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Finanças: Nossa discussão sobre Banco Inter

Postado em 16/08/2019 1:00

O que eu acho de Banco Inter nesses preços?

Qual a diferença entre trade e fundamento?

O artigo de hoje é baseado em uma conversa entre eu e o Ragazi, ontem, no escritório.

O Ian nos perguntou: "É possível ter uma valorização de 400 por cento de um ação sem o fundamento acompanhando? É possível que uma ação suba 400 por cento em um movimento apenas de bolha? Essa alta não quer dizer que existe algum fundamento? E para o analista que não previu a alta, significa que ele errou?".

Essa conversa começou, pois eu e o Ragazi comentávamos o resultado do Banco Inter…

O Banco reportou um lucro de 32,9 milhões, que representa um ROE de 13 por cento, e, portanto, maior que os 10,6 por cento de ROE do mesmo trimestre do ano anterior:

Parecem lindos os gráficos da apresentação da empresa, não?! SQN!

Cerca de 22 milhões desse resultado veio da parceria com WIZ, que foi um resultado único e não-recorrente (apesar das demais parcelas ainda a receber).

Ou seja: na verdade, o lucro recorrente foi 11 milhões, o que equivale a um ROE de 4,5 por cento, e, portanto, um dos menores da história recente do banco.

A queda no resultado foi fruto de aumento de inadimplência e custos operacionais.

Mas voltando a pergunta do Ian, eu fui lá responder…

Opa! Claro que é possível ser uma bolha e qualquer ação pode subir sem absolutamente nenhum fundamento! Deixa eu te contar uma história…

Era uma vez uma empresa chamada OGX

Em 2009, no meio da recuperação rápida e gigantesca da nossa bolsa, pós-crise da subprime, surgiu uma história de uma empresa que prometia ser o futuro das produtoras de petróleo.

Os Powerpoints eram animados; o CEO era cool e namorava uma famosa; a história era impecável e muito atraente.

O mercado adora uma boa história para aumentar suas esperanças.

"Ganhar dinheiro devagar e consistentemente é para os fracos! Queremos disrupção" – dizia o mercado.

As ações subiram 711 por cento…

Antes de virarem pó!!!

A empresa dependia do descobrimento de petróleo em áreas ainda não perfuradas. As promessas se esvaziaram quando não foi encontrado petróleo alí.

Agora, imagine você, quantos analistas fundamentalistas foram chamados dos mais exóticos xingamentos pois não acertaram uma alta de 700 por cento, enquanto ela acontecia?

Imagine você, a quantidade de especuladores que foram tidos como absolutos gênios por acertarem o movimento de alta, enquanto ele ainda acontecia?

E, claro, imagine você, quantos investidores sardinhas chegaram atrasados, compraram OGX perto da máxima e viram seu patrimônio virar pó?

Acha essa história muito específica?

Conhece a história do Bitcoin? A tecnologia revolucionária que iria mudar a forma com que as pessoas vêem o dinheiro, e iria para 100.000 dólares?

Quantos gênios das criptomoedas você conheceu no ano passado?

Ainda não está convencido?

Já ouviu falar das revolucionárias empresas ".COM"?

Esse é o gráfico da NASDAQ na década de 90.

Diferenças entre trade e fundamento

Não tem problema nenhum você querer surfar grandes altas, e ganhar muito dinheiro com isso.

Ganhou dinheiro, eu digo "Amém!". Sem preconceitos!

Eu, particularmente, tenho o trade em minha formação e acho super válido.

Mas é preciso diferenciar o joio do trigo, e você vai entender por quê.

O trade tem a ver com fluxo, com o mercado entrar em uma onda, com o mercado operar uma história (seja ela verdadeira ou não).

O trade é muito mais suscetível a sorte, ao humor de mercado, aos boatos de fóruns.

O trade DEPENDE de novos entrantes a cada dia. Mais pessoas têm que comprar a sua tese, para que você consiga sair a tempo, com o ativo ainda em alta.

O trade tem chance MUITO maior de dar errado. Eu diria, umas 10 vezes mais.

O fundamento é bem mais controlado, e dificilmente dá errado no médio prazo. Você tem dados para comprovar a tese. Ela não depende de coisas mirabolantes e disruptivas.

É importante você saber que estilo vai querer seguir, ou até, que proporção do seu patrimônio vai destinar para cada estratégia.

E, acima de tudo, se você segue um analista, é importante você saber que tipo de analista é esse. E que jogo ele joga.

Não tem problema nenhum você seguir o trader! Totalmente válido!

