tucano

Desgaste. Com Geraldo Alckmin fora da disputa presidencial, é a primeira vez, desde 2002, que o PSDB não vai ao segundo turno. Além disso, essa é a quinta derrota consecutiva do partido no pleito.

 

Integrantes defendem ‘refundação’ da sigla

O desempenho do PSDB na eleição será um dos temas de um encontro nacional do partido, em novembro, ainda sem data definida, mas já previsto pela executiva nacional da legenda. A ideia é esperar o fim do segundo turno nos seis Estados que a sigla disputa para realizar o seminário.

O presidente do PSDB em Minas, deputado federal Domingos Sávio, defende um novo processo de eleições internas e diz que os tucanos terão que “praticamente refundar o partido”. “O PSDB deve fazer a autocrítica, temos que ter humildade para melhorar”, disse o parlamentar.

Para o ex-governador de São Paulo Alberto Goldman é preciso avaliar os motivos que levaram a legenda ao momento atual. “É uma realidade que exige uma profunda avaliação para saber qual é o futuro”, comentou.

Já o deputado federal Marcus Pestana afirmou que o PSDB terá que passar por um processo de avaliação e reposicionamento, “já que foi um dos grandes derrotados nas eleições”.

 

Minientrevista

David Fleischer

Cientista político e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

Por que o PSDB apresentou um desempenho eleitoral em 2018 tão pior se comparado a 2014?

Um dos problemas foi o candidato à Presidência, Geraldo Alckmin, que é realmente um picolé de chuchu, completamente sem carisma. Quando o Aécio foi cabeça de chapa, em 2014, ele ajudou a puxar votos nos Estados. O Alckmin não tem essa característica, e o partido sofreu as consequências nas urnas. 

Quais outros fatores contribuíram para a legenda receber menos apoio popular neste ano?

A polarização entre o PT e Bolsonaro enfraqueceu bastante o PSDB. Os casos de corrupção também afetaram a imagem do partido, principalmente o do Aécio. O Alckmin foi perguntado por que, como presidente do partido, não expulsou o Eduardo Azeredo, o Aécio. Ele começou a enrolar. Quando o Tasso Jereissati era o presidente do partido, ele expulsou quatro integrantes envolvidos com corrupção. Ter embarcado no governo Temer também prejudicou a imagem do partido.

Qual é a saída, então, para o partido recuperar a força política que perdeu?

Teria que ter uma autocrítica, uma reorganização do partido, com outro presidente, outro diretório. Uma voz muito forte é a do Arthur Virgílio, que acha o Alckmin muito fraco como presidente da legenda. A sigla tem a possibilidade de reverter essa situação.

 

fonte: https://www.otempo.com.br/hotsites/elei%C3%A7%C3%B5es-2018/enfraquecido-ap%C3%B3s-derrota-nas-urnas-psdb-busca-autocr%C3%ADtica-1.2057637

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