Blog do João Cenzi

Sorte de principiante?

Postado em 11/08/2019 21:29

Por João Cenzi

Já estamos há quase uma completa gestação da vigência do governo Bolsonaro, mas ainda não veio à luz uma definição de minha parte se o capitão está aplicando uma estratégia de governo brilhante, ou se ele, apesar dos pesares, está sendo bafejado pela sorte que muitas vezes inesperadamente contempla neófitos inexperientes.

Desde que tomou posse, Bolsonaro não se cansa de ser o maior opositor de seu próprio governo, seja com diárias declarações destemperadas e impensadas, passando por atuações políticas que só atrapalharam os projetos de alguns de seus ministros no Congresso, e chegando ao seu núcleo familiar, no qual compactua com as descontroladas investidas de seu pitbull Carlos, com a fuga da Justiça de Flávio e com o desejado “intercâmbio cultural” de Eduardo na Embaixada dos EUA, além do frete de parentes em aeronave da FAB.

Quando um dos assuntos jogados no ventilador pela inépcia do presidente começa a esfriar e a gente imagina que haverá um benéfico intervalo entre os entreveros políticos, uma busca de união em prol do desenvolvimento do país, uma declaração de planos e projetos para a retomada do crescimento, eis que a beligerante língua presidencial derruba todas as esperanças com uma singela e simples declaração polêmica, agressiva e totalmente fora de propósito.

Apesar desses fatos, no entanto, a reforma da Previdência, tida como um nó na Economia a ser desatado, andou, foi aprovada na Câmara e caminha para uma rápida tramitação no Senado, preservando quase o desejado trilhão de reais de economia em dez anos tão alardeado por Guedes.

O primeiro semestre do governo já acumula mais de 415 mil empregos com carteira assinada criados, número maior que o do ano de 2018 inteiro, e o melhor desde 2014. Algumas medidas, ainda tímidas, porém cruciais para o desenvolvimento, são aprovadas sem ruídos, tão silenciosamente que a sociedade sequer se dá conta delas.

Ninguém dá notícias de alguns ministros durante um bom tempo e, de repente, surge a aprovação do acordo Mercosul-União Européia. Todo mundo fica ligado no disse-não-disse do Telegram do juiz com os promotores, na tentativa de derrubar o ministro da Justiça, porém o país bate recordes de recuperação de ativos corruptamente desviados, a criminalidade retrocede em várias áreas, os assassinatos diminuem visivelmente, e as ações contra milícias e facções criminosas são rápidas e efetivas.

 

A última do presidente, pelo menos até que eu termine de digitar esse texto, foi dizer a Moro que ele precisa ter paciência e segurar o pacote anticrime que enviou ao Congresso, pois  estaria atrapalhando a tramitação das reformas necessárias. Mas… Não foi exatamente para isso que Bolsonaro nomeou o ex-juiz ministro da Justiça?

 

Ele, que diz estar cumprindo todas as promessas de campanha, não vivia alardeando que iria acabar com a corrupção? E aí? Mais uma inexperiente trapalhada, ou faz parte da estratégia?

Sei não, mas certamente eu não gostaria de estar na pele dos políticos de oposição ao atual governo.

 

Além de chamuscados por todos os acontecimentos recentes, refugados pela maioria da população, eles ainda devem estar mais embatucados que eu para tentar deslindar essa charada que responde pelo nome de Bolsonaro! E nem mesmo oposição podem fazer tranquilos, pois o próprio presidente cuida disso também!

 

Para que se trate de uma estudada estratégia seria necessário reconhecer no presidente, ou em seu staff, uma inteligência descomunal que, aparentemente, não condiz com a realidade. Até mesmo essa tentativa de freio em Moro, a ser examinada como estratégia, passa a ser genial. Bastou que o ministro enviasse seu pacote ao Congresso para que Rodrigo Maia o jogasse para escanteio, os parlamentares se apressassem a aprovar o projeto de abuso de autoridade, que pretende garrotear procuradores e juízes de instâncias inferiores. O STF passou a decidir baseado na Constituição da Bananândia do Norte, e não na nossa, tentando de acabar com a Lava-Jato e derrubar Moro. Quem apostaria uma cédula de três reais que o pacote de Moro teria alguma chance de prosperar em um Congresso como o atual, contando com a enorme contribuição do pior STF de nossa História?

Fazendo com que Moro pise no freio e retire o seu pacote do Congresso, Bolsonaro transmitirá aos congressistas a sensação de que desistiu dessa batalha, e aliviará a pressão sobre os enrolados que ainda lá estão. Essa sensação de vitória do Congresso frente ao linguarudo presidente, dará a falsa ideia de que o Parlamento o está dobrando, e eles estarão mais receptivos a outras medidas que não lhe fiquem farejando os calcanhares de vidro (ou de pura lama).

 

Enquanto isso, o trabalho dos ministros, blindados pela ferina língua do presidente, continuará corrigindo a rota do país, a Economia certamente reagirá, a avaliação do governo subirá, o que dará mais segurança a que os represados investimentos privados comecem a aportar aqui, e finalmente a população poderá vislumbrar um poderoso holofote no fim do túnel.

Com a avaliação do governo Bolsonaro indo às alturas, ele se fortalecerá politicamente e poderá começar a dar as cartas nos rumos do país. Assim, em outras circunstâncias mais propícias, Moro poderá voltar com seu pacote com mais chances de aprovação, pois os enlameados do Congresso e os ministros garantistas de corruptos do STF estarão muito mais pressionados.

Bem… Analisando por esse ângulo, a balança parece mesmo pender para o lado da estratégia. No entanto, a se tender para esse lado, sou obrigado a reconhecer no presidente e sua turma uma inteligência que não consigo atribuir ao tosco capitão, seus filhos e aos generais que o cercam.

Acho melhor ficar ainda mais algum tempo na dúvida, e não cravar um dos lados. Afinal, pode mesmo estar ocorrendo uma terceira hipótese, que nem desejo avaliar: que esse país tenha chegado a uma situação tão maluca e bizarra, que só mesmo um desmiolado o poderia guiar!

Haja dúvidas!

 

João Batista Cenzi

João Batista Cenzi é engenheiro mecânico, administrador de empresas e, atualmente, diretor da Instituto Pesquisas de Opinião Censuk. É comentarista constantemente convidado nas programações da TV Candidés e da Minas FM.

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Autor do blog: João Batista Cenzi

Blog do João Batista Cenzi. Analista político, administrador de empresas e, atualmente, diretor do Instituto de Pesquisas Censuk, João Cenzi é nome presente, há anos, como comentarista político na TV Candidés. No Portal MPA, o Blog do João Cenzi traz as análises pontuais sobre a política brasileira. Sempre com seus traços marcantes: objetividade e sinceridade. Nascido em São João da Vista-SP, Cenzi tornou-se divinopolitano de coração desde a década de 70, pois aqui no Centro-Oeste foi onde constituiu lar, família e empresa. Sua presença também é rotineira nas ondas da Minas FM 104,1.

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