Mas, como sempre pregamos aqui: você tem que estar 100 por cento ciente dos riscos que está correndo.

Tem que estar ciente de que trade é trade. É mais arriscado. Então, você tem que lidar com isso dentro dos percentuais do seu patrimônio.

O trade pode voltar (despencar) a qualquer momento.

Já o fundamento é bem mais difícil de mudar. Pois está atrelado ao resultado real da empresa, ao lucro, ao crescimento…

Sabendo que está perseguindo um trade, fique mais atento ao humor do mercado. Se achar que está virando contra, seja rápido na hora de sair. Enfim, cada um tem sua forma de operar.

Aqui na Nord, fazemos análise fundamentalista. E apenas isso. Somos bons nisso. Não fazemos trade. Ninguém é bom em tudo, não é mesmo? Mas é importante deixar claro que tipo de operações vamos perseguir.

Muito provavelmente você vai perder alguns grandes trades. Aquelas altas que ninguém sabe explicar direito porque estão ocorrendo.

Mas, se não pegarmos as maiores altas por fundamento, aí estaremos errando.

O que eu acho de Banco Inter nesses preços?

Olhei a queda no resultado e logo fui ver quanto estava o preço da ação. Imaginei que ela estaria caindo.

Para a minha surpresa, o Ragazi me disse que a ação fechou subindo quase 9 por cento no dia seguinte à divulgação. E que ele achava que o mercado parecia ter comprado a história do "Super App". Disse que a ação precificava 170 vezes lucro.

O Ragazi sempre foi um defensor voraz de Banco Inter aqui na Nord. Eu e o Bruce não gostávamos do case.

Mas, ontem, o próprio Ragazi me disse: "parece que agora esticou demais. A 90 vezes lucro o banco podia crescer o que já estava crescendo, com a mesma rentabilidade, que chegaria no resultado esperado pelo mercado, sem dificuldades. Nesse preço, ele precisa não somente crescer mais rápido do que hoje, como aumentar sua rentabilidade."

Eu não sou analista de equity, mas aqui vai o que eu acho do banco, baseado apenas no bom senso:

O banco se propõe a ser um banco digital que não cobra tarifas. Essas duas características possuem duas consequências.

O banco digital não possui agências ou intermediários, e, portanto, aumenta sua base de clientes captando novos interessados pela internet.

Disso, humildemente falando, eu entendo bem. É o meu business também.

Aquelas pessoas mais interessadas no seu conteúdo e com maior tendência a ser usuário intensivo do seu produto vêm logo no começo. Elas convertem rápido e dão muito retorno.

É como se você fosse pescar um peixe em um pesque e pague. Os peixes são bonitos, grandes, suculentos, e fáceis de pegar.

Mas, você sabe que se for para o oceano, não terá o mesmo índice de acerto. No oceano, você vai demorar meses para conseguir o mesmo peixe gordinho. No meio da pescaria vai puxar pneu, garrafa, e algumas sardinhas.

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Os melhores clientes de todo o setor bancário, com mais dinheiro para gastar, estão nos grandes bancos, nos privates da vida, já sendo muito bem tratados e não pagando nada de tarifas. Eles dificilmente vão mudar.

O modelo de negócios do Inter foca nos clientes que não são primes, que têm menos dinheiro, e que gastam menos.

É possível que o Banco consiga rentabilizar melhor os clientes com o lançamento de um novo produto que se torne altamente lucrativo? Com certeza! Mas esse é o jogo que os investidores estão jogando: apostar em algo que ainda não aconteceu!

Até os grandes defensores do case admitem que ninguém sabe ainda como a rentabilidade futura virá.

Mas e o Super App, Marilia

Tem um nome lindo. Mas não é disruptivo. A Rappi já fez, e a cada dia uma nova empresa anuncia um Super App ou um Market Place.

E a revolução nos meios de pagamento?

O Itaú lançou o tal de "Iti". Você já viu?

Enfim, já estou me alongando demais. Mas fecho deixando claro que espero que quem está comprado no Banco Inter siga ganhando dinheiro e sendo muito feliz.

Mas vejo pouco fundamento nesses preços, e não posso deixar de fazer o meu alerta.

Será que Rappi, Uber, iFood, serão as empresas do futuro? Ou será que serão parte da nova bolha das ".com"? Eu realmente não sei!

Na dúvida, considere sempre a possibilidade de a maré virar e tenha cuidado com o tamanho da sua exposição.  

Aliás, a live da Nord hoje, às 16h, será sobre histórias de fracasso na Bolsa. Imperdível.

Um grande abraço,

Postado originalmente por: Nord Research

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